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Luciano Pires -
Download do Programa

Bem-vindo ao LíderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação, Luciano Pires.

Luciano: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo e bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer.

Hoje trazemos Ricardo Abiz, empreendedor, um pioneiro em diversas áreas de atuação, especialmente no segmento da TV a cabo, agora empenhado em trazer para o Brasil o macrolearning.

Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido. É um bate-papo informal, com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu nem o meu convidado imaginamos. Por isso eu não me limito a fazer perguntas, mas dou meus pitacos também, você está entendendo aí? Não é uma entrevista, é um bate-papo.

O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa assim que ela é lançada. São mais de 24 horas de conteúdo de uma vez só, cara. Os não-assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar, acesse Café Brasil Premium.com.br.

Esta décima temporada do LíderCast chega até você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com.br.

Muito bem, mais um LíderCast, vamos ali ao background deste programa aqui. Eu vou, acho que há umas duas semanas atrás, ao lançamento do livro do Roberto Motta. Estou lá sentado, o Motta me apresentando para a turma toda e chega esta figura que está aqui comigo hoje e senta ali e “meu amigo a não sei quanto tempo”, a gente conversando. Começamos a bater um papo ali e eu vi que tinha café no bule e falei com ele, vamos lá, vem uma hora lá, vamos sentar e conversar, a gente vai trocar uma ideia, daquele jeito que eu gosto. Ele me apresentou algumas coisas ali de um trabalho que ele está realizando, achei bem interessante. Vamos ver aonde é que o papo vai nos levar aqui.

Você sabe que aqui o esquema é o seguinte, não tem pergunta pré-estabelecida, não tem nada. Tem nós dois batendo um papo. Então, se a gente for bom, nós levamos o papo para um lado bom. São três perguntas as únicas que são pré-programadas e as únicas que você não pode errar de jeito nenhum, que são, eu quero saber seu nome, sua idade e o que você faz.

Ricardo: Meu nome é Ricardo Abiz, tenho 55 anos, caminhando para 56 e atualmente sou um empreendedor no Brasil. Dizer que é empreendedor no Brasil já é uma coisa complexa nos dias atuais, mas eu trabalho na área de tecnologia e consultoria em gestão.

Luciano: São dois adjetivos que quando você gruda um no outro dá uma terceira coisa. Você fala eu sou um empreendedor, é um negócio interessante, sou brasileiro é outra coisa interessante, agora, empreendedor brasileiro tem que ser muito louco para poder estar nessa.

Ricardo: Uma loucura completa.

Luciano: Você nasceu aonde, Ricardo?

Ricardo: Eu sou de Porto Alegre, sou do Rio Grande do Sul.

Luciano: Outro gaúcho.

Ricardo: Outro gaúcho perdido nas terras de São Paulo, mas eu saí do Rio Grande do Sul, de Porto Alegre em 86 e vim para São Paulo. Na época, eu tinha uma ideia maluca, eu fazia um programa de surf e esportes radicais na Bandeirantes lá de Porto Alegre e essa história é até engraçada, sabe.

Luciano: Espera aí, deixa eu cortar você antes de você me contar a história, não perde o que você vai contar daqui. Você ficou então até que idade no Rio Grande do Sul?

Ricardo: 21.

Luciano: O que teu pai e tua mãe faziam?

Ricardo: Meu pai é militar, da brigada militar, já faleceu.

Luciano: Sim, então brigadiano?

Ricardo: Brigadiano.

Luciano: Alô, você que é de fora do Rio Grande do Sul, você tem que entender alguma coisa. Tem coisas que são características de alguns estados. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, do mesmo jeito que a gente fala aqui, o que você é? Eu sou policial, eu sou polícia, eu sou PM, no Rio Grande do Sul é brigadiano, lá são os brigadianos. Então quando fala meu pai era brigadiano, ele era da Polícia Militar, é isso?

Ricardo: É, a Polícia Militar, você sabe, meu pai foi uma pessoa muito famosa na época da Manchete etc. Meu pai tem um livro da história dele, fizeram um filme, porque fora ser brigadiano, ele era Aba Larga. Você sabe o que é Aba Larga?

Luciano: Aí, não. O que é Aba Larga?

Ricardo: Aba Larga era Polícia Rural Montada do Rio Grande do Sul, que combatia o triângulo do abigeato, que era o roubo de gado nas fazendas. Então, meu velho ficou famoso, porque combateu isso. Seria mais ou menos um Eliot Ness da época a la Gaúcho. Então a família tem umas histórias bastante interessantes.

Luciano: Então não era Porto Alegre, onde é que era isso?

Ricardo: Isso, meu pai, quando fez esse trabalho atuou muito na região de São Gabriel, Santa Maria, que é no interior, por isso o triângulo do abigeato, Bagé etc.

Luciano: Que legal, como é que você falou, triângulo do?…

Ricardo: Do abigeato.

Luciano: Triângulo do abigeato. O que quer dizer abigeato?

Ricardo: Abigeato eram as quadrilhas organizadas em roubo de gado, que invadiam as fazendas, roubavam esses gados, remarcavam esses animais, vendiam para frigoríficos clandestinos, na época.

Luciano: Interessante, cara. Sabe que eu fiz uma exposição e lancei um livro sobre a vida de Lampião, com um historiador famoso, conhece muito, um trabalho muito legal sobre Lampião. E nesse processo de estudo eu descobri um sujeito no Rio Grande do Sul que era um Lampião gaúcho.

Infelizmente, eu não vou lembrar aqui agora. Eu comprei o livro dele, eu achei o livro e tudo o mais. Mas, cara, pega a história do Lampião no Nordeste e leva para o Rio Grande do Sul, lá tem um Lampião gaúcho, que naquela região frequentava e ficou famoso e tudo o mais, mas não ganhou notoriedade nacional. E por que eu estou dizendo isso aqui, cada vez que a gente cutuca o interior do Brasil, vem umas histórias inacreditáveis, que dava filme, dava cinema.

Ricardo: A história da família é toda inusitada. Você que gosta de explorar essas coisas no Café, a história da família é inusitada. Meu avô, pai do meu pai, na época da legalidade, aquela coisa de Margato, meu avô era muito amigo do Flores da Cunha, todos conhecem. E tinha aquelas rixas de família, aquela coisa bem de filme mesmo. E o governo central mandou desarmar as pessoas no Rio Grande do Sul e foram desarmar o meu avô, foi uma rixa de família por causa da minha avó, na época.

E foram desarmar o meu avô, meu avô disse, só me desarma se eu estiver morto. Aí o sujeito avançou e meu avô matou o cara na hora e foi refugiado político, foi mandado pelo Flores da Cunha para o Uruguai, depois teve que fugir para a Argentina, porque mandaram matar ele no Uruguai. Da Argentina fugiu para o Paraguai, ficou na região de Misiones, divisa da Argentina com o Paraguai. E lá viveu a vida inteira e morreu. Meu pai com 13 anos fugiu de lá, porque brigava muito com o meu avô e ficou um mês viajando a pé pelo mato, dormindo em árvore e onça, ele conta isso no livro dele.

Luciano: Que coisa!

Ricardo: É uma história fantástica.

Luciano: Como é o nome do seu pai?

Ricardo: Oritz.

Luciano: Oritz. Vou querer saber um pouco mais aí. Então o seu pai era um brigadiano da Polícia Montada.

Ricardo: Um brigadiano com bastantes histórias.

Luciano: E sua mãe fazia o quê?

Ricardo: Minha mãe sempre foi de casa, a famosa do lar.

Luciano: Você tem irmãos?

Ricardo: Eu tenho quatro irmãos, duas mulheres, dois homens. O mais velho já faleceu, uma mora aqui em São Paulo. Agora, na verdade, duas das minhas irmãs moram em São Paulo e o meu irmão mora no Sul. Você vê que essa família tem aquela coisa, tem até as histórias de constelação familiar etc. e essa família é disso, porque o meu tataravô veio da Síria para cá para lutar. Ele conheceu minha avó, que era uma francesa.

Luciano: Aqui no Brasil?

Ricardo: Conheceu no navio.

Luciano: No navio a caminho daqui?

Ricardo: A caminho do Brasil.

Luciano: Então o seu tataravô é que chegou aqui, é isso?

Ricardo: Isso.

Luciano: Então já está no Brasil não é sem tempo.

Ricardo: E agora, ligado aos irmãos, você estava falando dos meus irmãos, só tenho um irmão agora em Porto Alegre, duas irmãs aqui, o mais velho faleceu e a família inteira, todos os filhos homens, inclusive o meu, todos moram na Austrália. Tem mais Abiz na Austrália, filhos, casados etc. atualmente do que aqui no Brasil. O sobrenome está acabando no Brasil, acaba comigo e meu irmão, porque o resto da família inteira migrou.

Luciano: Foi embora para a Austrália? Que interessante.

Ricardo: Foi embora para a Austrália. Hoje a família lá são 17, 18 pessoas e aqui, de homens mesmo, para dar continuidade, só eu e meu irmão e não vamos ter mais filhos.

Luciano: E seu filho também está lá?

Ricardo: Está lá. O sobrenome acaba comigo e com o meu irmão.

