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Pluralidade narrativa 2

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Luciano Pires -

Lá em 2013 escrevi este artigo, preocupado com o caminho para o qual estávamos indo. Muito bem, chegamos. E acho conveniente repetir o que foi escrito:

Numa viagem aos EUA, no começo dos anos 1990, comprei um DVD da banda Kiss, acústico, que marcava o retorno do grupo com seus integrantes originais. O show é ótimo! Fiquei tão interessado que fui pesquisar e encontrei um sujeito que tinha o material bruto da gravação, antes da edição final. Eram dois ou três DVDs com algumas horas de duração, mostrando os erros, as paradas, as retomadas, regravações, etc. Comprei.

Quando recebi os discos, corri assistir e realmente é inusitado. Quem é fã da banda vai se lambuzar! Mas… chega uma hora em que enche o saco. Paradas, espera para regular uma luz, mudança de câmeras, gente andando pra lá e pra cá. É legal de ver, mas tem que ter tempo e ser muito fã. Não tem a dinâmica, o ritmo do DVD pronto. Não é uma história sendo contada, mas um ajuntamento de,– para ficar na moda –, narrativas plurais. Sem alguém para ordenar aquilo tudo numa história, selecionando os melhores ângulos, as melhores cenas, as melhores interpretações, os melhores cortes, é algo insuportavelmente chato, que a gente vai adiantando no controle remoto.

O que nos leva ao grande dilema destes tempos plurais: precisamos das pessoas que botam ordem nas narrativas, mas cansamos delas. Elas escolhem os melhores ângulos e interpretações do ponto de vista delas, e assim nos mostram não aquele show bruto, mas o show montado por elas. A narrativa delas. Muita gente está cansada disso, se sente enganada, manipulada, sonegada de uma parte da realidade.

Tente imaginar a estória do Chapeuzinho Vermelho, por exemplo. Todo mundo a conhece do ponto de vista de um narrador, no caso da versão clássica dos Irmãos Grimm. Mas como seria do ponto de vista da menina? Da Vovó? Do Caçador? E por fim, do Lobo? Seria a mesma história? Quem seria o vilão? Quais os motivos de cada um? Quem está certo?

Isso me ocorre neste momento em que discutimos a aparição de uma “nova narrativa”, especialmente com o surgimento de grupos como o Mídia Ninja e sua “pluralidade narrativa”. O Ninja significa “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação” e o que eles fazem é espalhar em meio às manifestações, por exemplo, dezenas de indivíduos com equipamentos de filmagem que capturam a ação sob ângulos diversos e, teoricamente sem edição, colocam no ar pela internet. Assim é possível assistir cenas que a televisão não mostra. É mais ou menos como contar a história do Chapeuzinho Vermelho com as imagens capturadas pelas câmeras de diversos narradores, inclusive a menina, a vovó, o caçador e o lobo, localizados em pontos distintos ao longo da trama. Essas imagens brutas iriam ao ar ao mesmo tempo e caberia ao telespectador montar a narrativa que lhe interessasse. Ou ainda, é como os DVDs com as imagens brutas do show do Kiss, mostrando a movimentação dos câmeras, as ordens do diretor, o público se ajeitando, as expressões de cada músico, os erros de gravação. Extremamente rico em conteúdo, mas sem ritmo.

Tem gente que aposta que esse é o futuro da imprensa. Eu vou esperar para ver. Não importa se é o narrador, a chapeuzinho, a vovó, o caçador ou o lobo mau, acho que ainda precisamos de alguém que nos conduza pela narrativa. Mas já cansamos dos antigos condutores…

Temos que desenvolver outro olhar, capaz de interpretar a pluralidade narrativa, tudo ao mesmo tempo agora, mas não acho que minha geração consiga. Nem a que veio depois. É preciso outro tipo de treinamento, outro tipo de condicionamento mental, outro tipo de visão do mundo, algo que só meus netos têm ou terão… E enquanto isso ficamos aqui desconfiados, bombardeados por mentiras, ideias românticas e promessas do paraíso.

Donald Trump percebeu isso. E se apresentou como outro condutor possível.

Tomara que ele não seja o Lobo mau da campanha.