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A guerra civil espanhola (1936-1939) foi assustadora, cruel, mas teve seus lances tragicômicos. Um deles era a eterna bagunça entre as muitas facções que formavam as Forças Republicanas, compostas de anarquistas, comunistas, brigadas internacionais e outros aliados de pura conveniência, apoiados por uma insuspeita União Soviética, louca para expandir seu império de terror stalinista. Juntar num caldeirão essa gente toda, por vezes ideologicamente antagônica, criava situações complexas. As subdivisões de grupelhos anarcocomunistas precisavam ser constantemente atualizadas sobre quem era amigo ou inimigo, tal a rapidez com que mudavam de posição no conflito; ao acordar pela manhã, corriam risco de levar chumbo do amigo de ontem que era o inimigo de hoje, mas poderia voltar a ser o amigo de amanhã. Coisa de maluco.

Dizem que essa situação era tão caótica e servil ao comunismo soviético que inspirou George Orwell a criar a ficcional situação belicista dos blocos da Eurásia, Lestásia e Oceania, numa eterna guerra entre si em sistema de rodízio, em sua genial obra 1984. Não conhece? Leia. Imperdível, e vai descobrir até a razão pela qual aquele programa da Globo se chama Big Brother.

Orwell sabia do que falava; inglês, combateu na guerra civil da Espanha como voluntário nas brigadas internacionais. Escapou com vida para contar seus horrores.

Se soubesse escrever ou mesmo se expressar de forma minimamente razoável, nossa brasileiríssima Kátia Abreu poderia escrever seu livro 2018, relatando sua história vivida nessa alternância de trincheiras tão cara ao político brasileiro, que busca somente seus interesses. não sentindo a menor vergonha em aliar-se – ou “desaliar-se” – desde que algum lucro, político ou financeiro, seja auferido. Ciro Gomes, que trocou de partido como quem troca de camisa, que o diga.

A fazendeira goiana Kátia Abreu, hoje senadora pelo PDT no Tocantins, era odiada pelos lulistas desde os anos 90 (ou mesmo antes) pela defesa dos ruralistas e por ser presidente do CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária) de 2008 em diante. Em 2002 elegeu-se deputada federal e senadora em 2006, sempre defendendo seus colegas do agronegócio e desancando fortemente Lula e sua turma. Era odiada pela esquerda; o MST a chamava de assassina, latifundiária, bandida, entre outras gracinhas. Odiavam-se de morte.

Na eleição de 2010, firme em sua luta a favor do ruralismo e contra a esquerda radical, Kátia defendeu José Serra diante de Dilma, criticando severamente Lula e sua política que ela classificava como derrota geral do país. Bem; como se sabe, Serra perdeu e Dilma ganhou. Num passe de mágica, obviamente sem nenhum interesse próprio, apenas por patriotismo e amor desprendido ao povo, Kátia Abreu tornou-se a melhor amiga de Dilma do dia para a noite, vindo a ser sua ministra e lutando por ela a socos e pontapés durante o impeachment da ensacadora de vento – mesmo vestindo a camisa do PMDB, esse saco de gatos. MST e lulistas deixaram de pedir o escalpo da nova aliada, afagando-a com elogios e salamaleques que só a mais rígida cara de pau dos arrivistas sabe proporcionar. Mas… eis que a maré vira novamente.

Com seu governador cassado pela justiça, o Tocantins realizou, há poucos dias, novas eleições para ocupar o cargo numa espécie de mandato tampão. A pedetista Kátia era franca favorita nas pesquisas, com até 22% de intenção de voto, sendo a única candidata que superava a soma de votos brancos e nulos; era barbada. Poucos dias antes da votação, Lula e sua secretária, Gleisi Hoffman, acharam por bem brindá-la com um vídeo pedindo votos à ex-inimiga e atual cumpanhêra; pois não é que, veiculado o tal vídeo (vingança ou amizade real?), os eleitores fugiram da favorita, que amargou um desonroso 4º lugar na apuração? Não se sabe se Gleisi e Lula estão rindo ou chorando com a fragorosa derrota, mas ou foi de caso pensado, ou pesquisa eleitoral não vale mais nada.

Não que seja novidade; lula e sua seita já pularam do ódio ao amor (e vice-versa) com gente do calibre de Sarney, Maluf, Collor, Ciro Gomes, Garotinho, Palocci, Jucá, e até o próprio presidente Temer.

Ao fim e ao cabo, a insanidade espelhada por Orwell no rodízio de inimigos para perpetuar a guerra é uma realidade indiscutível.

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