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Quem faz nossa cabeça

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Luciano Pires -

Bauru, 2 de abril de 1964. Eu tinha 8 anos de idade e me lembro de ver na capa da Folha de São Paulo a foto de um soldado de capacete, com sua arma em mãos, a postos. Pesquisei no acervo da Folha e reencontrei aquela capa:

folha 64 2

Infelizmente a qualidade de reprodução está muito ruim, não é possível ver os detalhes da foto, mas eles estão vívidos em minha memória. Fascinante! A foto em questão, com o título “Vigiando a Dutra” tem esta legenda: “Em Caçapava, no trecho existente da rodovia Presidente Dutra, a entrada da cidade, soldados do 6º. BI vigiam a estrada. As tropas fiéis ao general Kruel têm o controle total da região do Vale do Paraíba.”

Lá se vão 53 anos, mas fiquei tão impressionado com a imagem daquele soldado, que ela permanece viva, clara em minha memória. Seria aquilo a guerra? Não me lembro se perguntei a meus pais o que estava acontecendo, e como os acontecimentos daquele momento estavam muito acima de minha capacidade de compreensão, deixei a coisa pra lá. Só muito mais tarde fui entender o significado não só daquela imagem, mas daquele período da história do Brasil.

Volto a essa história para lembrar como, naquela época, as narrativas eram feitas dentro de nossos círculos familiares e de amizades. Era no seio da família que aprendíamos porque acontecia o que acontecia. As narrativas familiares permitiam que entendêssemos como e onde nos encaixávamos dentro daquele mundo. E eram narrativas ricas, que misturavam fatos da realidade com histórias, tradições e lendas, não só do Brasil, mas de nossos antepassados. No meu caso, com avô vindo de Portugal, com valores portugueses.

E assim fui montando minha compreensão do mundo.

Hoje as narrativas familiares perderam o espaço para uma cultura voltada ao consumo. Se meu avô, meu tio, minha mãe, ao contar uma história, queriam desenvolver meu senso moral, ajudando que eu encontrasse meu lugar no mundo, quem conta as histórias hoje quer que eu compre uma sandália, um shampoo, um automóvel… ou uma ideia. Com 8, 18, 28, 38 ou 68 anos de idade, estou sendo treinado a separar as coisas entre aquilo que o dono da narrativa diz que é o bem e o mal. E meus pais, meus parentes, meus amigos, provavelmente não têm tempo nem preparo para substituir a narrativa do consumo, pela narrativa que me solidifica a moral.

As crianças encontram seu lugar no mundo baseadas nas marcas dos produtos que usam, no vocabulário da tribo que escolheram, no comportamento que imita ídolos invariavelmente ligados à troca de algum produto por nosso dinheiro. Uma criança com oito anos de idade, tendo na bagagem umas 8 mil horas de televisão, mais 8 mil de internet, está anos luz à frente do ingênuo Lucianinho lá da Bauru de 1964. Ela jamais será impactada pela simples foto de um soldado sentado na grama vigiando uma estrada… Treinada, ela precisa de som, movimento, cores, velocidade, e situações extremas. As narrativas não pertencem mais às famílias, mas a agentes do consumo, da política, das ideologias, através das mídias e de alguns formadores de opinião próximos.

E assim crescemos, expostos às cores, aos barulhos, ao excesso, aos  gritos dos que tentam nos convencer que problemas complexos podem ter soluções simplórias. E o discurso deles é sempre muito, muito sedutor. otimista. Fácil de entender.

Onde quero chegar? Apenas provocar reflexões.

Imagino uma criança de oito anos, vendo na capa da Folha de hoje, em cores, a foto dos ônibus pegando fogo no Rio de Janeiro. Ou dos encapuzados destruindo orelhões. Ou dos milhares de automóveis parados diante de algumas dezenas de pessoas que queimam pneus.

Imagino essa criança perguntando aos pais por que aquilo está acontecendo.

Tenho medo da resposta.