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O Bobo

O Bobo

Luciano Pires -

Alguns conhecidos foram embora do Brasil. Sempre pela mesma razão: Não dá mais para viver aqui e esperar um futuro digno. O Brasil já era…
É claro que não concordo com eles. Abandonar o barco não está nos meus planos. Mas eles cansaram de lutar, de se decepcionar, e decidiram construir seu futuro em outros lugares. Tenho que respeitar essa decisão. E nenhum deles, até o momento, se mostra arrependido. Na verdade, até me chamaram de bobo…
Outro dia eu tentava classificar esses amigos. São refugiados. Mas refugiados do quê? Políticos? Não. Já passou esse tempo. Religiosos? Não. Não temos no Brasil essa intolerância religiosa. Econômicos? Será? Não. Não acho que se aplique. E então recebi um e-mail de um leitor, o Walter Schütz, que sanou minhas dúvidas. Olha só:

“Estou pensando seriamente em pedir outra nacionalidade, depois do Renan, e de ouvir do teu presidente mais de uma vez que ninguém tem mais identidade moral no país que ele e o PT. Se este é o parâmetro, e como me considero diferente deles, resta-me apenas achar um país onde a ética não tenha sido afrontada como o foi no Brasil e pedir humildemente que me aceitem como refugiado ético.”

Refugiados éticos. Genial!

Descreve com precisão a situação em que se encontram meus amigos. Veja só: eles tinham empregos bons no Brasil. Os filhos estavam em boas escolas, as famílias viviam decentemente, todos de classe média alta. Mas perderam aos poucos a credibilidade e a confiança no Brasil. Até um dia perder a esperança.

Quando perdemos a esperança, morremos um pouquinho. Ou um montão.

Certamente os últimos acontecimentos relacionados ao julgamento de Renan Calheiros converteram mais alguns milhões de brasileiros – que ainda tinham alguma esperança – em céticos que não acreditam em mais nada. E que são tão perigosos quanto os que acreditam em tudo.
Mas fazer o quê diante desse descalabro, dessa impunidade, dessa zombaria, dessa soberba, dessa empulhação toda?
Eu me inspiro em referências. Por exemplo, em César Zama que, em 1890, durante a elaboração da primeira constituição republicana, defendeu o voto universal para que as mulheres pudessem participar da política. Outros abnegados foram aderindo e um dia, em 1933, as mulheres ganharam o direito de votar. Mas tudo começou lá atrás, com a ação individual de um não-cético. Que deve ter sido chamado de bobo.
Depois me imagino no minúsculo município de Abreu e Lima, Pernambuco, em março de 1983. Alguns membros não-céticos do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) no município organizam uma pequena manifestação pedindo eleições diretas para Presidente da República. O movimento cresce até chegar, no dia 16 de abril de 1984, ao Vale do Anhangabaú em São Paulo, onde mais de um milhão e meio de pessoas gritam pelas “Diretas Já”. O resto você sabe.
E tudo começou com meia dúzia de não-céticos em Abreu e Lima. Que devem ter sido chamados de bobos.
Repare: as grandes mudanças sempre acontecem a partir da iniciativa de poucas pessoas. Que a maioria cética ou ignorante chama de “bobos”. São conspiradores aqui, formadores de opinião ali, indignados acolá, altruístas alhures, Gente que começa lutas impossíveis e vai aos poucos influenciando os demais.
São os mais ativos que convencem os menos ativos.
Não posso imaginar nada mais triste do que um país que produz “refugiados éticos”. Gente que não foge da guerra, não foge da fome, não foge da perseguição política, não foge de pestes nem de desastres naturais. Foge de uma miséria que a maioria nem percebe que existe.
Mas talvez isso seja bom. Quem sabe nossos refugiados éticos, lá de longe, nos ajudem a colocar este país nos trilhos? A partir de sua experiência em sociedades onde a ética ainda é respeitada, nos enviando argumentos, exemplos, força e motivação. Serão refugiados éticos ativos. Militantes. Interessados em voltar para casa. É uma idéia, não é?
A luta aqui será violenta, desleal, dura e demorada.
Mas pode começar por você.
Seu bobo