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TRIVIUM: CAPITULO 2 – DIMENSÕES LÓGICA E PSICOLÓGICA DA LINGUAGEM (parte 8)
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O ilusionista

O ilusionista

Luciano Pires -

Um texto que publiquei anos atrás mas que parece que foi escrito hoje…

Foi o filósofo grego Platão quem lançou cerca de 2500 anos atrás as bases da Epistemologia, a teoria do conhecimento. Ele disse que o que nós conhecemos não é o mundo físico, mas sua versão organizada, estruturada e categorizada por nossa mente. Antes de perceber qualquer coisa nossas mentes precisam assimilar e interpretar os dados brutos que chegam através de nossos sentidos. É a partir do som que ouvimos, da imagem que observamos, do texto que lemos, do cheiro que sentimos, da textura apreciada por nossos dedos que nosso cérebro fará deduções. Cruzará esses dados com nossas memórias e experiências para colocar algum sentido nas coisas que acontecem ao nosso redor. E antes de ter alguma utilidade para nós esse processo de interpretar o mundo passa por estados de consciência e semi-consciência. Mas o mais importante: o processo depende em grande parte do que temos dentro da cachola, do que aprendemos com nossas experiências. Do nosso repertório. Quanto mais repertório, experiências, cruzamentos e deduções, mais refinada será nossa interpretação do mundo. Se você só lê a revista Caras, frequenta a baladinha e assiste o Big Brother, terá um limitado repertório para entender o mundo. O mesmo acontece com seu linguajar. Se você não lê, não conseguirá expressar seus argumentos naquela reunião, diante daquele cliente ou da pessoa amada. Simples, né? Mas tem mais: quanto mais pobre for seu repertório, mais fácil será ser enganado pelos ilusionistas.

Ilusionistas me fascinam com seus truques, mas eles só são bem sucedidos quando conseguem comandar nossa atenção. Comandar nossa atenção. Enquanto focamos a atenção na fumaça, nos espelhos, na ajudante, no gesto largo, na mão em movimento ou no lenço colorido, o ilusionista realiza o truque que nos engana.
Atenção é o nome do jogo.

Agora imagine o mundo de hoje, repleto de certos “ilusionistas” que usam cores, explosões, cheiros, luzes e formas para atrair nossa atenção. Esses ilusionistas desviam sua atenção para umas bundas pra te vender cerveja. Desviam a atenção para uns carrões pra te vender cigarros. Esses “ilusionistas” prometem o céu no futuro e ganham a permissão de apagar o passado e cometer barbaridades no presente. Fazem com que vejamos a realidade – e tomemos as decisões – que eles quiserem.

Para escapar desses “ilusionistas” não existe mágica. É preciso ampliar seu repertório para fazer reflexões mais ricas, comparações mais diversificadas e julgamentos mais adequados. Assim você comandará sua atenção. Caso contrário vai continuar perplexo e maravilhado com planos que não existem, obras que ficam na promessa e riquezas inviáveis, se divertindo com a pomba que sumiu, com a mulher cortada ao meio e com o coelho que saiu da cartola do ilusionista.

E nem perceberá quando ele bater sua carteira.

Luciano Pires