Luciano: Como é que era o teu apelido quando você era criança?

Ricardo: Cheiro.

Luciano: Cheiro? [risos]

Ricardo: Todo mundo dá risada, ainda bem que você falou de criança, porque tinha um casal de velhos que moravam do lado da minha casa que era bastante interessante, porque eles tinham perdido um filho na adolescência, quando o filho era adolescente. Então não tiveram outro filho e eu era um bebê na época e minha mãe dava banho, levava para visitar vizinho de porta, esse casal. Eram até argentinos, Seu Raul. E ela me pegava no colo “Ai, meu cheirinho.” Acabou virando Cheiro.

Luciano: Virou Cheiro. O que o Cheiro queria ser quando crescesse?

Ricardo: Sempre quis ser, olha, o sonho que eu tive era ser industrial. Uma loucura que eu nunca realizei.

Luciano: O dono da firma, o dono da indústria.

Ricardo: Eu tinha aquele sonho da fábrica grande, sabe, daquele galpão enorme, de produzir coisas, de ver uma linha de produção. Eu acabei pendendo para serviços e mudei completamente.

Luciano: Então, mas para seguir. Quando você vai escolhendo, durante a sua vida, você está sempre no interior do Rio Grande do Sul, morando lá. Você resolve que agora vou estudar, vou me formar para ter uma profissão no futuro. O que você vai buscar fazer?

Ricardo: Então, eu sou o típico geminiano com ascendente em gêmeos, sou multitarefa, sempre fui. Então, o meu primeiro empreendimento, por exemplo, foi aos 17 anos, eu montei uma revista, depois transformei em jornal, depois em programas de televisão. E sempre tive essa coisa de lidar com pessoas.

Indo mais no fundo da tua pergunta, eu sempre queria colaborar mesmo com as pessoas e encontrei isso em administração, dentro da administração, lidar com as pessoas, estar envolvido com as pessoas, são coisas muito presentes. Mas como eu falei, eu sou um geminiano em gêmeos, eu fui atleta dos 9 aos 22 anos, era decatleta, fui campeão sul-americano, campeão brasileiro 5 vezes, meu recorde durou 10 anos.

Luciano: Que legal, no decatlo?

Ricardo: No decatlo. Eu terminei minha carreira como decatleta. Então minha vida é bastante cheia de coisas.

Luciano: Sim, você se forma em administração aonde?

Ricardo: Lá em Porto Alegre.

Luciano: Lá em Porto Alegre, muito bem, diploma de administrador na mão, vou cuidar da minha vida e aí? Aí o pai não tinha uma fazenda lá?

Ricardo: Não, não tinha nada disso, brigadiano ali, salariozinho, coisa apertadinha assim. É bastante interessante, você vai gostar dessa parte, porque na verdade eu sempre fui um apaixonado e aí eu tinha uma namorada e nessa época exatamente que você está perguntando fui trabalhar numa concessionária de veículos, na área financeira.

Luciano: Em Porto Alegre?

Ricardo: Lá em Porto Alegre. Aí o primeiro cara que me aparece no balcão para aprovar crédito, quem era? O cara que tinha casado com a menina que eu era apaixonado. Eu disse, não quero mais isso para a minha vida, estou indo embora. Pedi demissão e comecei a empreender desde então. Tive vários negócios, acabei mudando para São Paulo, fazendo programa na Band, eu fiz programa na Band durante 8 anos.

Luciano: Mas então, como é que você chega em São Paulo, como é que você chega na mídia? Da onde vem isso?

Ricardo: Essa é outra história. Eu tinha a revista e o jornal, um belo dia me aparece alguém na minha casa e diz assim “Ah, eu quero fazer um programa na TV Guaíba.” Não sei se você conhece, mas é uma TV local de Porto Alegre. Eu disse “Como assim?” “Ah, não, eu tenho um espaço lá.” Como eu tinha contato com anunciantes e essas coisas “Ah, queria ver se você consegue um patrocínio.” “Deixe eu ir tentando entender, mas essa história eu tenho interesse.”

Passados uns dias, o cara sumiu, desapareceu. Aí, como eu sou um cara que tem esse perfil, corri atrás, fui até a TV Guaíba e disse “Vem cá, aconteceu uma coisa assim, assado, tem esse espaço aí?” Os caras “Tem, mas é um maluco que veio aqui, não tem dinheiro, não tem nada.” Eu disse “Se eu conseguir um patrocínio aí, vocês conseguem me colocar no ar?” “Sim.” Eu disse “Cara, o que precisa?” O cara começou a rir da minha cara, porque eu era um garoto, começou a rir, ele riu na minha cara. Eu disse, “Não, o que você precisa? Um fax adianta?”

Na hora eu liguei para São Paulo, peguei o patrocínio da Sunwear, que algumas marcas de surf eu conhecia todo o pessoal aqui de São Paulo, eles mandaram autorização de veiculação pronta, entrei no ar junto com a Marla Martins, que até hoje é apresentadora de programa lá no Sul. Dali, a Bandeirantes me convidou para fazer um quadro.

Luciano: Mas você botou no ar programa do que, cara?

Ricardo: De surf.

Luciano: Mas você não tinha o programa, você não tinha nada imaginado, como é que é? Entro no ar e faço o quê?

Ricardo: Nada. É que na verdade eu estava fazendo um jornal. Eu fiz uma revista e um jornal sobre surf, esportes radicais.

Luciano: Conteúdo você tinha.

Ricardo: Tinha.

Luciano: Mas a transição do conteúdo do jornal para televisão, para linguagem televisiva, para ritmo, iluminação etc., você não tinha nada disso.

Ricardo: Nada. Nada.

Luciano: E aí?

Ricardo: No peito e na coragem.

Luciano: Liga ai a câmera, que eu vou entrar no ar?

Ricardo: Na verdade, tinha a infraestrutura da televisão, que você fazia isso nos estúdios da televisão. O que eu tinha era contato. Na época eu tinha as fitas em VHS, na época era em VHS, trabalhava em quadriplex para editar etc., que eram os equipamentos da época. Tinha o apoio do pessoal e eu tinha as fitas de filme de surf e aí as histórias que a gente tem para contar, tinha as fitas de filme de surf que vieram do exterior, que só eu tinha e não tinha direito autoral, você botava lá, ia ilustrando. Fiz alguns programas, a maioria programas de entrevista com esportistas, com surfistas etc., que estavam competindo na região e assim virou e veio parar aqui em São Paulo.

Luciano: Virou sucesso, fez sucesso o programa?

Ricardo: Fez. Fez sucesso, eu vim parar aqui em São Paulo com patrocínio da Olimpikus.

Luciano: Botando no ar programa aqui na Bandeirantes de São Paulo?

Ricardo: Na Band aqui de São Paulo.

Luciano: Que ano era isso?

Ricardo: Eu vim para São Paulo em 86. Eu comecei em Porto Alegre em 82.

Luciano: Você veio por causa da Band, então?

Ricardo: Eu vim por causa da Band.

Luciano: Olha que loucura, você começa um negócio do nada, não era um plano para ter isso.

Ricardo: Não, e você sabe que tem uma história doida por trás dessa história. Porque no meio de uma tarde, indo almoçar, na verdade, eu estava indo almoçar na casa dos meus pais, me deu uma epifania, eu disse “Vou embora para São Paulo, vou fazer esse programa em São Paulo.” Na minha cabeça. Fui, almocei, cheguei para os meus pais, disse “Fui convidado para trabalhar na Band de São Paulo.” Eles “O quê?!” Era uma tremenda de uma mentira.

Dali eu fui para a emissora lá em Porto Alegre, falei com o diretor comercial, disse “Quero trabalhar na Band de São Paulo, o que eu faço?” “Ah, não, deixa que eu faço, aconteço,” o cara não fez nada, eu botei tudo dentro do carro e fui para São Paulo. Fiquei um mês aqui no Morumbi, na época tinha uma japonesinha chamada Hitomi, que era secretária do Wilson Tomaz, que era diretor comercial da Band Brasil, um mês eu fiquei no banco, dizendo “Eu quero falar com o Wilson, eu fui indicado de Porto Alegre.”

Aí acabei fazendo amizade, ela disse “Ninguém te indicou, Ricardo, você vem aqui todo dia.” Eu disse, “Não, amanhã eu volto.” E ficava, juro para você, ficava cinco horas sentado naquele banco. Depois de uma semana, mais ou menos, a Hitomi olhou para mim e disse “Ricardo, você já não percebeu que o Wilson Tomaz não vai te atender?” Eu disse “Eu vou continuar. Amanhã eu volto.” Ela disse “Espera aí.” Entrou lá e disse “O Seu Wilson disse que você tem 5 minutos.” Eu disse “Ok, é tudo o que eu preciso.”

Entrei com uma fitinha VHS embaixo do braço, apresentei, entrei, botei a fita “Eu faço isso, isso e isso, já faço em Porto Alegre.” E Porto Alegre continuou, eu deixava as cabeças lá gravadas. Aí, o Seu Wilson disse “Moleque, você tem uma lábia boa. Espera aí, eu vou chamar alguém.” Era o falecido Lafon, que era o diretor de programação da Band. Aí veio o Lafon. Lafon era de Uruguaiana, gaúcho “Outro gaúcho, está em casa” e não sei o que. “Está bom, o que esse garoto quer?” Aí fui, mostrei para o Lafon. Lafon “Pô, esse garoto é bom de lábia, chama o Zago aqui”, que o Zago até hoje está lá, o Marcos Zago está até hoje na Bandeirantes.

