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Jota Fagner - Origens do Brasil -

Cowboy não havia dormido bem. Tinha feito corridas até às duas da manhã. O trabalho como moto-taxista costumava não render muito, mas em época de alta temporada a demanda era muito grande. Precisava aproveitar o período. Durante o inverno a cidade ficava vazia e sem muitas possibilidades.

Naquela manhã de 24 de dezembro de 2012, o motoqueiro se queixava do sono e de um pequeno sangramento no lábio, decorrente das mordidas auto infligidas na noite anterior. Costumava cheirar uma carreirinha para se manter acordado e fumava um baseado quando chegava em casa, na esperança de dormir mais rápido. Ter que acordar às sete da manhã não ajudava muito.

Natural de Taboquinhas, Cowboy era o apelido de Adeilton Bispo dos Santos. O pseudônimo era resultante de sua paixão pelos filmes dos faroestes produzidos na Itália, principalmente os estrelados por Giuliano Gemma. Essa sua preferência, apreendida com o pai, já havia lhe causado alguns dissabores. Quando moleque, havia subido num dos bois que pastava solto pelas ruas de Taboquinhas, na intenção de impressionar os amigos da mesma idade. Testemunhas contam que o animal – quase sempre muito dócil – estranhou o garoto magricela tentando escalar suas costas. Duas ou três sacudidas foram suficientes para levar o aventureiro ao chão. Mas Adeilton havia conseguido o que queria, virou assunto principal no bairro. Todos comentavam que parecia um cowboy. Ele nunca se mostrou descontente com o título.

Taboquinhas havia sido, até o final da década de 1980, como seus moradores gostam de lembrar, o centro comercial de Itacaré e região. Num período em que o turismo ainda não era a principal fonte de renda, era ali que se produzia e se comercializava boa parte do cacau destinado a Ilhéus e Ubaitaba. Depois de 1989, com o avanço da vassoura-de-bruxa, o distrito perdeu sua importância e destaque.

Itacaré, cidade que fica a 26 km, se consolidou como principal destino turístico depois que a cacauicultura desandou. Suas belezas naturais e seu isolamento serviram de cartão postal para turistas que buscavam uma experiência mais rústica. O senso de 2016 contabiliza pouco mais de 28 mil moradores em seu território.

Situada na Costa do Cacau, Itacaré teve uma capela destinada a São Miguel construída ainda no século XVI. Passou a ser sede do município de Ubaitaba em 1732, quando fazia parte da capitania de Ilhéus. Entre 1890 e 1940 o município cresceu significativamente, graças ao cacau. No entanto, por volta de 1940, o porto da cidade assoreou e o município ficou isolado, visto que as estradas eram muito ruins. Foi justamente esse isolamento que dificultou o crescimento do município até a construção da Estrada Parque da Serra Ilhéus-Itacaré, no ano de 1998. A partir daquele ponto a economia da cidade começou a tomar outro rumo. Atualmente o turismo é responsável por mais de 90% do Produto Interno Bruto do município.

Em 2005 Cowboy resolveu se mudar para lá. Ali o turismo é muito mais intenso e “rola muito mais dinheiro”, explicou Neide , natural de Itacaré. Ela e Cowboy começaram a se relacionar em 2009, tiveram uma filha no ano seguinte. Viviam das corridas que ele fazia como moto-taxista e, alguma vezes, de pequenos tráficos que o marido realizava.

“A maioria dos turistas quer saber onde pode comprar um baseado ou coisa assim”, explica ela. Ele tinha a função de levar o passageiro até os pontos de venda. Com o passar do tempo acabou tendo a ideia de comprar “pequenas quantidades” – algo em torno de 50 gramas de maconha, ela explica – para revender em porções menores aos turistas. Tudo corria relativamente bem até a chegada de duas facções rivais à cidade.

A gênese do problema

Voltemos um pouco no tempo, até 2006, quando foi criado o Conjunto Penal de Itabuna (CPI). O prédio foi estruturado para conter duas alas: A e B. Dentro daquele presídio, como muitos outros espalhados pelo Brasil, o tráfico de drogas se tornou uma realidade. Em pouco tempo as duas alas estavam competindo pela liderança dos negócios. Fábio Santos Possidônio, conhecido como Binho Possidônio, liderava o Raio A e Bartolomeu Rocha Mangabeira, conhecido como Bartô, liderava o Raio B. O nome das facções era uma clara referência ao espaço ou ala que ocupavam no presídio.

