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Qual é a causa profunda desta situação na qual tanto a direita quanto a esquerda perderam a capacidade de compreender o outro? Em outras palavras: por que as elites políticas não mais são capazes de acessar o mundo do brasileiro trabalhador?

Para mim, amigos, a resposta está, em primeiro lugar, na falência do sistema educacional brasileiro. Essa falência foi causada, em parte, pela desastrosa reforma educacional estabelecida pelos militares em 1971, que aboliu de vez o ensino clássico, tornando compulsório, no segundo grau, o ensino “para o trabalho” em todas as escolas públicas e particulares. Como conseqüência dessa reforma, as gerações formadas no Brasil após os anos 70, independentemente da formação acadêmica que alcançam – do fundamental ao pós-doutorado –, podem vir a ser escolarizadas, mas não se tornam cultas; podem ser instruídas, mas não são refinadas. E é o refinamento humanista que torna possível ouvir e compreender as palavras da diferença e, com elas, enriquecer o seu próprio mundo.

Em suma: faltou, e falta, às lideranças políticas, econômicas e administrativas do país uma educação humanista. A substituição do ensino clássico – e do científico – pelo ensino profissionalizante tornou-nos todos incompetentes para a percepção das representações e dos valores do povo. Tornou-nos ineptos para a leitura da nossa conjuntura histórica. Impossibilitou-nos o exercício de incorporação, em nosso mundo, do mundo alheio.

* * *

Como é possível então adquirir, numa situação de desastre educacional como a nossa, a capacidade de visitar os outros mundos? Eu acredito que existam dois caminhos.

O primeiro caminho é a experiência de vida. Mas para percorrer esse caminho é preciso viver uma vida inteira. E, sinto muito, esse caminho está interditado às nossas elites. Nossas lideranças não sabem como vive um um brasileiro comum. Não têm a experiência de chegar ao fim do mês sem dinheiro para comprar café e pão. De ficar devendo à escola das crianças, a familiares, ao senhorio. Jamais conhecerão o olhar decepcionado, mas cheio de esperança, da criança que perdoa a ausência do presente e, em vez de ser consolada, consola: “tudo bem, não tem problema, no ano que vem, né?…”. Nossas lideranças não imaginam a impotência muda que se tem ao olhar para as crianças sabendo que não há um futuro melhor para elas, porque não dá nem para pagar um cursinho de inglês. As elites políticas, econômicas e administrativas do Brasil nunca passaram por isso. É preciso ter sido pobre no Brasil para que se possa ter a experiência de ser realmente brasileiro, para que se possa compreender a vida e os valores do homem comum no Brasil.

Mas existe um segundo caminho. Um atalho. Esse atalho para que se possa ir ao mundo do outro é a literatura, é a cultura humanista. Você nunca foi pobre, mas quer saber como pensa e sente quem vive na pobreza? Leia a grande literatura. Leia Dostoiévski. Leia Eça. Leia Guimarães Rosa. A literatura nos ensina a ver com os olhos do outro, a pensar com as idéias do outro, a viver uma outra vida que seria impossível para nós.

Contudo, além da falta de experiência da vida do brasileiro, as nossas elites são absolutamente iletradas. Essa é a conseqüência funesta da nossa derrocada educacional. A substituição do ensino clássico pelo ensino profissionalizante agora cobra seu preço: após quarenta anos, chegam ao poder elites políticas que não compreendem a dinâmica do nosso momento histórico – elites incapazes de acessar, dentro de si, a representação de mundo do povo que governam.

* * *

O que nos resta então?

Não podemos saber o que nos aguarda. Contudo, nossa insegurança não nos exime da nossa primeira responsabilidade humana: o dever da comunicação. E, sobretudo, a comunicação com aqueles que pensam de modo diferente de nós. Para que possamos nos comunicar, todavia, é preciso exercitar a sensibilidade humanista. É preciso ler Cervantes, é preciso ler Machado e Pessoa. É preciso aprender a encontrar o Outro dentro de si, para que se possa sair de si e ir ao Outro. É preciso aprender a escutar, porque a escuta atenta do outro é o primeiro cuidado com um inevitável companheiro de uma jornada em que buscamos – todos – a nossa terra prometida. Afinal, compartilhamos um destino em comum. Diante de nós está o mesmo mar, sobre nós está o mesmo céu, e somos alimentados pelo mesmo chão. Somos, enfim, o Mesmo.

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