Eu tenho amigos até hoje, sou amigo do Ricardo Saad. Chamou o Zago e o Zago na época fazia um programa chamado Super Special, apresentado pelo Serginho Caffé, que era um programa de música, uma hora de segunda a sexta na Band. E o Zago estava sem patrocínio e eu estava com uma autorização assinada da DCS, que era a agência da Olimpikus, do Tênis Olimpikus e da Azaleia. Chamou o Zago “Zago, você tem 15 minutos para ele? O cara tem patrocínio.” A gente fechou ali, uma semana depois já estava gravando aqui os 15 minutos. Um ano depois estava apresentando programa de 1 hora sozinho.

Luciano: Você sabe qual é a chance de acontecer isso hoje em dia? Uma em um trilhão, de você bater na porta e quero falar com o diretor da televisão e do nada? Nenhuma.

Ricardo: Nenhuma. Não só em televisão, mas na maioria dos negócios.

Luciano: A que você atribui? Tem um componente sorte aí, que você encontrou um cara de Uruguaiana, aí já deu um ôpa, dois gaúchos.

Ricardo: Hoje eu estou escrevendo um livro. Por sinal, esse livro eu estou escrevendo ad eternum, cada vez que eu leio, quero escrever alguma coisa melhor, ai nunca fica pronto. Mas eu tenho refletido muito sobre isso nos últimos anos, não só agora, que aconteceu naquela época? Uma tremenda determinação. Dois, acreditar em algo, parece piegas, parece uma coisa comum, mas acreditar em algo. Três, que eram coisas que eu não via na época, preparação. Eu vim com três meses de patrocínio de uma marca nacional. Na época tinha até um comercial de uma Porsche, que o cara botava o tênis para fora e travava o carro que ia cair num píer. Olimpikus naquela época era famosa. Eu estava com tudo preparado.

E eu acho que o quarto elemento nessa história toda é que entra a sorte dos caras chegar e dizer “Quem é esse maluco? Esse cara está sentado quase há um mês aqui. Ele vem toda semana, ele vem aqui e fica três, quatro, cinco, seis horas, fica sentado, não briga com ninguém, mas está ali, está esperando.” E chegou num momento em que eu venci no cansaço, essa foi a verdade. Depois fiquei amigo do Wilson Tomaz, que era diretor comercial, ele disse “Ricardo, você me venceu no cansaço.” Eu disse “Não, te venci na persistência.” Mas hoje em dia eu diria que é bem mais difícil.

Luciano: Você, naquela época, quando você entrou no ar, você entrou no ar nacional?

Ricardo: Entrei primeiro São Paulo estado, SP1, SP2, SP3 e aí comecei a negociar, porque o Super Special era aquele programa de uma hora, que passava depois do jornal do meio-dia. Como ele não entrava nacional, o que eu comecei a fazer, comecei a buscar patrocinador nas cidades, porque tinha que pagar o link, que era caríssimo.

E comecei a fazer uma versão pocket da uma hora daqui, de 15 minutos para os caras botarem nos jornais, no horário local de cada estado, como eu já fazia em Porto Alegre, eu comecei fazendo isso em Porto Alegre. E comecei a buscar patrocinadores locais e entrei nacional sem ser nacional, foi muito doido.

Luciano: E me fala uma coisa, ficou claro para você que isso aí seria o teu futuro, que seria a tua profissão, ou você estava só numa passagem?

Ricardo: Então, nessa época, aí já perto, como acabou o programa em 88, aconteceu uma coisa bastante interessante. Começou a me dar uma vontade de trabalhar com marketing. Eu sempre gostei, você está no meio de televisão, para você ter ideia, Otávio Mesquita era gerente de merchandising da Bandeirantes. Muita gente conhecida.

Bom, me deu muita vontade de trabalhar com marketing, aí eu acabei ficando amigo do Ricardo Saad, eu falei “Ricardo, eu queria trabalhar com marketing.” Ele disse “Não” e não sei o que, e foi uma época conturbada, porque a Sílvia Jafet entrou no jornalismo da Band e mudou tudo, acabou com um monte de programas. Na mesma época, um pessoal aqui de São Paulo já que eu tinha conhecido, já, já eu vou lembrar o nome das pessoas, mas que eram de agências e estavam montando a MTV. Eles me chamaram “Ricardo, você é a cara da MTV, a gente vai te indicar.” Eu disse “Ah, não quero. Quero trabalhar com marketing.” “Você está maluco?”

Isso, a Sílvia Jafet acaba com esse programa, reformula toda a grade de programação da Bandeirantes e a Record estava começando. Aí me procuraram, dizendo “Vem para a Record.” Eu disse “Não quero.” Aí mudei para Curitiba e fui ser gerente da Rádio Scala. Imagina, fazia programas de surf e esportes radicais, fui para Curitiba ser gerente da Rádio Scala, que só tocava música clássica. Do Diário do Grande ABC fui parar em Curitiba, como gerente da Rádio Scala. E lá fiz alguns programas na Band local no horário do almoço e engrenei numa carreira de marketing, que é até hoje em gestão etc., que aconteceu.

Luciano: Então que doideira é essa, cara, que mudança? Porque você está num caminho, você está em São Paulo, numa TV de alcance nacional, entrou regional mas já está atingindo várias praças, quer dizer, tem um caminho aberto na tua frente ali, que podia te levar para sei lá para onde e você inverte o caminho, volta para uma região menor, vai para uma capital menor, para trabalhar numa rádio, cara, você cortou, você podou aquela… o que foi, você ficou puto, apareceu alguém que você se apaixonou e o marido resolveu falar com você?

Ricardo: Os dois. Primeiro eu fiquei puto quando acabou com o programa na Band. Eu tinha um carinho, uma paixão pela Band muito grande. Imagine, foram oito anos e eu nunca fui funcionário da Band, como é todo mundo até hoje, eu não era funcionário da Band etc. Quando acabou, eu fiquei muito puto, aí eu disse quero mudar e vou mudar radical, eu vou agora trabalhar… Rádio foi um caminho, porque logo em seguida eu entrei em indústria farmacêutica e aí começou a minha carreira como executivo mesmo e de muito sucesso, inclusive.

Luciano: Se você fala para mim que você vai para a Rádio Globo, que você vai para a Jovem Pan, cara, eu até entendo. Agora, você vai para Curitiba e vai para uma rádio que toca música clássica, quer dizer, é o núcleo do núcleo.

Ricardo: Então, na verdade, na época estavam montando uma rádio em Curitiba, que era uma rádio rock, se eu não me engano, do Paulinho Pimentel. Quem estava investindo nesse negócio era o grupo CR Almeida, construtora. E virou água esse negócio. E eu tinha me apaixonado, como você falou, matou a charada. Eu tinha me apaixonado por uma curitibana, irmã de um amigo meu que tinha voltado de Londres, e eu, nossa, caí de joelho, é a mãe do meu filho mais velho. E eu disse é para lá que eu vou e vou nessa.

Do mesmo jeito que eu saí de Porto Alegre, enfiei três pranchas de surf e um monte de coisas, em 86, para ir para São Paulo, para vir fazer Band, dar continuidade na Band, fazer Band São Paulo e entrar nacional, naquele momento decidi, agora o rumo é lá. E fui e lá comecei a construir minha carreira, dali fui morar em Florianópolis, fui parar na RBS, mas aí já com televisão a cabo.

Luciano: RBS Santa Catarina?

Ricardo: Não, fui para Santa Catarina e depois fui para na RBS em Porto Alegre, nesse projeto de TV a cabo. E lá começou minha carreira. Sou um dos fundadores da NET, eu montei 18 operadoras de cabo no Brasil. Gerenciei, a pessoa responsável, na época, por 650 mil assinantes da base de assinantes da Multicanal, não era NET, era um dos sócios. Meu amigo, eu tenho história, dá uns 20 Café Brasil.

Luciano: Então, mas é interessante, eu estou vendo aqui a tua carreira, quer dizer, você passa por algumas áreas e termina naquela que era a tua raiz, que você fez administração, aquilo te deu uma base, mas você foi trabalhar como apresentador de programa de surf na televisão que, tudo bem, administração dá embasamento para isso tudo, mas aquilo não é o núcleo da administração, apresentador de programa de televisão, não é. Quando você volta para a RBS, aí, sim, você passar a ser, eu sou um gestor de implementação de um projeto, que você não está na frente da câmera, você não está criando conteúdo, você está é ajeitando as peças.

Ricardo: E você sabe que isso faz parte, uma parte disso, uma pílula disso faz parte do meu livro. Quando eu analiso a minha própria história louca, como você disse, porque é louca, meu Deus, esse cara era isso e agora ele era isso e sempre com sucesso, mas quando eu começo a avaliar esse processo como um todo, a curva de aprendizado… Porque quando você diz, o cara foi apresentador de programa de TV. Meu amigo, vai ser apresentador de programa de TV nos anos 80. Você tem que editar, gravar, fazer tudo junto com os operadores, porque ninguém vai fazer para você. Você tem que sair e negociar com o mercado e vender a imagem e buscar conteúdo. Olha, e não é com a facilidade de uma internet de hoje, você tinha que ralar, literalmente ralar.

