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Henrique Szklo -

Tenho um amigo, o Rodriguez, que parece ter sido gerado não pelo útero da mãe, mas pelo intestino grosso dela. Seu mau humor é folclórico. E infinito. Estamos num boteco um dia desses quando ele declara seu mais novo alvo: os millennials, a quem chama de pivetes eletrônicos. Prepotentes, mimados e desrespeitosos são apenas uma amostra de adjetivos que usa para descrevê-los.

– Inventam nomes novos pra coisas que já existem há tempos e acham que são os primeiros inovadores da história da humanidade: startup, storytelling, influencer, trendsetter… – diz com sotaque afetado.

Normalmente evito contrariar o Rodriguez. Tenho família e preciso visitá-la de vez em quando. Uma discussão com ele leva dias, sem direito a banho de sol. Mas desta vez não posso deixar passar.

Começo dizendo que nosso genoma definiu em algum ponto da nossa evolução que a espécie humana deveria viver em grupo. Decisão da qual não podemos escapar. Não é uma escolha. O ser humano absolutamente sozinho enlouquece, vide alguns moradores de rua. A solidão é uma dor profunda que sinaliza nossa necessidade de companhia. Esse importante componente do nosso sistema de sobrevivência promove vários efeitos colaterais no comportamento humano. Um deles é o que eu chamo de Sotaque Social.

A imitação é a base do nosso aprendizado. O bebê aprende seus primeiros conceitos copiando ou tentando copiar os adultos. E passamos a vida inteira copiando uns aos outros. Na maioria das vezes fazemos isso sem perceber, sem que exista um desejo consciente para tanto. Quando mudamos de cidade, modificamos nosso sotaque sem percebermos. É o cérebro tentando se adaptar ao novo grupo social que frequentamos. Ele sabe que precisamos ser aceitos. E a melhor forma de ser aceito em um grupo é se parecendo com ele. Chamo isso de EIAM, Estatuto Instintivo de Aprovação Mutual.

– E os millennials com isso? – me interrompe rispidamente o Rodriguez. Peço paciência e continuo:

– A geração protagonista de hoje vive um momento muito parecido com outro famoso ocorrido entre o século XIV e o fim do século XVI: a Renascença. O que foi aquilo? Como é que nasceu tanta gente criativa numa mesma região e num espaço de tempo tão curto? Uma coincidência? Uma obra de Deus? Uma conspiração dos Templários? Nada disso. Foi o ambiente. Um elenco enorme de circunstâncias colaborou decisivamente para o florescimento das artes, ciências e filosofias com claro viés inovador e criativo.

O ambiente forneceu todas as ferramentas e condições para o fenômeno. E é a tal coisa: uns fazem, dão certo, são reconhecidos, ficam famosos, são respeitados, talvez ganhem algum dinheiro e então os outros começam a fazer também, despertando a capacidade criativa que todos, indistintamente, temos. Eles não ficaram criativos. A criatividade já estava lá, escondida em algum canto escuro. Seus cérebros é que se deram conta de que aquilo era o certo a se fazer e a criatividade foi desbloqueada da cabeça da garotada.

O Rodriguez tamborila os dedos na mesa olhando para chão. Não me intimido e vou em frente:

– Se você trabalhar em uma empresa criativa, naturalmente, em função do Sotaque Social, vai ficar mais criativo, mesmo sem perceber. E o contrário também. Trabalhar com gente tacanha vai transformar os profissionais mais criativos em plantas que andam. O ambiente interfere diretamente na capacidade criativa, pra cima ou para baixo. Só os gênios conseguem criar em qualquer ambiente.

Faço uma pausa estratégica. Diante do silêncio ofensivo, continuo:

– Acredito que hoje está ocorrendo uma nova Renascença. É a Renascença Digital. A Califórnia em seu Vale do Silício é cover da velha Toscana. Hoje o “certo” é ser inovador, criativo, desenvolver novos produtos e serviços por meio de startups ambiciosas com o desejo de transformar a sociedade. E, em tese, é um processo acessível a todos. Basta uma boa ideia e capacidade para realizá-la. Não precisa nem ter dinheiro próprio. Tem muita gente querendo investir em ideias promissoras. Estatisticamente, quanto mais gente criando, maior é a quantidade de boas ideias que podem surgir. E como a maioria delas foi criada por millennials, o normal é se render a vaidade e se considerar parte do grupo bem-sucedido, mesmo sem ter participado direta ou indiretamente do processo.

O Rodriguez me olha fundo nos olhos, cospe violentamente o palito que dançava entre os dentes e diz:

– Você quer dizer então que o Leonardo Da Vinci era um insolente empertigado e o Michelângelo um emproado cheio de mimimi?

Respondo apenas com um sorriso fingido. O Rodriguez respira fundo e declara:

– Renascença o cacete! Esses pivetes eletrônicos se acham superiores só porque conseguem digitar mais rápido no smartphone. Nativos digitais que se consideram mais criativos que as outras gerações, desprezando totalmente a experiência como valor. Eles confundem conhecimento com informação, ou o acesso a ela. Uma pessoa que acumula informação não é necessariamente inteligente – afirma enfaticamente –, tem apenas uma boa memória.

Já exaltado, quase levantando da mesa, argumenta que consultar a Wikipedia não faz de ninguém um luminar e que só admira aqueles que sabem mesclar as informações de forma ousada, buscando o verdadeiro pensamento original.

Decido liquidar a discussão e digo ao Rodriguez que não só entendo a geração Y como me considero um millennial prematuro. Também não gosto de ninguém mandando em mim nem dizendo o que é certo ou errado. Não aceito as regras das quais não concordo. Gosto da diversidade e quero um propósito para meu trabalho. Canso rápido de tudo, por isso gosto de novidade o tempo todo. Sou muito curioso e prefiro o conhecimento mais horizontalizado. Só presto atenção naquilo que me interessa e não digo nada antes de consultar a internet. E, por último, sou mimado.

– Olha, sinceramente, – concluo – acho que posso me considerar um membro honorário desta geração.

E o Rodriguez responde num tom seco e rascante:

– Não, não pode… velho!… – toma sua cerveja e vai embora sem pagar.

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