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Apareceu a Margarida

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Luciano Pires -

O ano é 1978, e o local é o Bauru Tênis Club, o clube da classe média alta de minha terra natal. Naquela noite, a cidade estava em festa. A grande atriz Marilia Pera estava lá para apresentar um monólogo de Roberto Athayde chamado “Apareceu a Margarida”, que havia permanecido em cartaz por dois anos na capital.  A peça era um tremendo sucesso e nela a atriz dava uma aula de biologia usando palavrões para explicar o ser humano. Ocorre que, ao invés de colocar um esqueleto no palco, ela coloca um ator nu, de costas para a plateia. Na cenografia, que representava uma sala de aula, havia um quadro do coração de Jesus, aquela imagem clássica da figura de Jesus Cristo apontando para seu coração envolto numa coroa de espinhos. Essa imagem era comum nas salas de aula dos anos 40 aos 60 no Brasil. O ator nu está de frente para a imagem.

Assim que a cena começa, o empresário Sérvio Tulio Coube, de família tradicional na cidade, interrompe a peça ao subir ao palco e retirar a imagem do Sagrado Coração. Para ele, aquela cena era um desrespeito, e aquele quadro não deveria estar ali. Marilia Pera, indignada, vai na direção do empresário, segura o quadro e o que se vê em cena é um cabo de guerra. O delegado da cidade sobe ao palco para o deixa disso e os 1600 espectadores começam a vaiar. Marilia fica histérica. Ela jamais passara por uma situação semelhante. Uma hora depois o Jornal Nacional dá a notícia.  Marilia Pera disse ao promotor da peça, Paulo Neves: “Paulo, meus colegas não vão passar por isso que eu passei.” E Bauru ficou 10, 15 anos sem receber qualquer espetáculo que tivesse atores da Globo.

Eu já vivia em São Paulo, mas me lembro perfeitamente do escândalo e dos rótulos de “ cidade conservadora” que Bauru recebeu.

Em 2014 foi a vez do ator Ney Latorraca, no Rio de Janeiro. Ney, então com 70 anos de idade, teve de interromper a peça Entredentes, de Gerald Thomas, para repreender uma espectadora de 72 anos que passou 20 minutos fazendo comentários homofóbicos em voz alta na plateia. Ney comentou:

— Não sei se por causa do clima das eleições, não sei o que é, mas as pessoas perderam a noção. Acham que podem dizer o que querem, que liberou geral, que podem agredir.

Pois é.

Se a situação de 1978 se repetisse hoje, o empresário seria imediatamente tachado de “coxinha”, “fascista”, “reacionário” e “ elite branca”, você tem alguma dúvida?

Afinal, um espectador que não concorda com o que está sendo dito no palco, tem o direito de interromper uma peça? E se forem dois espectadores? Dez? Cem?

É claro que não… A menos que o artista no palco critique Lula ou Dilma.

Aí pode.

Se você acha que estou falando de liberdade de expressão, errou.

Estou falando de hipocrisia.