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O Trivium – Capítulo 1

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Alexandre Gomes -

Imagem de Maria – foto por Rafael Medeiros

Lembra do que foi dito no primeiro texto sobre as sete Artes Liberais? Pois bem, a Irmã Miriam Joseph expõe da maneira dela, e isso pode ajudar a entender o que foi dito antes. Bom, primeiro as damas, certo? Por isso vai primeiro a definição da Irmã: O Trivium contém as Artes da Linguagem, logo, relacionadas com a MENTE. Assim, temos:

LÓGICA: arte de pensar;

GRAMÁTICA: arte de inventar símbolos e combiná-los para expor pensamentos;

RETÓRICA: arte de comunicar.

Agora, lembrando o que foi dito antes, junto com as definições da Ir. Miriam Joseph, temos:

GRAMÁTICA: é a ciência de falar sem erro, pois é a arte de inventar símbolos e combiná-los para expor pensamentos;
RETÓRICA: é a arte de comunicar, seguindo uma disciplina honesta para persuadir sobretudo o que for conveniente;
LÓGICA: é a vacina para a mente ser capaz de distinguir o FALSO do VERDADEIRO, pois é a arte de pensar.

O Quadrivium, são as quatro Artes Liberais da quantidade, ligadas a MATÉRIA. Veja como a Ir. Miriam subdivide em dois grupos:

As Artes que tratam da QUANTIDADE DESCONTÍNUA, ou número:
ARITMÉTICA: teoria do número;
MÚSICA: aplicação PRÁTICA do número

As Artes que tratam da QUANTIDADE CONTÍNUA, ou espaço:
GEOMETRIA: teoria do espaço;
ASTRONOMIA: aplicação PRÁTICA do espaço.

Melhorou agora? Compreendeu mais o alcance da coisa toda? Então, eu faço a pergunta que pode estar na sua cabeça: por quê começar pelo Trivium e não o Quadrivium?

Ah, simples, meu caro (ou minha querida)! Preste atenção neste trecho do livro:

aqueles que primeiro aperfeiçoam suas próprias faculdades através da educação liberal estão deste modo, mais bem preparados para servir aos outros em sua capacidade profissional”. fonte: O Trivium, Ir. Miriam Joseph.

Percebe? Primeiro EU me educo para poder TRABALHAR e melhor servir meu… cliente! Isso é Idade Média viu? Muito antes do ano 1.000! Há séculos de qualquer guru da administração, ou palestrante de auto-ajuda. Por isso eu pergunto: dá para levar a sério aquela conversa mole de Idade das Trevas? Eu não levo…

Bom, voltando ao assunto, vamos para outro ponto interessante. A educação liberal era bem diferente — em objetivo — que as artes utilitárias, ou até mesmo das belas artes. Enfim: porque o Trivium primeiro, não é? Veja, as três Artes estão ligadas à MENTE, logo, ligadas à organização da própria mente do estudante. Compreendidas todas as três, o aluno estará habilitado a compreender as abstrações e raciocínios complexos do seu professor quando tratar de números e formas (Aritmética e Geometria — do Quadrivium). Ou seja, primeiro devemos aprender a pensar e expressar de maneira PRECISA o que pensamos, para então aprendermos como são as coisas fora de nossa mente. Compreendeu até aqui?

Agora, voltando um pouco… você notou o que eu disse antes? Artes Utilitárias e Belas Artes. Conhece? Sabe quais são? Espero que tenha ficado com curiosidade pois tratarei delas agora.
As ARTES UTILITÁRIAS (tais como Vendas, Serviços bancários, Carpintaria, Direito, Medicina, etc) e as SETE BELAS ARTES (Arquitetura, Música Instrumental, Escultura, Pintura, Literatura, Teatro e Dança); ambas são transitivas, ou seja, começam no agente e terminam no objeto. Já as Artes Liberais tanto começam como terminam no agente. Mesmo assim… porque Belas artes? Qual a diferença para tamanho elogio? As Belas Artes se destacam entre as artes utilitárias porque elas têm o potencial, a possibilidade, da eternidade. Somente as sete belas artes têm o poder de elevar o espirito humano. As demais artes utilitárias produzem utilidades (bens e serviços) que atendem as necessidades do homem.

