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Sua excelência, Tiririca.

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Luciano Pires -

Para começar, um #TutorialParaEntenderOPost. Vamos a algumas definições do Dicionário Aulete.

Circo: Cena que chama atenção ou que choca pelo aspecto grotesco, excêntrico ou exótico.

Palhaço: Pessoa que age de forma ridícula ou que não merece respeito

Explicar: Tornar inteligível ou claro (o que é ambíguo ou obscuro); esclarecer.

Justificar: Provar a inocência de (alguém ou si próprio).

Está combinado? Sempre que eu utilizar “circo”, “palhaço”, “explicar” e “justificar”, será conforme as definições acima.

Quando Francisco Everardo Oliveira Silva se candidatou a deputado Federal em 2010, causou polêmica. Everardo era conhecido como comediante, fazia sucesso na TV interpretando Tiririca, personagem que aliava a inocência infantil à picardia do brasileiro. Um tipo popular, presente nos programas populares e que falava o idioma da população. Seu mote “Vote no Tiririca, pior que tá não fica” logo fez sucesso e ele recebeu 1,4 milhões de votos, sendo o deputado mais votado do Brasil naquelas eleições. Assumiu o cargo e praticamente desapareceu da televisão. Reeleito em 2014 com pouco mais de 1 milhão de votos,  jamais apresentou algum projeto de impacto e se notabilizou por ser um dos deputados mais assíduos na Câmara. Sempre que instado a se pronunciar o fez com piadas, mas isso me pareceu resultado de sua consciência de que era nada mais que um aprendiz. Tiririca ouve muito mais que fala e surpreendeu a todos por não desempenhar papel de palhaço na Câmara.

No domingo da votação na admissibilidade do processo de impeachment, havia uma expectativa com relação a seu voto. Tiririca manteve em segredo sua decisão e foi colocado na lista dos indecisos. Na hora do voto disse simplesmente assim:

– Senhor presidente, pelo meu país, meu voto é sim.

Ponto.

Do palhaço veio o voto objetivo, sério e compenetrado. O humor ficou por conta do meio sorriso estampado no rosto de Eduardo Cunha e dos deputados que gritaram e o abraçaram.

Mas havia outros que ao agir como palhaços, provocaram momentos de imensa vergonha. Dois se destacaram.

Um foi Jair Bolsonaro que em seu voto elogiou a forma como Cunha conduziu o processo e se disse contra o comunismo e o foro de São Paulo. Nada demais. Mas então ele homenageou a memória do Coronel Brilhante Ustra, ex- chefe do DOI-CODI, o aparelho de repressão do governo militar, numa clara provocação às esquerdas.  Pois é. Eu consigo explicar Bolsonaro. Ele nada mais fez que bolsonar: disparou a bala que julgou que atingiria, machucaria, ofenderia seus adversários. E conseguiu. Entendo e explico sua intenção e sua indignação, mas Bolsonaro foi um desastre. Diferente de outros palhaços que também deram votos lamentáveis, ele não é um deputado obscuro qualquer, está declaradamente na corrida pela presidência em 2018. Você pode não gostar, mas as palavras dele têm peso, mesmo que só para alvoroçar o Fla Flu em que se transformou o Brasil. Como um militar que aceita “danos colaterais”, Bolsonaro se comportou como criança birrenta, de pouca inteligência. Não fosse apenas absurda, sua homenagem a alguém que é considerado um torturador ainda deu aos adversários todas as justificativas para legitimarem a ideia do “golpe”, da “elite fascista”. Deu-lhes as justificativas para a retórica vitimista que utilizam na perseguição a quem não segue suas doutrinas. Bolsonaro trabalhou para o inimigo e acho que ali liquidou suas pretensões de voos políticos mais altos. Sua metralhadora giratória atingiu também a todos que lutam contra o projeto criminoso de poder que tomou conta do país. Todos que lutam pela liberdade.

O outro a agir como palhaço foi Jean Wyllys. Em seu voto se disse “constrangido de participar de uma eleição indireta, conduzida por um ladrão, urdida por um traidor conspirador e apoiada por torturadores covardes, analfabetos políticos e vendidos. Uma farsa sexista”. E declarou seu voto contra o impeachment em nome “dos direitos da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem teto, dos sem terra”. Para coroar a performance, ao se retirar cuspiu em Jair Bolsonaro.*

Também consigo entender o voto e a reação de Jean Wyllys. Ele apenas wyllysou, fez o papel histriônico, afetado e teatral ao qual está acostumado, tentando ofender seus adversários. E conseguiu o que queria.

Consigo entender e explicar Bolsonaro e Jean Wyllys. Os dois cumpriram o que se esperava deles. E também entendo que enquanto existirem Jeans Wyllys (e toda aquela patota de PSOL, PCB, PC do B, PSTU) louvando terroristas e ditadores, Jair Bolsonaro será necessário. E vice versa. Um é cria do outro. Um sobrevive do outro. Um se explica pelo outro. É preciso um para neutralizar o outro.

Mas não consigo justificar o comportamento de ambos. Entendo, explico, mas não justifico.

Ambos estavam no Congresso, na casa do povo. Ao agir como palhaços, transformaram uma cerimônia que representa um dos momentos mais importantes da história recente do Brasil, num circo. Tivessem se limitado a dizer “senhor presidente, pelo meu país, meu voto é sim” e “senhor presidente, pelo meu país, meu voto é não”, teriam cumprido um papel digno, decente. Mas aí não seriam nem Bolsonaro nem Wyllys.

Tudo explica. Nada justifica.

Bolsonaro e Wyllys, como diria aquela lá, são duas abominações políticas, éticas e cognitivas. São dois extremos do mesmo erro, excrescências que ofendem a quem joga o verdadeiro jogo da democracia. Existe um lugar para eles na sociedade? Claro que sim. Eles representam alguns milhões de brasileiros, foram eleitos por voto popular e, ao menos aparentemente,  defendem aquilo no que acreditam. Mas consomem nosso tempo, nossa energia, nossos neurônios para… nada.

Olha o tempo de vida que gastei para escrever este texto…

Jair Bolsonaro e Jean Wyllys me deram a certeza que “sua excelência” mesmo é o Tiririca. É com ele que vou gastar meu tempo.

Cai o pano.

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* Obs: no texto original, escrevi que Jean Wyllys premeditou a cusparada, pois vi num vídeo ele dizendo “vou cuspir na cara do Bolsonaro”. Alertado por leitores, vi mais dois vídeos mostrando a fala de Jean Wyllys: https://www.youtube.com/watch?v=RUX0lWN0mNM e https://www.youtube.com/watch?v=FkVedsrAMvE . É praticamente impossível saber se ele disse “vou cuspir” (futuro) ou “cuspi” (passado). Na dúvida, suprimi do texto o “premeditado” até que surja um vídeo não editado que mostre claramente a sucessão dos fatos.