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Vossa Excelência Achacadora

Vossa Excelência Achacadora

Luciano Pires -

O bicho pegou na Câmara dos deputados quando o ex-ministro Cid Gomes confirmou em alto e bom som que ali existem “400 ou 300 achacadores”. Quem assistiu ao embate Cid x deputados ficou, como diria aquela, estarrecido. Mas só os bobinhos achavam que Cid baixaria a crista e humildemente pediria desculpas. Não é de sua natureza.

Eu tive uma compreensão ampliada do embate. Ninguém diz o que Cid disse e permanece ali com um sorrisinho enquanto o mundo cai, só se comporta assim quem é maluco ou está desempenhando um papel. Sei que a tentação de considerar Cid maluco é grande, mas ele é antes de qualquer coisa um boquirroto e tenho convicção que serviu de instrumento para desestabilizar o legislativo. Puro jogo de poder.

Tive essa percepção ampliada por um livrinho que acabo de ler, chamado “O Nobre Deputado” de autoria do juiz de direito Márlon Reis que, através de um personagem fictício, o deputado Cândido Peçanha, descreve como o poder transforma dinheiro em mais poder, mais dinheiro, mais poder.

Na abertura do primeiro capítulo, está escrito: “…estou aqui para contar a verdade que todo político esconde de seus ‘eleitores’. Por que escrevi ‘eleitores’ entre aspas? Porque não existem eleições. A grande farsa eleitoral brasileira é o tema deste livro”. O que vem na sequência é, como diria aquela outra vez, estarrecedor: uma descrição detalhada dos intestinos do poder, de como tudo se move em torno do dinheiro e nós, eleitores, não fazemos qualquer diferença.

O livro descreve como age um achacador, o sujeito que usa sua posição de poder para exigir algo em troca, que pressiona, chantageia, rouba e engana, mas que é tratado como autoridade. Que flana impune sobre as leis, protegido pelo super poder que ganhou nas urnas: o de representar “o interesse do povo em diversos níveis: meu país, meu Estado, minha cidade, meus amigos, minha família, meus interesses próprios. Nessa ordem crescente.”

De certa forma eu já sabia do que o livro tratava, mas não tinha a riqueza de detalhes sobre até onde um achacador pode chegar, sobre como estamos reféns de um sistema que se auto protege, permitindo que vigaristas enriqueçam da forma mais pérfida imaginável, desviando dinheiro de quem mais necessita.

O livro, ao focar na história fictícia de um personagem inspirado em fatos reais, pode ser perigosamente interpretado como uma generalização, como um exagero, especialmente se você tiver simpatia por este ou aquele político ou partido. Talvez alguém se sinta tentado a dizer que o autor “esqueceu as regras de convivência democrática, desrespeitou o parlamento brasileiro de forma pueril, leviana e sem consistência, porque aponta o dedo, faz acusações, mas não diz o crime, não dá os nomes.” Não por acaso, essas foram as iradas palavras do Deputado Leonardo Picciani, do PMDB, para o ex-ministro Cid Gomes no embate na Câmara dos Deputados.

A semana na qual li o livro terminou num domingo marcante, o mesmo que deu início à semana na qual se deu o embate entre Cid e os deputados , o 15 de março de 2015, quando centenas de milhares de brasileiros foram às ruas para dizer “basta”.

Basta de quê?

Da certeza de que tanto Cid Gomes quanto os deputados que o atacaram expondo seus desmandos enquanto governador, estão certos.

Da angústia de imaginar que os achacadores podem não ser 300 ou 400, mas 1.000, 5.000, 10.000, 100.000…

Da certeza de saber que é tudo por dinheiro.

Basta.