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Sem desculpas

Sem desculpas

Luciano Pires -

Estou migrando meus livros para o sistema eletrônico (ebooks). Busquei informações e disseram que eu mesmo poderia fazer, mas diante do primeiro “tutorial” desisti. É preciso ter uma lesão mental para conviver com tutoriais. Procurei então várias alternativas de fornecedores para realizar o trabalho e fui soterrado por toneladas de “veja bem”, “pode ser”, “talvez”… De cada lado uma informação diferente, sem contar os irritantes “ah, mas é tão fácil!”. Pedi orçamentos, recebi loucuras. Sem contar as ameaças do tipo “olha, se não fizer assim e assado você será pirateado, sucateado, incompatibilizado”.

Seis meses depois eu estava no mesmo ponto zero.

Parti para o plano B: fornecedores de fora do Brasil. Num blog dos Estados Unidos encontrei dicas, mandei um email para o primeiro indicado e recebi em algumas horas uma resposta: “não posso fazer por ser em português, mas conheço quem faz”. Em minutos eu estava em contato com o fornecedor, que respondeu com uma praticidade chocante: dá pra fazer, é assim que funciona, leva dez dias e custa entre 150 e 400 dólares. E fazemos para o Kindle e para o ePub, dois dos sistemas de leitores eletrônicos mais populares.

Mandei os arquivos e por email recebi um orçamento inteligente. A cada aba uma instrução, um download, uma explicação. Preço: 340 dólares. Bem, encurtando o assunto: duas semanas depois o livro está praticamente pronto, sem estresse, sem chororô, sem desculpas.

Refleti sobre a diferença entre fazer negócio com os fornecedores brasileiros e com o norte americano e descobri que o que mais me chamou a atenção foi algo prosaico:

– Ele acredita em mim!

Sim. Credibilidade. O fornecedor dos EUA acreditou em tudo que eu disse e cumpriu tudo o que prometeu, fazendo com que eu acreditasse nele. Não teve “caiu o sistema”, “o Correio entrou em greve”, “fiquei sem Speedy”, “faltou um funcionário”, “subiu o dólar” ou “o trânsito estava lento”. Não teve “não aceito PDF”, “não pode usar cores”, “foi feriado”, “me manda por motoboy” ou “não aceito cartão de crédito”… Sem desculpas. Dá pra fazer, é assim que se faz, custa tanto e pronto.

Meu interlocutor sabia o que estava falando, me orientou com precisão, ofereceu todos os meios de acesso, respondeu a todas as perguntas imediatamente e quando achou que não dava disse: “Não dá”. Sem “talvez”, “vou ver”, “liga mais tarde”.

No Brasil, acostumados a não acreditar nos outros, sempre deixamos um colchão enorme nas negociações. Já esperamos pelo atraso, pelos problemas de qualidade, pelo entregue diferente do prometido, pelas exceções que são regras, pelo chute do especialista e pelas desculpas, as desculpas, as desculpas…

Livre da teia de desculpas que caracteriza os negócios no Brasil, fiquei, como a gente dizia lá em Bauru, encafifado. Senti uma sensação estranha, agradável, que me deixou curioso:

– O que será?

Era profissionalismo.

Luciano Pires