Essa curva de aprendizado, de abrir portas, de negociar com grandões, como você disse, “teve um golpe de sorte”, não é só sorte, não. Você vem no peito e na coragem, alguém te indica, você senta lá, descobre qual é o nome e aí depois a questão de convencimento. Toda essa curva de aprendizado, quando eu cheguei realmente para trabalhar com gestão e administração, que aí começou a RBS etc., essa experiência…

Luciano: Dá uma base tremenda.

Ricardo: É gigantesca. Quando eu comecei a fazer gerenciamento de grupos de pessoas, aí realmente em estrutura de empresa, era como apresentar programa de televisão. Imagina, quando eu fui entrevistar Paula Toller, no auge da Paula Toller, o pessoal da produção disse assim “Ricardo, maneira nas perguntas, porque a Paula Toller é entojada, ela é chata.” Eu disse “Não, deixa ela comigo.” Imagina, um moleque. Ela é um amor, comecei a entrevistar a Paula Toller, daqui a pouco ela deu aquela empinadinha e eu falei para ela “Paula Toller, eu vou fazer um negócio aqui…” a gravação era ao vivo “…um negócio aqui que ninguém faz. Eu vou ser cara de pau. Você é bonita pra caramba, hoje à noite tem uma festa, eu estou te convidando, vamos?” Ela começou a rir e relaxou.

Eu acho que esse conjunto de experiências de lidar com pessoas difíceis… Eu entrevistei Chubby Checker. Essa experiência, essa diversidade, muito novo, muda para cá, muda de cidade, morei na Ilha Porchat, o primeiro lugar que eu vim morar em São Paulo foi na Ilha Porchat, Seven Seas, de frente para o mar. Quando você tem esse conjunto de experiências, quando eu cheguei na empresa, meu amigo, eu estava preparado. Conversar com pessoas de diferentes níveis, do cara técnico, o mais simples da operação até os gerentes, diretores que trabalhavam comigo.

Luciano: Qual era a tua função lá?

Ricardo: Eu comecei na RBS como supervisor de vendas da Globosat, nem era Globosat ainda, chamada Horizonte Sul, Horizontes, vendeu os canais Globosat, depois virou Globosat. Eu comecei com isso, logo em seguida começaram a surgir as operações de cabo. Na época nem era cabo, TV a cabo, era DisTV, distribuição de canal de TV, porque só podia distribuir, não podia ter interatividade de nada, essa legislação mudou depois.

E teve um concurso interno de um programa de trainees. Eu tinha uma equipe de 22 pessoas de vendas nessa época. E apareceram, caíram de paraquedas 5 trainees. Bonitinho, aquele modelinho de empresa, que está lá fazendo. Não, vem cá, e o meu pessoal? E eu? Eu também quero ser gerente, o que é isso? Aí nos colocaram lá em testes etc., entraram 5 da minha turma. Então foi um programa de trainee que de 5 virou programa de 10. Tinha operação a torto e direito para fazer, você imagina, eu montei 18.

Aí peguei a primeira gerência, foi Santa Maria. Fiz um trabalho fantástico. Agora, por que eu digo que foi fantástico no Santa Maria, porque em Santa Maria eu fiquei 6 meses sem nenhum empregado, sem nada e só eu e os caras montando antena parabólica, central de distribuição. Como eu não tinha o que fazer e ficava a 350km de Porto Alegre, não dava para ir todo o final de semana para Porto Alegre, eu passava os finais de semana caminhando nas ruas, olhando “Pô, esse prédio aqui é bacana. O que o projeto diz?” O projeto diz que vai começar por aquela outra rua. Aquela outra rua é ruim, então muda para cá. Eu caminhei Santa Maria inteira a pé, nesses 6 meses. Eu conhecia cada prédio, dizia assim “Esse prédio aqui tem tantos apartamentos. Ah, os caras contaram que aqui tinha 10, mas tem 8. Ali eles contaram que tinha 5, tem 20.”

Eu peguei tanta experiência fazendo isso que depois de Santa Maria eu fui transferido para Caxias do Sul e fui responsável por Caxias do Sul, Farroupilha e Bento Gonçalves. Quando eu cheguei em Bento Gonçalves, que ia ser montada a operação. Bento Gonçalves é uma panela, você chega no alto de um morro, olha a cidade e a cidade fica naquele vale lá embaixo. Eu cheguei, olhei para a cidade, disse assim, tinha um relatório que chamava homes passed, casas passadas, que dizia quantas pessoas tinha naquela cidade por onde ia passar o cabo. Lá dizia que tinha 90 mil. Eu cheguei no alto e disse “Está errado. Manda recontar.” “Você está maluco?” “Manda recontar, tem mais de 110.” Olhando para a cidade assim, parou o carro, juro para você, tenho testemunhas dessa história. “Pode mandar contar, que está errado.” E os caras recontaram, deu 120.

Dali de Santa Maria eu fui para Florianópolis, aí já como diretor. De Florianópolis, o sócio… porque eram três sócios antigamente, era RBS, Globo e Multicanal, aqui em São Paulo tinha o Multicanal, quem é de São Paulo conhece. A Multicanal me chamou, eu vim para São Paulo e comecei a cuidar de todas as operações da Multicanal Brasil, que era São Paulo, Minas, Goiás, Mato Grosso.

Luciano: Você estava envolvido numa área operacional, era isso aí?

Ricardo: Era diretor de operações. Eu cuidava de todos os negócios da operadora.

Luciano: Você não estava envolvido na parte estratégica da questão da TV a cabo? Porque eu estou perguntando para você o seguinte, era um momento em que começava um negócio novo, teve muita gente apostando forte nisso. Eu me lembro que a Editora Abril apostou de montão nisso e quebrou. Deu tudo errado. Teve muita gente que entrou…

Ricardo: A Abril apostou na tecnologia errada.

Luciano: Então, mas tinha muita gente apostando em que alguma coisa grande ia acontecer com TV a cabo no Brasil, não se sabia direito o que era ainda, só se apostava que ia ter muita coisa e muita gente entrou com muita grana nisso aí, alguns quebraram, não continuaram e no fim sobraram o quê? Dois ou três que estão aí hoje. E eu fico curioso para saber qual era essa visão, naquela época. Porque você estava atuando junto com Globo, era gente que já estava na…

Ricardo: Eu participava, até porque o negócio era novo, todo mundo que estava nas operações participava do projeto estratégico. Era feito em Lotus 1-2-3 e num business plan da Booz Allen, naquele computadorzinho telinha de fósforo, aquela verdinha matrix, era feito lá. Tanto que tem até uma coisa engraçada, quando a gente mexia nos business plan, a gente tinha algumas reuniões com a Globo, enfim, a parte estratégica, exatamente e eu fiz um cálculo lá que eu conseguia antecipar o payback em 5 anos, se eu baixasse, diminuísse o royalty.

Luciano: Se diminuísse royalty?

Ricardo: O pagamento de royalty das programações que iam ser pagas pela Globo. O interesse da Globo sempre foi vender programação. E aí a gente teve uma reunião com o CFO, com o chefe financeiro da Globo e eu apresentei todos os números e ele olhou para a minha cara e disse assim “Qual é o próximo assunto?” Eu disse “Eu acabei de te dizer que eu consigo antecipar em cinco anos o payback desse negócio.” Ele disse assim “Royalty foi feito para pagar, não para discutir. Próximo assunto.”

Digo, bom, bacana. O erro que teve no planejamento estratégico das operações foi construção de rede, se construiu rede a torto e a direito em qualquer lugar. Para você ter uma ideia, quando eu fui diretor da NET Rio, a gente mandou derrubar a rede inteira que ligava a Barra da Tijuca com a Cidade de Deus, porque só tinha pirataria. Na Rocinha tem a TV Rock, que é NET até a entrada da Rocinha, dali para a frente chama TV Rock, é o distribuidor da NET dali para cima. Foram investimentos insanos que foram feitos. Não tinha legislação para você fazer interatividade, como tem o Now hoje, para você poder fazer transmissão rede de internet, não podia. As redes foram reconstruídas várias vezes e o preço é absolutamente alto, podia ter muito mais escala. E tudo isso lá atrás não foi pensado eu diria assim em termos estratégicos. A TvA, por exemplo, quebrou porque apostou em distribuição por ar.

Luciano: Distribuição por?…

Ricardo: Por ar.

Luciano: Satélite?

Ricardo: Não, não era nem satélite, era uma anteninha pequenininha, chama MMDS. Essa tecnologia tem um monte de problema, porque ela tem que ser direcional, você tem que apontar para a antena que está transmitindo. Então numa cidade como São Paulo, que só tem prédio, era a tecnologia errada. Quando ela resolveu investir em cabo era tarde demais, porque a NET… nem era a NET, quem entrou varrendo São Paulo foi a Multicanal, depois elas se uniram e formaram uma só. Mas a maioria dos projetos foi muito mal dimensionada e muita gente quebrou porque queria fazer uma coisa megalomaníaca no momento errado. Não era isso que era para fazer, era para ser feita uma construção.