Em pouco tempo os dois grupos começaram a estender seus tentáculos pela cidade. O Raio A conseguiu o domínio dos bairros: Califórnia, Pedro Gerônimo e Nova Itabuna; o Raio B liderava os bairros: Daniel Gomes, Novo Horizonte e Jardim Grapiúna.

Os jovens infratores, ao serem presos, notificavam à polícia em qual das alas gostaria de ficar. Aqueles que não tinha preferência eram obrigados a fazer uma escolha, sob o risco de ser morto pela facção rival. Depois desse “batismo”, não havia como se desmembrar. Alguns tentaram mudar de cidade/estado ao deixar o presídio, mas tiveram suas famílias exterminadas como punição.

Recebendo ordens de dentro do CPI, o crime organizado começou a crescer na cidade. O tráfico de drogas e os homicídios se tornaram lugar comum. Itabuna chegou a ter um homicídio a cada 24 horas. Em 2017 ainda figurava como a 13ª cidade mais violenta do País.

A ousadia dos criminosos era tão grande que o Raio B chegou a criar um perfil no Facebook. Ali eles divulgavam a lista de bairros dominados e postavam fotografias de parte do seu arsenal. O Raio A, para não ficar por baixo, criou uma conta no Youtube para publicar os funks que compunham em apologia à disputa entre os dois grupos. Tudo isso era público e notório. Em 2012 Antônio Carlos Moraes, juiz da 2ª Vara Criminal de Itabuna, chegou a declarar que 90% dos homicídios acontecidos na cidade eram ordenados de dentro do presídio.

A essa altura, as duas facções já haviam tomado conta das cidades circunvizinhas, como Ilhéus e Itacaré. Em todos os lugares em que se estabeleciam, os líderes, de dentro do presídio, obrigavam os traficantes locais a se filiarem a um dos dois grupos, dependendo do bairro em que estivessem estabelecidos. Quem fosse do bairro X não poderia comprar drogas no bairro Y, e vice-versa.

Cowboy desobedeceu a essas ordens. Conhecia todos aqueles traficantes havia muito tempo. Não acreditava que pudesse sofrer punição. No entanto, no dia 24 de dezembro de 2012, por volta das 10 h da manhã, ainda com dor de cabeça, Cowboy levou um passageiro do Centro da Cidade até o bairro da Pituba. Ao se aproximar do local em que deixaria o passageiro, uma construção abandonada na rua Pituba 2, o motoqueiro viu um homem saindo com uma arma na mão. Tentou fugir, mas foi baleado pelo próprio passageiro. Ao todo, seis balas perfuraram seu corpo. Morreu no local.

Aquele era o terceiro assassinato num período de 15 dias. A população fez uma passeata pelas principais ruas da cidade. Montaram barricadas no Alto da Boa Vista, mais conhecida como Ladeira Grande, e atearam fogo em pneus.
Um mês depois um jovem menor de idade, que supostamente teria sido o passageiro que baleou Cowboy, foi enterrado vivo e de cabeça para baixo, pela facção rival. Seu corpo só foi encontrado porque os assassinos fizeram questão de deixar as pernas para o lado de fora.

A onda de assassinatos não parou de crescer. No dia 13 de março de 2013, seis detentos considerados como os líderes das duas facções foram transferidos para a Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul: Bartolomeu Mangabeira, o Bartô; Fábio Santos Possidônio, o Binho Possidônio; Erick Rocha, o Erick do Zizo; Jackson Vicente Ferreira, o Jack Bombom; Sidmar Soares dos Santos, o Bolota; e Júnior Biano Gomes.
Mais de 700 policiais participaram da operação, incluindo as polícias rodoviárias Federal e Estadual. O secretário estadual de Segurança Pública, Maurício Barbosa, acompanhou a operação e disse que outros presos poderiam ser transferidos.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) realizou pesquisa que aponta a Bahia como o quarto estado brasileiro com maior número de adolescentes entre 12 e 18 anos vítimas de homicídios no Brasil. Das 20 cidades mais violentas do País, 4 estão na Bahia. Até 2017 a cidade de Itabuna ainda liderava esse rank.

A coleção de filmes de faroeste que pertencia a Cowboy foi doada para os primos. Sua filha hoje tem sete anos de idade. Neide casou-se novamente.

 

*Texto publicado originalmente na quinta edição da revista Editoria Livre.

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