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Gênios por natureza

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Luciano Pires -

Ao final de minha palestra “Geração T”, um dos jovens perguntou se a pessoa nasce gênio ou estuda para se transformar em gênio. Respondi com uma história de dois gênios. O primeiro é o inglês Eric Clapton, um dos maiores guitarristas de blues em atividade. O sujeito é tão bom que por volta de 1966, quando tocava na banda John Mayall & The Bluesbreakers, os fãs pixavam pelas ruas de Londres a inscrição “Clapton is God”. Com uma carreira já cinquentenária, Eric continua nos brindando com sua arte, tirando da guitarra sons deliciosos. Eric é um gênio e assisti a uma entrevista na qual ele conta uma história que nos apresenta ao segundo gênio. Enquanto dirigia na região de Detroit ele ouviu no rádio, pela primeira vez, um guitarrista que tocava de forma assombrosa: Stevie Ray Vaughan, o maior guitarrista do blues rock que já ouvi. Mas é quando Eric Clapton explica o que sentiu quando viu Stevie Ray Vaughan tocar, que temos uma noção de genialidade:

“Quando toco, vou pensando na sequência de acordes. Penso para concluir que daqui tenho que ir para ali, o que leva uma fração de segundo. Stevie Ray Vaughan não pensa! Ele muda de um acorde para o outro como se a guitarra fosse uma extensão de seu corpo, sem pensar no que vem em seguida. É algo natural, instintivo!”

Eric Clapton estudou para se tornar um gênio. Stevie também estudou, mas nasceu com “algo mais” que habilidade, o que fez dele um gênio capaz de assombrar um deus da guitarra! Meu amigo, outro gênio da guitarra, Nuno Mindelis, disse que quando sobe no palco, “uma coisa” toma conta dele. “É uma espécie de autismo”. Ele integra-se à guitarra, tocando de uma forma que nem ele entende.

Gênios que estudam para se tornar gênios, gênios que nascem gênios e estudam para desenvolver sua capacidade. E citei para o jovem que perguntou, outro gênio por natureza: Neymar. Admiro os gênios, mas sei que a genialidade cobra um alto preço. Ela consome uma energia brutal, que faz com que a pessoa se torne um anormal em certos traços da personalidade. Um não toma banho. Outro tem manias com cores. Outro bate na mulher. Muitos se suicidam. Outros mergulham em vícios. Genialidade é desequilíbrio…

E eu disse para o garoto: “O gênio é um anormal, alguém que está fora da média e que não responde aos mesmos estímulos dos normais (ou medíocres). O mais importante é refletir sobre suas forças e habilidades para definir onde é que você deve investir. Em muitos pontos você ficará apenas bom, o que já é uma conquista, mas em outros poderá chegar até as raias da genialidade.”

Concluí a explicação com uma frase de Simone de Beauvoir que resume o assunto: “Não nascemos gênios, nos tornamos gênios”.

Pois é. Mas dá tanto trabalho e incomodação que a maioria prefere ficar na média.

Luciano Pires

PS: se você quer ver Stevie Ray Vaughan no auge da genialidade, vá até aqui: http://www.portalcafebrasil.com.br/livre/artes/steve-ray-vaughn