Quem ganhou dinheiro e ganha dinheiro com TV a cabo chama Carlos Slim, da Telmex, o mexicano bilionário, que ele pegou toda a encrenca que todo mundo passou, Multicanal, Globo etc., foi lá, arrebatou tudo isso e hoje tem um monte de serviço rodando em cima dessa história. Esse cara está ganhando dinheiro. A NET hoje, eu diria, pode falar o que quiser, eu conheço o pessoal lá, dizer “O Ricardo é maluco, eu vi ele lá, ele está falando uma coisa que não existe, a gente trabalha no prejuízo. Trabalha no prejuízo não.”

Então, foram feitos muitos erros e a gente participou de todo o plano estratégico, isso é bacana até porque essa época, você vê esse negócio de royalty, antecipar o payback significa que vai dar lucro cinco anos antes e aí o cara diz não, tem que pagar o royalty para a Globo. Mas vem cá, o nosso negócio é TV a cabo ou é pagar royalty para a Globo?

Luciano: Depende do ponto de vista, para o cara da Globo…

Ricardo: Para o cara da Globo, o negócio dele é conteúdo, ele queria o dele, que parece que casa bem com Brasília, esse negócio de ficar subsidiando outras coisas em prol de outros.

Luciano: Você então é funcionário de empresas, quando é que o bichinho do empreendedorismo começa a se mexer e fala chegou a hora de eu tocar meu próprio negócio?

Ricardo: Na Telemar, em 99. Ia ser privatizada a Telemar, eu saí na NET no final de 98, eu morava no Rio e estava mudando tudo para São Paulo, centralizando em São Paulo e aí eu conheci o Roberto Medina, da Artplan, e o Medina disse “Ricardo, já que você saiu da NET, você não quer fazer a intermediação para a gente? Você é um cara que conhece tecnologia, a gente tem aí a FSB, a Proteg e a Artplan fizeram um consórcio e estão atendendo a conta da recém-privatizada Telemar. Você não quer fazer?” Disse “Não quero trabalhar mais para ninguém. Eu quero um ano sabático.” Nem se usava esse termo, isso em 98. “Não, não, vem aí.” Digo “Está bom, vou trabalhar freela, você me paga no recibo” e fui ganhar mais do que eu ganhava na NET e entrei na Telemar.

Eu fiquei um mês. Um mês e a minha vida virou um inferno, porque os caras da Telemar diziam “Não, não, esse cara não vai trabalhar para vocês, esse cara vem trabalhar na Telemar.” E aí eu entrei na Telemar, a primeira coisa que eu fiz foi o lançamento do longa distância. Lembra quando começou a abrir? Antes era só 21 da Embratel que você fazia longa distância, eu fiz todo o projeto da Telemar em todos os estados para o longa distância.

Aí acabei fazendo um bom nome “esse cara é empreendedor, esse cara não sei o que”. Eu criei um projeto chamado TNext, que se ele tivesse sido levado a cabo, hoje pagava dez vezes a dívida que a Oi tem. O que esse projeto era? Era um projeto de usar redes de internet TCP IP para rodar serviços em cima. Então, a primeira universidade corporativa via internet fui eu que fiz, a primeira transmissão que você conhece hoje como Skype, a gente fez nesse projeto TNext. Eu falo eu, mas era um time de pessoas, eu era o líder desse time. GPS, a gente já tinha georeferenciado a cidade de São Paulo e Rio de Janeiro inteiras e funcionando, isso em 99, entre 99 e 2000.

Aí, como é natural nas empresas brasileiras, a Telemar disse assim “Não quero mais brincar disso, agora eu quero brincar de telefonia móvel.” Eu disse, “Também não quero mais brincar de Telemar, quero sair.” “Ah, você não sai, vai pegar diretoria do Nordeste.” “Não quero, vou sair.” Porque eu tinha montado a Universidade Corporativa Telemar para ser uma unidade de negócio, ia ser medida para banco etc. que é o tal de ensino à distância, que todo mundo conhece hoje.

Depois de negociar com eles, saí da Telemar com ela como cliente, montei uma empresa chamada Inteligens, com outros dois sócios, que ajudaram a desenvolver o projeto dentro da Telemar. Fui no Nelson Tanure, que é tido como uma das pessoas mais difíceis de ter como sócio, e eu te digo e digo em alto e bom som, foi o melhor sócio que eu já tive até hoje. Levantei um milhão e meio com Nelson Tanure, montamos a Inteligens e ali começou a brincadeira. Um ano depois a gente vendeu para a Promon o negócio inteiro.

E aí o bichinho me pegou, nunca mais consegui voltar para o mercado corporativo na condição de executivo. Até tentei um tempo depois voltar ao mercado corporativo. O mercado corporativo é o seguinte, é um trem em alta velocidade, quando você está dentro, você pode caminhar pelo vagão e ir para o primeiro, depois que você sai, você pensa em entrar no trem de novo, não tem como, o troço passa correndo e esquece, aí o caminho é empreender mesmo, ou seguir outra carreira.

Luciano: Muito bem, você decidiu então, você era um profissional na área de telecomunicações, estava um cara reconhecido, estava lá, implementador de projetos e tudo o mais e resolve que vai montar o teu próprio negócio. Você parou para dar uma estudada e falou bom, onde é que está a grana? Onde é que a grana está e o que me dá prazer? Você se deu o luxo de fazer isso aí, vou buscar aquilo que eu amo fazer e transformar isso em dinheiro?

Ricardo: Então, quando a gente saiu dessa história de sai da Telemar, monta a Inteligens, pega o Nelson Tanure como sócio, foi um pouquinho antes do estouro da bolha da internet. Significa dizer o seguinte, você montava um site, procurava um investidor, alguém queria investir nisso, porque achava que ia fazer um IPO e ficar milionário com essa história.

Então, nessa época, eu não fiz muito isso, porque primeiro eu tinha um relacionamento gigantesco, eu só tinha uma empresa do tamanho da Telemar, recém-privatizada, com um faturamento monstruoso e todo mundo me conhecia. Para você ter uma ideia, no projeto que a gente fez da TNext, eu negociei com a Intel, a Intel deu 100 mil modens que nunca foram usados, daqueles DSL256, para trafegar internet em alta velocidade, na época, incomodado com a Telemar, só pelo tamanho do projeto que a gente estava fazendo. Então eu tinha muito relacionamento.

Luciano: Que nunca foram usados?

Ricardo: Nunca foram usados. Na verdade, nunca saíram nem do estoque da Intel nos Estados Unidos, mas eu tenho o acordo assinado até hoje. A gente poderia ter feito uma revolução digital nos anos 2000 no Brasil, poderia ter uma Silicon Valley aqui. Não teve, porque a mentalidade brasileira é essa que a gente conhece.

Mas, respondendo a sua pergunta, nesse momento eu não fiz nada. Depois que eu vendi a Inteligens, eu fiz alguns investimentos, tive uma das primeiras agências digitais, de marketing digital, que cuidava da conta da Wella, de cabelo. Na época era uma empresa brasileira da Belcosa com a Alemanha, aí depois foi vendida para a Procter Gamble, mas por cinco anos eu fui agência deles exclusivo, só trabalhava para eles. Quando deixei de trabalhar, aí eu fiz isso, agora respondendo a tua pergunta, eu fiz isso, eu parei tudo, tudo.

Luciano: Em que ano foi?

Ricardo: 2004.

Luciano: Em 2004, você tinha 40 anos de idade?

Ricardo: É. Parei tudo, disse vou para os Estados Unidos, porque eu amo os Estados Unidos, já morei em Miami, tinha morado em Filadélfia, na época de executivo e fui para Nova Iorque.

Luciano: Espere aí. Paro tudo e vou mudar para os Estados Unidos, bom, eu tenho que ter muita grana guardada para me bancar, ou tinha que ter um projeto me aguardando lá.

Ricardo: Eu tinha vendido a Inteligens, embora tenha dado problema depois, não recebemos tudo o que tinha a receber, mas estava bem capitalizado, na época. E fui para Nova Iorque.

Luciano: Aí dá o sabático mesmo, porque com dinheiro no banco e tudo.

Ricardo: É o que eu digo, quando eu fico, a gente está aí nesse calor político, que está agora a onda do “ele não”, falando do Bolsonaro, é muito fácil falar “ele não”, quando você tem, que nem a Sasha, mora na propriedade da mãe e tem pensão vitalícia, “ele não” você fala, se virar uma Venezuela, o problema é de vocês, eu estou aqui, quieta no meu canto. Mas enfim, sem entrar no detalhe político, mudei para Nova Iorque, acabei trabalhando lá, montei um negócio lá, uma empresa. É inacreditável, em dois dias você monta uma empresa.

Luciano: Sem visa, cara?