Outro aspecto que se deve compreender neste estudo são as Classes de Bens: os VALIOSOS, os ÚTEIS e os APRAZÍVEIS. Os primeiros (valiosos), são desejados não só por sua própria causa, mas também porque aumentam o valor de quem os possuir (ex.: saúde, virtude, conhecimento); os bens úteis são desejados porque são meios para alcançar os bens valiosos (alimento, dinheiro, livros). Já os bens aprazíveis são desejados por si mesmos, em razão da satisfação que dão àqueles que os têm (felicidade, boa reputação, comida saborosa). Perceba que eles — os bens aprazíveis — nada acrescentam ao valor intrínseco do possuidor, nem são desejados como meio para outro bem de outra classe. Mas podem se associar a bens valiosos ou úteis. Por exemplo, o sorvete, que alimenta (valioso) e é prazeroso, agradável.
Voltando as artes utilitárias (ou servis). Elas permitem que alguém seja um SERVIDOR e ganhe a vida! Ou seja, é um ofício, um trabalho. As Artes Liberais, em contraste, ensinam a viver, treinam as faculdades e as aperfeiçoam. Permitem o indivíduo elevar-se acima de seu ambiente material, para viver uma vida intelectual. Ou seja, tornar-se uma pessoa melhor! Caramba! Isso é auto-ajuda uns quinze séculos antes do primeiro marqueteiro! Outro aspecto das Sete Artes Liberais é que elas também são uma ciência.

Vamos dar um tempo para você processar esse detalhe: as Artes Liberais são também uma ciência.

Entendeu? Ou está se perguntando: qual a diferença, então, entre Arte e Ciência? Veja só, a Arte é algo a se FAZER, e a Ciência é algo a CONHECER. Pois bem, o Trivium é o instrumento de toda a educação em todos os níveis, pois a Gramática, a Lógica e a Retórica são as artes da Comunicação mesma. E esta só tem lugar quando duas mentes, realmente se encontram. Se o ouvinte/leitor recebe as mesmas ideias que o escritor/emissor deseja transmitir, ele (ouvinte) entende — ainda que possa discordar delas.

Agora, vamos voltar ao tempo atual, a sociedade da era da informação, do “big data”, dos robôs que traçam perfis de consumo juntando migalhas de dados de uma pessoa pela internet. Consegue ver isso? Ou se assustar com o alcance da tecnologia de hoje? Então leia isso aqui:

(…) a atividade do estudante é relacionar os fatos apreendidos num todo unificado e orgânico.” John Henry Newman (1801–1890), escritor e sacerdote inglês.

Parece que o que era para ser uma habilidade humana foi perdida e passada para programas de computador, não? Um aprendiz deve usar colchetes mentais para ligar os fatos entre si de modo a formar um todo significativo. O acúmulo de fatos é mera informação e não merece ser chamado de educação, pois sobrecarrega a mente e a embrutece, em vez de desenvolvê-la, iluminá-la e aperfeiçoá-la. As três Artes da linguagem dão disciplina à mente, uma vez que esta encontra expressão na linguagem. As quatro Artes da quantidade dão meios para o estudo da matéria.
Já falei do que é cada uma das três Artes do Trivium. Sendo, essencialmente, as Artes da Comunicação, da Linguagem. Ora, nos comunicamos para expressar nossa apreensão da realidade. Portanto, tomando a realidade como centro, as três Artes se relacionam com a realidade assim:

Lógica: trata da coisa tal como ela é CONHECIDA;
Gramática: trata da coisa tal como ela é SIMBOLIZADA;
Retórica: trata da coisa tal como ela é COMUNICADA.

Reforçando: Lógica > conhecimento / Gramática > símbolo / Retórica > comunicação.

Percebe a escala? O CONHECIMENTO (Lógica) está na MENTE, os SÍMBOLOS (Gramática) são as ferramentas para eu dizer o que conheço para outra pessoa; estabelecendo uma COMUNICAÇÃO (Retórica). Viu como tudo se amarra? Percebe a utilidade daquelas aulas de Gramática no colégio? Entende que faltou (ainda falta) uma aula de Lógica para sabermos pensar com ordem, e uma aula de Retórica para nos expressarmos com clareza? Putz!, até D.R. de casal pode deixar de acontecer com frequência só com esse aprendizado!

Outra coisa: notou que é a RETÓRICA que coroa, completa, as três Artes do Trivium? Ela é a meta do Trivium! Agora, é importante esquecer a ideia de que Retórica é malandragem. Não culpe a Arte pela má intenção de quem a usa. Aristóteles dá a dica: “A Retórica pode ser definida como a faculdade de, em qualquer situação, perceber os meios de persuasão disponíveis.” Ele também alerta: o uso de algo bom para um fim mau, não nega a boa qualidade da coisa mesma.
Quer um exemplo do valor da Retórica? Veja aqui: a Retórica reconhece vários níveis de discurso, tais como o letrado (donzela, corcel), o comum (moça, cavalo), o iletrado (mulézinha), a gíria (cabrita, pangaré) e o técnico (homo sapiens, equus cabalus), cada um com seu uso apropriado. A adaptação da linguagem às circunstâncias, que é a função mesma da Retórica.
Por último, uma ressalva: a Retórica é a maior das artes do Trivium, agora a Lógica é a arte das artes, pois dirige o ato mesmo de raciocinar, que é o motor dos atos humanos.

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