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Três olhares para Star Wars

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Luciano Pires -

38 anos atrás eu, com 21 anos de idade, estava sentado dentro de um cinema no centro de São Paulo, quando as luzes se apagaram e a vinheta da 20th Century Fox apareceu, causando o costumeiro frio na barriga (preciso escrever sobre isso). Surgiu então um texto: “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante…”. E explodiu uma música, um hino, com um som como eu jamais ouvira. Não era um som alto, era um som diferente… bom! Que entrava pelos ouvidos e poros. Surgiu então um texto em perspectiva como que navegando em direção ao infinito, falando de guerra, de rebeldes, do império Galáctico…

E então acaba a música e uma vinheta de som também galáctico surge com a imagem do universo cheio de estrelas… a câmera vai descendo para revelar a curvatura da superfície de um planeta… e então cresce a música, barulho de tiros a laser, que eu não sabia que era laser mas tinha certeza que era laser, e uma pequena nave entra em cena junto com um som grave vibrando… mas bota grave nisso! Muito grave, vibrando meus ossos, minhas entranhas… e surge por cima de minha cabeça a maior, a mais espetacular, a mais grandiosa nave espacial que eu jamais vira em minha vida. A nave entra em cena e não para mais de entrar! Grudei na cadeira e mergulhei numa viagem que mudaria minha vida.

Eu estava dentro do primeiro episódio de Guerra nas Estrelas, experimentando sensações inéditas. Nunca nada daquilo havia sido mostrado no cinema. Eu já havia visto a grandiosidade da combinação da música com as imagens do espaço em 2001 – Uma odisseia no espaço, mas do jeito que foi com Guerra nas Estrelas, não!

Se 2001 era música clássica, Star Wars era puro rock’n roll!

Eu não sabia, mas estava testemunhando um momento histórico. Dali para a frente o cinema nunca mais seria o mesmo. A cultura nunca mais seria a mesma. O marketing nunca mais seria o mesmo.

Na madrugada do dia 17 de Dezembro de 2015 eu estava sentado numa moderníssima sala de cinema de um luxuoso shopping center, aguardando ansioso pela estreia de Star Wars VII – O Despertar da Força. Eu sabia que não seria impactado da forma como fui 38 anos atrás, nada do que apareceria na tela seria novidade, mas tinha certeza de que me emocionaria outra vez ao rever “velhos amigos” que, por cerca de 2 horas, me fariam ter 21 anos de idade outra vez.

Bem, o filme precisa ser visto com diferentes olhares. Primeiro o olhar do Universo Star Wars. Está tudo lá: o apuro tecnológico, as paisagens desérticas, as naves imensas, os alienígenas, os sons inesquecíveis e as personagens originais. Estão lá o humor, os conflitos familiares e o embate entre o bem e o mal.

Depois o olhar do marketing. O novo filme foi feito por uma única razão: fazer dinheiro. Pra isso ele precisa matar saudades dos velhos e capturar os novos, daí a necessidade de trazer de volta antigas personagens, de protagonistas politicamente corretos (a mulher e o negro), violência politicamente correta (acho que só aparecem uns 30 mililitros de sangue em cena) e redundâncias, especialmente no enredo (rebeldes contra o imperador poderoso, o bandidão mascarado com voz de computador, o robô engraçadinho, etc, praticamente a repetição de 1977). Ah, sim, e as sequências de ação frenéticas, tido videogame, com tudo aquilo que a molecada consome.

E por fim o olhar nostálgico. Se você tem, como eu, entre 50 e 60 anos, esqueça o enredo, esqueça as atuações, isso tudo você já viu antes. Fique de olho na entrada em cena de cada um dos personagens que moram em seu coração. A entrada em cena de Han Solo e Chewbacca me fez soltar um suspiro lá do fundo da alma e encher os olhos d ‘água! Estavam lá a minha princesa Léa, minha Milleniun Falcon, meus robôs… Estavam lá os sons das naves, dos lasers, dos sabres de luz. Mas ao mesmo tempo em que eu me inebriava ao rever meus heróis, ficava claro que eles eram apenas escadas, iscas para me pegar enquanto a molecada se divertia com os jovens protagonistas.

De certa forma compreendi que o retorno de meus heróis era também um adeus.

É assim que a vida funciona, não é? O velho dando lugar ao novo.

Mas aí vem a cena final, para mim a mais poderosa do filme. Uma reverência, uma homenagem, uma metáfora sobre gerações, sobre mentoria, sobre juventude e experiência. Uma paulada em mim, que me vi ali representado. Emocionante.

Mais não posso dizer para não estragar as surpresas.

O filme precisa ser assistido sim, dá pra gostar muito, dá pra gostar médio, dá pra gostar pouco, mas não dá pra ficar indiferente.

Saí do cinema com uma pulga atrás da orelha…

Será que daqui a 38 anos essa molecada que hoje tem 20 anos assistirá maravilhada um novo filme da saga no qual a reaparição da hoje jovem e linda Daisy Ridley no papel de Rey, então com 60 anos, encherá seus olhos de lágrimas?

Faço votos que sim, mas desconfio que não. Não sei se ela terá a força, o tempo e o impacto necessários para gravar sua marca no coração da molecada, da mesma forma que Léa gravou a sua no meu, 38 anos atrás.

Que a força esteja com você.