Ricardo: Não precisa. Se você for para os Estados Unidos agora, procurar um CPA, um contador, se tiver dinheiro no banco, se você quiser abrir uma empresa, você abre. O que o CPA faz, ele abre como teu sócio, dois dias depois ele renuncia, fica só você e você tem uma empresa montada em Nova Iorque em dois dias. É a coisa mais fácil do mundo, aí você recebe uma pasta linda com as ações. A pastinha que você recebe em dois dias tem lá as ações, se você quiser virar sócio, eu assino 50 ações para você e você virou meu sócio. Não precisa entrar em lugar nenhum, aquele é teu documento.

Luciano: Aí a gente começa a entender, aí dá para entender o como e o porquê as coisas são como são.

Ricardo: Surreal. Você vai no banco, aí você diz, “Ah, mas você não pode ter conta em banco”, quem disse? Bota dinheiro lá que você abre, você não vai ter é cartão de crédito se não tiver lá o Social Security, mas vai ter o teu cartão de débito, tua conta bancária, teu talão de cheques, vai ter tudo igual.

Luciano: Você sabe que num programa anterior aqui eu fiz um programa quando eu falei da Bélgica, de uma experiência que eu tive com um pessoal da Bélgica, encontrei os belgas em Santa Catarina, eles estavam lá fazendo uma visitação para os empreendedores de Santa Catarina. Eles chegavam com uma proposta que era o seguinte, o que você faz? Eu fabrico copo. Quanto custa fazer teu copo? O copo custa 20 centavos. E você vende por quanto o copo? Eu vendo por 1 real e ganho 80 centavos em cada copo. Perfeitamente, quantas pessoas tem na tua empresa? Eu tenho aqui 80 funcionários. Legal. A proposta é a seguinte, está aqui um mapa da Bélgica, tem essa região aqui, escolhe onde você quer ficar, a gente te chama, você vai para lá, monta a tua empresa, fecha aqui, leva a empresa para lá, monta lá. Você não vai pagar imposto, nós te garantimos que você vai ganhar os mesmo 80 centavos que você ganha aqui, você ganha garantido lá e leva para lá.

Eu virei para os caras, falei, que vantagem, o que vocês querem? E eles, emprego, a gente quer emprego, nós queremos empregos na nossa região. Eu estou falando isso para você porque quando você traz essa discussão para o Brasil, eu me lembro do Rio Grande do Sul, quando lá o bigodudo tira a Ford, bota a Ford para fora de Gravataí, com uma discussão ideológica pavorosa. E lá os caras olhando o seguinte, me traga empregos, por favor, depois a gente resolve a questão de imposto e tudo o mais, te dou tudo o que você quiser, mas me bote pessoas empregadas aqui. Aí você começa a girar hora e depois os caras vão resolver lá na frente. Aqui no Brasil foi o contrário, eu não quero, não venha, porque vocês estão levando o dinheiro embora daqui, esqueça o emprego, esqueça tudo.

Ricardo: É uma mentalidade pré-histórica. Brasileiro tem mentalidade pré-histórica. Então, você vé, você vai para Nova Iorque, você consegue montar um negócio, acabei ajudando lá um grupo de brasileiros e americanos que fundaram um associação que se chama até hoje BTOA, que é Brazilian Tour Operators, que só vendem o Brasil para os Estados Unidos, esse é o papel deles.

Luciano: Não tem nada a ver com o governo?

Ricardo: Nada a ver, são 27 empresas ligadas ao setor de turismo, que decidiram vender Brasil como destino. E aí acabei trabalhando com isso, fiz um curso de extensão no Jack Welch Institute, na Strayer University, na Pensilvânia. E aí, voltando lá na tua pergunta, se alguém ainda lembra, mas a pergunta era você não estudou, não planejou. Eu comecei a analisar toda a minha carreira, desde televisão, o que eu fiz como executivo, como eu geri as empresas. Eu nunca na minha vida, nenhuma empresa que eu toquei, exceto as minhas próprias, porque empreender é essa dificuldade, eu dei um resultado negativo, sempre positivo e em velocidade recorde.

E aí comecei a estruturar isso, o que eu fazia? Lá nos Estados Unidos, o que eu fazia? Foi aí que eu comecei a escrever o livro, que se chama Celex, que é uma abreviatura de Células de Excelência, onde eu acabei mapeando o método que eu mesmo fazia e descobri assim, nossa, era isso o que eu fazia para as empresas darem certo. Essa é a bagagem da minha vida, de aprendizado. eu descobri coisas óbvias, trabalho em equipe faz as empresas funcionar, mas tem alguns segredinhos. Como é que você faz uma equipe performar? Dizer que nós trabalhamos em equipe é muito fácil, mas tem todo um segredo para fazer performar.

Luciano: Vai, dá os pitacos aí, cara.

Ricardo: Você não vai sair ileso daqui, não [risos]. Então vamos lá, trabalho em equipe, parte do princípio de colaboração, trazer todos à mesa. Mas quando você traz todo mundo para a mesa, os bichinhos começam a surgir. Eu digo que dentro de mercado corporativo se existe uma praga é um Gremlin, você joga uma gota de água, nascem cinco monstrinhos, porque aí vem o ego, vem um conjunto de coisas que são muito presentes no mercado corporativo, mas quando você fala de trabalho em equipe tem um elemento essencial. Primeiro, elimina o líder. Âhn? Tudo tem que ter líder… Acaba com o líder, o líder é o job, é a tarefa.

Você bota lá, tem que vir aqui no podcast, não interessa se eu sou o Ricardo, se você é o Luciano ou não sei o que, o que tem que sair é a perfeição do trabalho, esse é o líder. Na hora em que eu começo a me sobressair sobre você, ou você se sobressair sobre mim, acaba, não existe trabalho em equipe. Então, eu descobri isso com uma certa vivência, sofrendo muito com as equipes. Acabe com o líder.

Luciano: Quer dizer, você não está acabando com a hierarquia, você está acabando com a figura do manda-chuva.

Ricardo: Exatamente, sempre floresce alguém que tem ou mais eloquência, ou mais conhecimento, ou até o próprio cargo, a hierarquia. Sempre aparece. Quando você elimina essa figura de pressão, ou de influência, eu diria até mais de influência sobre o grupo, o grupo começa a trabalhar melhor.

Luciano: Então, você não está se referindo àquela liderança natural, da pessoa que naturalmente tem uma ascendência sobre os demais. Não, é aquele que é o líder porque alguém pegou o organograma, botou uma caixinha e falou o Zé está aqui.

Ricardo: Isso não é líder, isso é chefe.

Luciano: Aquele cara que, naturalmente, bicho, vamos fazer, ele assume e acaba, naturalmente…

Ricardo: Pois é, então, existe o líder natural, que é aquele cara que tem o dom de aglutinar outas pessoas em prol de alguma coisa. O outro, que é de organograma, é chefe, o que mais tem por aí são chefes. Mas mesmo esse líder natural e eu vou explicar porque, na modelagem que eu desenvolvi de Celex, eu tiro essa liderança e deixo no job. Por que eu tiro essa liderança? Porque mais de 90% da solução dos problemas que as empresas têm estão dentro da própria empresa. É aquilo que a gente chama de conhecimento tácito, que está na cabeça das pessoas, está na experiência do cara que apertou o parafuso na máquina, está na experiência do cara que passou a vida inteira visitando consultório médico e conversando com médicos e sabe o momento exato para tratar um determinado assunto, ou seja, para qualquer segmento, está na cabeça das pessoas.

Quando você traz as pessoas para trabalhar em time e começam a aparecer até as lideranças boas e naturais, que é o líder nato etc., as pessoas que têm esse conhecimento tendem a ficar mais tímidas. Só que dentro da cabecinha dela está o parafuso que tem que apertar. Tem até aquela piadinha do cara que conserta o navio, dá uma martelada e cobra um dinheirão…

Luciano: Não cobrei para dar a martelada.

Ricardo: É, eu cobrei por saber aonde tinha que dar a martelada. É exatamente isso. E eu descobri que se você percorrer… assim, descobri, na verdade, eu acho que o primeiro cara que fez design thinking no Brasil fui eu, em 1993, eu nem sabia que era design thinking, mas fiz. Se você percorrer sete passos partindo de quais áreas envolve, que é um conceito de visão sistêmica e você leva isso para o time, com os sintomas daquilo que eles estão acusando, porque a maioria dos problemas da empresa eu chamo de sintomáticos, são totalmente sintomáticos.

Você fala aquilo que está sentindo, é mais ou menos como estou com dor de cabeça, mas não sabe se é um aneurisma ou se é porque está sem almoçar, você não sabe a causa. Quando você primeiro trabalha os sintomas e leva as pessoas a descobrir por que isso acontece e aí a experiência das pessoas tem muita valia. “Não, isso não acontece porque aquele cara lá não faz o trabalho dele.” Ele sabe apontar aonde está o problema. “Não, mas esse processo está errado.” “Bom, está errado, aquele cara está fazendo errado.” “Por que você não fez nada antes?” “Porque esse é o trabalho dele.” Quando você coloca essas pessoas juntas, identificando as causas e você começa a identificar as áreas que envolvem a causa que você quer solucionar, você já começa a fazer as pessoas olharem de forma sistêmica, elas começam a olhar a empresa como um todo.

