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A onda

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Luciano Pires -

O que define “democracia” não é “a vontade da maioria”, mas é “poder discordar da maioria”. Se a discordância for feita dentro da lei, não há o que temer, ninguém será punido por pensar diferente.

No Brasil, há muito tempo assistimos ao domínio de pensamento, na academia, na política e na imprensa, daquela corrente que ainda é tratada como “esquerda”, ou numa tentativa de modernização, como “progressista”. São os progressistas que pautam as discussões no universo cultural brasileiro. De forma sistemática, planejada e minuciosa foram ocupando os espaços de discussão e aos poucos criaram uma visão hegemônica. No Brasil (sendo justo: no mundo!) o discurso é progressista, mesmo que a população seja conservadora.

E se você não se alinha ao pensamento progressista, você é do mal. Ponto.

A maioria desses progressistas jamais leu Marx e, quando leu, não entendeu, mas proliferaram e ocuparam todos os espaços. São os marquissistas. E assim professores-marquissistas, liguistas-marquissistas, advogados e juízes-marquissistas, jogadores de futebol-marquissistas, jornalistas-marquissistas, atores e atrizes-marquissistas, escritores-marquissistas, poetas-marquissistas, músicos-marquissistas, cineastas-marquissistas, blogueiros-marquissistas ocuparam posições de destaque de onde contaminaram as discussões. Sua influência pode ser vista na nova geração que povoa patéticos vídeos recheados de jovens artistas que pregam o progressismo inconsequente pelo Youtube, ou nas celebridades de internet que também em seus vídeos disseminam o que eu chamo de Teologia do Crioulo Doido, uma mistura de Karl Marx com o Chapolin Colorado.

As poucas vozes dissonantes, com visão liberal ou conservadora, foram aos poucos sendo caladas, perdendo seus canais de comunicação com o grande público, sendo ridicularizadas e quase desaparecendo. O adjetivo “de direita” passou a ser uma ofensa e muita gente, para não ser acusada de antiprogressista, portanto “do mal”, calou-se. E assim passaram-se 20, 30, 40 anos.

Mas o discurso progressista, que promete um céu que jamais chega, não tem sustentabilidade, e uma onda de velhas e novas vozes está (re)surgindo, trazendo a diversidade perdida de volta ao debate.

A nomes que resistiram praticamente sozinhos, como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Graça Salgueiro e Augusto Nunes, junta-se uma miríade de ex-progressistas, progressistas-racionais e liberais-progressistas, numa dança de cadeiras muito interessante. A Folha de São Paulo contrata Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnolli como colunistas. A Veja contrata Rodrigo Constantino. A CBN vai de Fernando Gabeira e Marcelo Madureira. O letrista e escritor Nelson Motta reforça a visão liberal-conservadora em vários de seus textos. O roqueiro Lobão desponta, com livros e programas de entrevista na internet. O comediante Danilo Gentili se revela dono de uma visão liberal-conservadora surpreendente. E vem uma nova geração, com nomes como Luiz Felipe Pondé, Leandro Narloch, Guilherme Fiúza, Bruno Garschagen, Flavio Morgenstern, Paulo Eduardo Martins e Rachel Sheherazade opinando nas redes sociais e emissoras de televisão. Esses são os de que me lembrei assim, de bate-pronto. Existem muitos mais, além de sites como www.midiasemmascara.com.br, www.implicante.org, www.escolasempartido.com.br, http://notalatina.blogspot.com.br, www.mises.org.br, www.radiovox.org, etc.

Você pode odiar essa turma, achar que são dinossauros ou sentir a tentação de chamá-los pelo adjetivo burro da hora: fascistas. Mas eles são necessários. Quebram a hegemonia do discurso, criam as polêmicas e trazem aquilo que os progressistas juram defender: a diversidade.

Conviver com quem pensa diferente. Nem todo mundo consegue.

Luciano Pires