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O que move o ser humano é o desejo de não se mover um dia

O que move o ser humano é o desejo de não se mover um dia

Henrique Szklo -

Tudo o que o homem criou e que deu certo desde o tempo em que vivíamos em cima das árvores, ou seja, desde os primórdios de nossa existência, está relacionado ao desejo de conquistar mais conforto. Pode pensar no que quiser que você vai chegar à mesma conclusão. Vamos começar lá atrás, na invenção da roda. A roda facilita o transporte de objetos pesados, o que é inegavelmente confortável. O fogo – que não é uma invenção, mas uma descoberta – ilumina, aquece o ambiente no frio, espanta os animais e deixa a comida mais saborosa: conforto. Ferramentas em geral facilitam a agilizam o trabalho manual, que é conforto. Até as armas são conforto: matam a caça com maior facilidade e protegem os grupos de seus inimigos.

Pulando para os dias de hoje, você acha sinceramente que nós precisamos de vidros elétricos em nossos carros para viver? De ar-condicionado, de câmbio automático, de GPS? É fundamental para a nossa existência ter um ipod (texto de 2004) ou é apenas um desejo desenfreado por mais e mais conforto? Até o salto alto da mulher é uma espécie de conforto, pois a deixa mais elegante e com o corpo mais atraente. Apesar das consequências nem sempre positivas para as suas articulações, a sensação de estar com boa aparência provoca a tal sensação de conforto. Senão, o salto alto já teria sido abandonado há muito tempo.

É o propósito que trará conforto. Porque nem sempre o ato em si é confortável, mas o que desejamos que ele provoque certamente está relacionado com a busca por mais conforto. Construção civil, roupas, óculos, celular, internet, avião, computador, móveis, caneta, tesoura, papel higiênico, energia elétrica, fósforo, cartão de crédito, máquina fotográfica, régua, chave, guarda-chuva. Até as leis podem ser consideradas um desejo de conforto, pois, em tese, elas são criadas para melhorar a vida das pessoas, deixá-las mais tranquilas, mais seguras, mais protegidas, portanto, mais confortáveis. Nem sempre ocorre desta maneira, mas o princípio básico da criação de leis é o aumento de conforto do cidadão e da sociedade.

Agora, o ser humano é um contraditório ambulante, por isso até mesmo essa busca incessante pelo conforto passa por um conflito curioso e, por que não dizer, tragicômico: todos nós estamos o tempo todo buscando e desejando mais conforto para nossas vidas. E o que é que fazemos para conquistar isso? Nos matamos de trabalhar. Trabalhamos que nem animais, nos estressamos, suportamos situações desagradáveis e por vezes dramáticas, enfrentamos um dia-a-dia muitas vezes massacrante, nos frustramos, nos deprimimos pois não atingimos nossos objetivos e pra quê? Para conseguir mais conforto. O pensamento comum e pouco reflexivo que geralmente se faz é “Vou me matar a vida toda para ter conforto na velhice”, ou “vou trabalhar bastante agora para um dia não precisar mais trabalhar”. Sinceramente, é deprimente. Eu prefiro o conforto agora. Por isso conclui que:

Somos viciados em conforto

Minha conclusão neste caso é de que o conceito “evolução” está diretamente relacionado ao crescimento do conforto da sociedade. Nossa sociedade evoluiu em que critério? Podemos estar todos enlouquecidos pelo ritmo e pelas exigências atuais, mas não podemos negar que a nossa vida é muito mais confortável do que há 10, 20, 30, 50, 100 anos. Na verdade, estamos sempre falando de conforto físico, porque a nossa mente está cada vez mais oprimida, mais estressada, mais enlouquecida. Veja se, de fato, o ser humano mudou nos últimos 2000 anos. Os costumes certamente mudaram, mas o ser humano continua o mesmo. Os sete pecados capitais continuam aí, intactos, mesmo após tanto desenvolvimento tecnológico.

E depois de conquistarmos todos estes confortos físicos, fica difícil de entender como é que conseguíamos viver sem eles em tempos anteriores. Você consegue hoje se imaginar sem telefone celular? Sem internet? Sem sistema bancário online. Sim, porque os mais jovens não devem saber, mas antigamente você só podia sacar algum dinheiro do banco na agência em que você tinha conta. Entrar na fila, fazer um cheque, ter sua assinatura conferida, ter seu saldo conferido e só assim fazer o saque. Hoje, podemos estar no Cazaquistão, no domingo à noite e conseguimos sacar dinheiro de nossa conta aqui no Brasil.

Pois então, somem-se a isso as outras milhares de facilidades e confortos que adquirimos nos últimos anos e veremos como a nossa vida realmente é uma maravilha, se comparada ao passado. E, a não ser que venhamos a sofrer uma hecatombe nuclear, no futuro também não conseguiremos entender como é que conseguíamos viver em 2011 com tantas limitações. Provavelmente os nossos descendentes pensarão: “Que nojo. Naquela época as pessoas iam ao banheiro, sentavam num sofá de porcelana com um buraco no lugar da bunda e com água dentro e faziam suas necessidades, uhhh!” Isso porque em 2110 provavelmente teremos um aparelho que desintegrará nossas necessidades antes que possam abandonar nosso corpo.

Contrassenso

Tenho um carro muito, muito moderno. Me oferece todo o conforto que o dinheiro pode comprar. Acordo de manhã e, ainda na copa, tomando café, dou a ignição por controle remoto. Quando chego à garagem, sua porta se abre automaticamente. Sento e a porta se fecha sem que eu tenha de fazer nenhum movimento. O mesmo acontece com o cinto de segurança, que me abraça sem que eu precise mexer um músculo. O câmbio é automático, portanto, não preciso me preocupar com ele. A direção é tão leve e macia que posso usar o dedo mindinho para controla-la. Na rua, pingos caem no para-brisa inteligente e, automaticamente, o limpador é acionado. O mesmo acontece com o farol, pois os sistemas do carro detectaram que o dia está meio escuro. Ligo o rádio, troco as estações e falo no celular sem tirar as mãos do volante. Chego ao meu destino. Controlado pelo computador de bordo, meu carro estaciona sozinho. Desço, ele tranca a porta e liga o alarme sem que eu tenha de fazer nada para isso. Onde estou? Na academia de ginástica. E o que vou fazer lá? Muita força. Vou gastar minha energia até o limite do meu corpo. Vou suar, vou sofrer, vou ficar esgotado. Depois, tomo um banho e volto ao meu veículo maravilhoso onde os únicos músculos que utilizarei serão os do rosto, gerando um sorriso orgulhoso por ter um carro tão bacana. É por isso que hoje existe academia de ginástica.

Antes não precisava, porque antes existia a Brasília. Cada conversão era um esforço fenomenal. O câmbio era duro e impreciso. As janelas estavam sempre emperradas. Uma autêntica academia ambulante. A sanha desenfreada do homem em busca do conforto está criando estas situações bizarras. Nosso corpo não foi feito para ser tão poupado de esforços. E quanto mais conforto adquirimos mais problemas ele terá para se adaptar.

Trecho extraído do livro “Você é criativo, sim senhor”, de Henrique Szklo. Edit. Jaboticaba, 2013.

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