Então diz se lá é área de produção, não é a minha área e a gente está resolvendo esse problema, que é um problema sério, o que eu preciso fazer? Chamar o cara. Chama o cara que trabalha lá, bota o cara no time. Por isso é que não tem que ter liderança, porque quando você bota liderança, acaba virando ‘o meu time é que vai resolver aquele problema e a gente vai fazer sucesso para caramba’. Não é esse o conceito. O conceito é você trabalhar um modelo colaborativo. Eu descobri isso, percorrendo sete passos você consegue fazer isso. O penúltimo passo é avaliação de processos.

Luciano: Você lembra os sete passos?

Ricardo: Lembro.

Luciano: Fala rapidamente.

Ricardo: O primeiro passo que você dá é avaliação de áreas. O segundo passo você faz uma série de validações, de fato isso tem que ser tratado, eu tenho autonomia para tratar isso, se eu não tenho autonomia, a quem eu devo buscar etc. O terceiro passo você trabalha a questão de sponsors, que eu chamo de sponsors, que é buscar quem são os nossos parceiros internos, quem são os nossos parceiros externos, quem pode nos patrocinar nessa história, que é a parte da influência. O quarto passo é a parte de comunicação, como eu me comunico com essas pessoas, como as pessoas se comunicam com esse problema, como sabem desse problema. Uma analogia do nosso dia a dia, eu leio no Facebook, eu vejo jornal, então trabalha a parte de comunicação.

O próximo passo é como eu vou me comunicar com essas pessoas, quais são os meios. É o jornal da empresa, é o painel de corredor, é intranet, é grupo de WhatsApp etc. O sexto passo é processos, na verdade, o sétimo, porque tem uma célula no centro. O sétimo passo são processos e a gente trabalha com as pessoas da seguinte forma, todo mundo analisa processo, onde ele começa, onde ele termina. A gente não trabalha assim, a gente trabalha com processo que antecede, onde ele começa, onde ele termina, o processo em si, que está sendo tratado e a consequência no processo que ele tem posterior a ele. Porque muitas vezes você conserta o meio, mas quando vem errado, vai continuar errando. Ou, se você altera esse meio, quando chega no processo seguinte erra, ou o processo seguinte está errado. E aí, nessa fase as pessoas trabalham com a conceituação de elimina, cria, ou melhora.

Quando elas avaliam tudo isso, elas chegam a uma solução completa, totalmente plausível. Agora, a parte interessante é o seguinte, consigo fazer isso com qualquer time, em qualquer empresa. Qualquer uma, eu desafio aqui no ar qualquer empresa num workshop de quatro horas. Pode botar lá do faxineiro ao presidente de qualquer empresa, trazer um problema real, que eu chamo de cenário. Aí depois a gente vai contextualizar, passar por esse método em quatro horas. Eu já ministrei esse workshop para centenas de grupos, milhares de pessoas, nunca deu errado.

Luciano: Você sabe que eu tenho feito também, eu tenho um workshop que eu faço sobre inovação, eu tenho uma palestra chamada A Fórmula da Inovação, que eu criei um roteirinho e montei o workshop em cima disso aí, onde eu sento com os meus clientes e falo o seguinte, vamos fazer workshop de duas, quatro, seis horas, o tempo que vocês tiverem disponível. A gente vai fazer o workshop e nós vamos botar o pessoal lá para trazer o problema, jogar na mesa, aplicar a fórmula, os grupos vão discutir entre si, são grupos multidisciplinares e no final cada grupo vai apresentar o seu ponto.

Ali nós vamos fazer o fechamento e eu não estou interessado no resultado do workshop, se vai resolver o problema ou não, não me interessa, eu estou preocupado com a discussão. Então a grande riqueza desse workshop são as seis horas de discussão. Se no final sai o resultado e resolveu o problema, então vai ser uma maravilha, mas eu garanto para você o seguinte, mesmo que o resultado não tenha saído, você vai ter um time diferente no final. Porque proporcionar esse processo de discussão é o que a gente não consegue fazer nas empresas. Eu vi que você estava falando dos seus passos, aí fica claro para mim que se eu não sei da onde veio a coisa, eu não vou conseguir resolver o problema aqui de forma que eu dê continuidade. De onde veio, quando você sabe o contexto de onde veio, muda tudo.

Vamos dar um exemplo do que aconteceu anteontem. Eu estou distribuindo o cafezinho, o podcast pequenininho, pelo WhatsApp. Então, nós montamos o projeto, aí comecei a distribuir, falei, vou ver o que acontece com o podcast por WhatsApp. É fascinante, porque todo mundo, todas as tias têm WhatsApp, então bota o podcast, maravilhoso, começou a ir crescendo, quatro mil assinantes. De repente o WhatsApp vem e muda a política, por causa das fake news e a partir de então só grupos de 20 podem receber o teu áudio. Então, para mandar 4 mil, eu tenho que fazer 200 disparos de 20, na mão. Isso é impossível, não dá para fazer.

Aí tentamos arrumar esqueminhas, fiz um rolo qualquer aí, me encheu tanto o saco que anteontem eu cheguei e falei, para com essa merda, não vou fazer mais, dane-se, vou continuar distribuindo podcast como eu sempre fiz, dane-se o WhatsApp. Quando eu disse isso, veio um monte de gente com propostas, faz aqui e dez caras “Vai para o Telegram.” Aí eu anuncio para todo mundo a estratégia, o que vem antes. Espera um pouquinho, eu não contei para você, vou contar agora aqui. Esse conceito do WhatsApp nasce para eu usar uma plataforma existente e eu quero usar um caminho que a minha tia está usando. Eu não quero falar para a minha tia para instalar um novo aplicativo no caminho dela. Eu não quero que ela tenha que aprender o Telegram. Eu quero que ela use o mesmo WhatsApp que ela usa hoje para apertar um botaozinho e ouvir meu programa, entendeu?

Essa é a pegada estratégica. Quando você vem com uma solução para mim que é para eu mudar, dançou. Então se as pessoas não sabem dessa pegada anterior, elas vão me trazer soluções e aí você vai ouvir de novo o cara dizer tudo aquilo que você já sabia dez anos atrás, por quê? Porque eles desconhecem a base, qual é a estratégia lá por trás.

Ricardo: Tanto que a ilustração que eu tenho na apresentação, quem quer conhecer Celex, é um iceberg e aí eu mostro na camada de sintomas: estou vendendo, a empresa está falindo. Isso é só… na verdade, eu nem chamo de sintoma isso, isso é a camada de efeito, que é a parte que está para fora. O sintomático é: as vendas estão ruins, a minha equipe não se engaja, que é aquela coisa mais conceitual, isso é que eu chamo de sintomas, que está na camada do meio do iceberg. Eu trabalho lá embaixo, na causa.

O que é que tem na causa? Chefe ruim, o cara está lá, não tem um programa de desenvolvimento, não tem budget, então não adianta pedir aos caras para fazerem mais com o mesmo dinheiro, com o mesmo orçamento. Os caras vão fazer o quê? Escrever na testa “compre meu produto” e vão sair na rua, na esperança de que alguém leia aquilo lá? Então a gente trabalha na causa. Você sabe que é interessante essa história, por isso eu falei anteriormente, bacana até ilustrar isso, que em 93 eu devo ter sido o primeiro cara que fez uma sessão de design thinking no pais, sem saber. Eu acho que no mundo, talvez.

Porque quando eu cheguei em Caxias do Sul, lembra que eu estava contando a história, era uma operação comprada de um desses caras que montou, era uma operação local. Quando eu cheguei lá, imagina o circo dos horrores. Era a coisa mais terrível que eu já tinha visto na minha vida em termos de gestão, até hoje eu digo isso. Era mais fácil trabalhar na Telemar com 22 mil funcionários, do que aquela Multicanal Caxias lá do Sul com 120. Todo mundo falava mal de todo mundo, era problema para todo lado, era uma coisa terrível. Quando eu terminei o primeiro dia que eu cheguei lá, a dor de cabeça era tamanha, eu não sabia o que fazer. Literalmente, eu assumo isso, eu não sabia o que fazer.

Aí, como tem todo esse lado aí da nossa conversa que você viu, nossa, mas você fez isso, fez aquilo e não sei o que. Eu passei numa livraria, comprei cartolinas, porque eu gosto de desenhar, sempre gostei de desenhar. Comprei cartolinas e lotei as paredes do quarto do hotel com cartolina, só ficou livre a parede que dava para o banheiro. E aí eu botei assim, esse cara falou isso, ele era da área tal, esse cara contou que tinha um problema tal e fui desenhando e desenhei. Eu não dormi aquela noite, no outro dia de manhã a camareira entrou, ela abriu uns olhos, estalou uns olhos, parecia um quarto de louco. Sabe aquele negócio, eu sempre gostei de filme de investigação, FBI, que vai lá, não sei o que, eu acho bacana esse negócio. E eu fiz aquilo.

Naquele dia eu cheguei para o pessoal e disse assim você, você… que era a história do interdisciplinar hoje, muito fácil de entender. “Vocês estão falando que não fazem. Está aqui na mesa, está aqui o problema, 30 dias para resolver. Se virem.” Foi assim, foi literalmente assim, montei uns 5, 6 times. Bom, para encurtar a história, a gente começou a funcionar, teve seus entraves, aí entra a questão do líder ser um facilitador, de apaziguar onde está pegando fogo, de perceber que tem alguém influenciando demais e “sai desse time e vem para esse”. Aí entra a figura.

