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TRIVIUM: CAPITULO 2 – ESTILOS DE LINGUAGEM (parte 9)

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Alexandre Gomes -

O tema da lição anterior estava começando a ficar longo demais, então, dividi o assunto e sigo tratando mais dos estilos de linguagem.

No artigo anterior falei sobre as DIMENSÕES LÓGICA e PSICOLÓGICA da linguagem. Lembra da diferença dos sinônimos casa e lar? Como este faz você lembrar da infância ou algum bom momento na sua vida, e aquele é algo mais impessoal?

Pois bem! Vamos seguir com mais exemplos de como o SOM, o SIGNIFICADO PSICOLÓGICO e as IMAGENS MENTAIS que as palavras fazem surgir em nossas mentes têm a capacidade de ALTERAR nossa maneira de ver o orador.

EXPRESSÕES INDIOMÁTICAS:

Aí está algo que o Nordeste é cheio. Na verdade, todas as regiões do país, em suas zonas rurais, onde vivem pessoas simples e mais ligadas à produção da terra, tais expressões surgem naturalmente. Elas existem para condensar ideias complexas (ou conceitos longos) em poucas palavras. Ou ainda, dependendo da entonação, representar uma ofensa quase INDIZÍVEL. Vamos a alguns exemplos de termos diferentes que significam quase a mesma coisa, ou que podem parecer algo muito ruim, mas é algo quase inocente.

alma de gato: pessoa que não merece confiança, desonesto, sádico;

infeliz da costa ôca: pilantra, pessoa de má reputação, (antes era gíria para doentes de tuberculose, mas o azar da doença passou a ser uma praga e, em seguida, um xingamento);

malino: criança travessa, arteira, que não para quieta.

ALUSÕES:

É uma passagem em um texto que faz REFERÊNCIA a frases, ou trechos mais longos, de outras obras, que o escritor tem certeza que o leitor conhece.

O Trivium mostra que a ALUSÃO é uma ferramenta para pessoas com boa bagagem cultural, que são capazes de reconhecer trechos famosos de clássicos da literatura, tratar personagens fictícios como pessoas reais, etc.; porém, nos exemplos que irei apresentar a seguir, mostrarei que não é bem assim. Veja:

“E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias, foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira do espetáculo”. – Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Ok!, há quem encare o próprio Machado como erudito o bastante, mas a referência (alusão) no trecho está ALÉM do termo em inglês (ah!, a tradução seria: país desconhecido, ou seja, o Além, o pós-vida…). A alusão é mais focada no estado emocional de Hamlet em toda a peça; que é: um jovem atormentado pela descoberta de que seu pai foi assassinado pelo tio e pela mãe, que estavam apaixonados.

Percebe que a compreensão da ALUSÃO do texto de Machado de Assis implica que o leitor tenha lido com atenção a peça Hamlet?

Ficou claro o que é alusão? Agora, me deixe provar, com um simples meme, que a ALUSÃO pode ser algo incrivelmente raso:

Por mais que ainda seja usada, a ALUSÃO se reduziu à simples piada, e com um alcance minúsculo – pois essas alusões são uma piada interna. Tem a intenção de demarcar um nicho que sabe algo que outro grupo desconhece.

Compreenda que a linguagem da ALUSÃO muitas vezes produz uma espécie de atalho verbal que conecta e comunica em poucas palavras experiencias partilhadas por pessoas em face de situações similares. Não importa em que momento do tempo, ou lugar no espaço.

COMBINAÇÃO DE PALAVRAS:

Aqui temos um exemplo que se aproxima muito da poesia. Algumas combinações de palavras tem um impacto psicológico que nos faz pensar: “perfeito! Não se diria melhor que isto!”. Por exemplo,

“Ela estava mais bela do que nunca, o vestido de noite azul-celeste realçava sua beleza de uma maneira que era impossível não prender os olhos de quem a via.”

Agora troque “vestido de noite” por “avental” e o encanto se quebra! Quando é dito “vestido de noite” tanto eu como você pensamos em um vestido de noite que imaginamos deixar a mulher atraente e bela – e é quase certo que estamos pensando em vestidos diferentes! E mesmo assim: o impacto psicológico é o mesmo em nós dois. Pois foi a combinação das palavras que nos induziu ao pensamento. Quando colocamos “avental”, é inevitável pensar em rotinas de limpeza e isso não é nem um pouco sensual.

ENTENDIMENTO LÓGICO E POÉTICO:

A poesia é, por excelência, o uso das palavras (símbolos) de maneira emotiva. Há quem diga que a poesia é a forma INESQUECÍVEL de descrever a realidade (a boa poesia, é claro!). A seguir vai um trecho de um poema para demonstrar a diferença entre o entendimento lógico e poético.

“Vai e agarra uma estrela cadente

Emprenha uma raiz de mandrágora

Diz-me onde estão os anos que se foram,

Ou quem fendeu os cascos do diabo,

Ensina-me a ouvir o canto das sereias

Ou então a manter-me longe das ferroadas do ciúme e da cobiça

Descobre que vento serve bem à alma honesta (…)”

Ora, é evidente que o poema é uma sequencia de alegorias e visões fantásticas. Querer entendê-lo literalmente é remover todo o significado e poder do poema. Perceba:

– Quem tenta agarrar uma estrela cadente? (veja bem, em queda!)

– Os anos passados ficam em algum lugar físico? Na verdade, algum ano tem FORMA para que possa estar em algum lugar?

– Por acaso existem sereias?

– Ciúme e cobiça são algum tipo de inseto com ferrões?

Mas se você vê uma estrela cadente como um desejo de seu coração (e, por isso, luta para que este desejo se realize). Se encara os anos passados como uma lembrança querida e que não merece ser esquecida. Se as sereias cantam sobre prazeres insuperáveis que já viveu; e é capaz de entender que a dor do ciúme e da cobiça são, cada um deles, mais dolorosos que mil ferroadas…

Bom, aí você está realmente entendendo a parada!

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