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O Sedutor

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Luciano Pires -

Assim como Alckmin nas eleições presidenciais de 2006, o melhor momento de McCain foi o discurso em que reconheceu a derrota nas eleições para presidente dos Estados Unidos. Vê-lo pedindo que seus eleitores parassem de vaiar Barak Obama e dizendo que “meu adversário é agora meu presidente” é um momento histórico. McCain é água, Obama é vinho. Ou vice-versa. E para entender o que se passou vou recorrer a trechos de uma entrevista que o sociólogo e jornalista peruano Rafael Roncagliolo deu ao jornal argentino La Nación, e que recebi por meio do ex-blog de Cesar Maia. Vale pena ler a entrevista completa aqui: http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1050621.

Entendo que meu papel, além de minhas reflexões, é trazer aos leitores idéias de outras pessoas. Então segura:

“Os partidos políticos se converteram em máquinas eleitorais que só funcionam quando há eleições. Isso é parte de uma mudança, na qual a relação cara a cara foi transformada em relações midiáticas. Ao congressista não interessa a repercussão do que diz no Parlamento. O que interessa é a repercussão do que diz no espaço midiático. Isso é uma deterioração da ação do Congresso. Desapareceu a relação cara a cara com a célula partidária.”

“Os partidos funcionam como garagens, porque apenas se retira o carro do estacionamento para competir e, depois, volta-se a guardá-lo…”

“As transformações tecnológicas dos últimos tempos determinaram que os eleitores não fossem considerados cidadãos, mas sim consumidores. A diferença é que, quanto aos cidadãos, é preciso convencê-los e, quanto aos consumidores, é preciso seduzi-los. Neste cenário, as ofertas dos políticos deixam de ser propostas e passam a ser mecanismos publicitários de sedução do eleitor. Isso destrói o pressuposto básico da democracia.”

“É óbvio que os candidatos não mais têm interesse sobre os temas a debater. Interessa a eles os aspectos formais do debate, como a luz, a ordem da exposição, os tempos e a disposição das câmeras. Ou seja, a vida política passou a ser controlada por novos especialistas.”

“Hoje, é preciso estar nos meios de comunicação de massa para existir. Os meios não têm êxito no momento de dizer quem ganha, mas sim ao  estabelecer quais os que estão na competição. Pode-se dizer que os meios substituíram os políticos no papel de fixar a agenda. Então, não são mais dirigentes, voltados para oferecer uma direção aos cidadãos, mas sim dirigidos, no sentido de que o bom político é o que melhor interpreta as pesquisas e que faz o que o público pede.”

“Isso não significa que os meios de comunicação possam fazer o que quiser com a opinião pública, mas sim que alguns deles têm um papel desmedido. Os legisladores foram substituídos por líderes midiáticos em sua influência sobre a opinião pública.”

Viu só? Legisladores ou lideres midiáticos. Cidadãos ou consumidores. Quem entendeu a complexidade destes novos tempos levou a melhor. Enquanto McCain tentava convencer, Obama seduzia. E o resultado está aí: não me lembro de ter visto outra liderança com o impacto que Barak Obama está causando no mundo. Ao menos em termos de percepção. Talvez o último tenha sido John Kennedy, que também era um sedutor.

Criou-se uma expectativa sem precedentes, os noticiários parecem anunciar a volta do messias. Barak Obama sabe usar o tal “espaço midiático” como poucos. Usou a juventude, a família, a inexperiência e a questão racial com maestria. Tem gestual, tem repertório, tem voz, tem olhares, tem todos os trejeitos de grande estrela que sabe como seduzir os admiradores. E tem uma equipe de profissionais midiáticos afinadíssima.

Isso é bom. O mundo precisa de líderes carismáticos.

Mas também é perigoso.

Vai que ele acredita que é mesmo o messias…