Eu digo que fazer gestão é um bolero de Ravel, são 8 compassos exatamente iguais em velocidades diferentes e o bom gestor é aquele que sabe fazer com maestria a regência disso. E aí a gente botou isso funcionando. Em 7 meses a gente saiu… na época tinha 17 operadoras de cabo administradas pela RBS, portanto a gente era o último lugar. A gente saiu em 7 meses de último lugar para primeiro. Na época a RBS fez um programa baseado num livro do Peter Senge, a Quinta Disciplina, de learning e organization. Tinha uns 5 prêmios, nós ganhamos 4.

Luciano: Em que ano foi isso?

Ricardo: 94. Nós ganhamos 4 desses prêmios.

Luciano: Quem era? Era o Pedro Parente que estava lá na RBS?

Ricardo: Estava lá. Nessa época, o Maurício tinha acabado de falecer, o Nelson Sirotsky tinha acabado de assumir. Estava ali a família, quem cuidava do negócio da RBS era o Marcelo Sirotsky, que é filho do Jayme. Ele nem está mais hoje. Hoje ele cuida dos negócios da família.

Mas a gente montou isso, em 7 meses a gente deu lucro, a gente reconstruiu a rede e por isso que eu vim parar em São Paulo. Quando a Multicanal viu, a gente fez um negócio muito legal, você ia amar, nosso tempo já deve estar estourando, mas você ia amar. Como não tinha dinheiro, eu montei em Caxias do Sul, para me relacionar, porque se relacionar com o pessoal italiano é difícil. E eu precisava nem era relacionar, precisava ganhar a confiança, porque o outro cara fez muita besteira, o cara que era o dono anterior.

Eu montei o Clube do Assinante Jr. Qual era a ideia? O que tinha atrás do Clube do Assinante Jr? Eu não tenho dinheiro, mas eu tenho canal, eu tenho cartoon. O que eu vou fazer, se existe algo mais precioso com uma comunidade dessas, que é muito familiar, é filho. Então, montei o Clube do Assinante Jr, que era um clube de 0 a 12 anos. Eu disse, eu limito a quantidade de interação. Para uma cidade pequena, Caxias não é tão pequena, é uma cidade de 500 mil, 550 mil habitantes, mas eu preciso ter interação com todo mundo, eu vou sair batendo nas portas, dizer, “olha, você quer dar desconto aqui, para fazer parte do clubinho?” E eu fui o criador do que tem hoje aí, em alguns lugares se chama canal 20, aí depois deixou de ser canal 20, que é o canal dedicado às produtoras locais. Lá eu criei o canal 20.

 

Eu tenho canal de TV, a rede é minha, eu vou criar um canal. Chama os produtores independentes todos aqui. O canal é seu, o que eu quero em troca? Pode botar programação aí, eu quero ver a programação antes, ver a grade, quero que você cubra o Clube do Assinante Jr. Nos eventos? Não, eu quero que você vá lá na casa do menino que está fazendo aniversário, que é filho do assinante e grave ele. E comecei a botar o assinante na TV. Inverti a lógica. Foi um sucesso estrondoso, quando a Multicanal viu o resultado, que eu era daqui de São Paulo… O cara saiu do último para primeiro em 7 meses, monta um Clube do Assinante que explodiu, faz um canal local que está dando até receita. Traz esse cara para cá. E como era sócio da RBS, não podia roubar funcionário um do outro… Tem um bastidor, hoje em dia eu conto essa história, tem um bastidor assim “pede demissão lá, no outro dia você está no Rio, mas eu não posso te convidar.”

Luciano: Você falou um negócio interessante, que parece que é contramão do que está acontecendo hoje, porque você valoriza a produção da região, com isso conquista todo mundo, porque eu estou aqui falando do meu vizinho, vendo meu vizinho. E nós estamos na contramão, porque as redes detonaram tudo isso aí e você só tem programação… paradinha no fragmento do telejornal do meio-dia que entra a programação regional e depois parece que não tem mais nada.

Ricardo: Você sabe que lá em Porto Alegre, em particular, o movimento que… deu uma esvaziada, mas a TV COM começou uma onda boa e agora não lembro o nome, mas foi criado um canal local que só trata de coisas da região. E aí, de toda essa vivência, se apropriar dessa teoria eu acho um tanto ousado. Como eu estudo muito civilizações, estudo filosofia, eu adoro gente, tenho paixão por pessoas e gosto de comportamento, é o que mais me atrai. Esse negócio agora de eleição, Facebook, um metendo o pau, eu sou sim, eu sou não, cara, me divirto com isso, eu aprendo muito. Então, se você pegar a história humana, o ser humano, por característica básica vai, infla, infla, quando não está suportando mais, ele não estoura, ele retrai. Você tem, a história da humanidade é feita disso

Luciano: Fecha no seu grupo e aí cria um conflito gigantesco em volta.

Ricardo: Se você for olhar o que aconteceu com Revolução Francesa, mais recentemente, o movimento Trump na América, Brexit, você pega todos os movimentos, está todo mundo de saco cheio. Mas não é de saco cheio só da política, ou da forma com que se deu a política. As pessoas não aguentam, chega uma hora que o ser humano não aguenta lidar com muita diversidade, a cabeça dele começa a pirar. Quando isso acontece, qual é a tendência?

Luciano: Eu vou para a minha tribo.

Ricardo: Exato, ele se torna aquilo que a gente compreende ou pensa compreender, que é o conservador. Por quê? Porque ele consegue lidar com aquele mundo. Então, o mundo está em deflação nesse sentido, ele está se retraindo de novo, de uma expansão que teve em termo de comportamento. Quando a gente pega essa questão de comportamento, traz para essa história que a gente vinha falando sobre TV, da regionalização, não sei o que, é uma tendência. E eu não me sinto errado nisso e eu já vinha cantando essa pedra há muito tempo.

O que aconteceu, você tinha exatamente mercados regionais, quitanda da esquina, não sei o que, enfim, N negócios, você tinha mercados regionais que viraram estaduais, que viraram nacionais, aí veio a globalização. O que está acontecendo agora? Por que os Estados Unidos estão se fechando? Porque estão saindo quase que de um processo… ainda vão existir mercados internacionais, é óbvio, mas aquela máquina do mercado interno, que é a história que a gente falava de gerar emprego, o que eu quero é ter emprego para dar para as pessoas. Se as pessoas estiverem empregadas, a lógica americana, a economia americana é muito simples, bota dinheiro no bolso das pessoas que vivem neste país, elas precisam comer, se vestir, passear…

Luciano: E a roda gira.

Ricardo: E a roda gira.

Luciano: Sabe que a Austrália tem um negócio muito interessante. Os caras mandaram para mim lá que eles têm um selo made in Australia que vai aplicado em todos os produtos. Então, você chega no mercado, compra fruta, tem lá um monte de frutas, algumas têm selo made in Australia e tem aquele lance, cara, se eu tiver que escolher entre qual eu vou comprar, eu vou comprar o made in Australia, não me importa que seja um pouco mais caro, porque eu tenho a consciência de que mesmo pagando um pouquinho a mais, eu estou incentivando que a roda da Austrália gire mais.

Ricardo: E esse é um outro problema, assim muito importante que você estava falando, que esse é um outro problema cultural brasileiro. O que é feito fora é legal, o que é feito aqui não é bom. É surreal o quanto isso é uma verdade. Para quem empreende então, você construir uma marca, ou trazer uma marca de fora, que pode nem ser grande, mas é de fora, até em empresa grande cola. É surreal como isso tem valor.

Então essa questão dos mercados locais, eu imagino, na verdade, eu estudei isso, estudei duas coisas, envelhecimento e esse comportamento mercadológico humano. Já está se retraindo e a gente observa isso no mundo inteiro, não só nos países, mas vindo aqui para uma realidade muito nossa, o que aconteceu com os hipermercados? Carrefour, Pão de Açúcar, Extra, está tudo virando lojinha de bairro. O que era antigamente? Loja de bairro, lojas menores, menos estoque, menos custo de funcionários etc., mas está começando a se regionalizar, começando a se clusterizar.

Luciano: E acho que o mais importante é voltar aquele conceito onde você deixa de ser um número, você, como consumidor, não é mais um número, você é… Eu tenho nome, eu conheço a pessoa, eu falo com ela, isso é que a gente acabou meio que perdendo e que parece que começa a voltar.

Ricardo: Exato. Agora, onde perdeu isso? Ou o que colaborou para isso de uma forma muito veloz, muito agressiva? Internet, rede social em particular. As redes sociais acabaram com tudo isso, então as pessoas não se conhecem mais, não têm mais o prazer de estar fazendo o que a gente essa fazendo aqui, que é conversar, se conhecer, dizer pô, esse cara tem uma história, olha que bacana, esse cara pensa isso. A gente vive uma geração Twitter, são todos 144 caracteres.

Luciano: É fragmentado. A opinião que eu tenho sobre você é absolutamente fragmentada, foi um fragmento de informação que eu li e eu vou descer o pau em você por um tweet de 140 caracteres. Cara, não sei tua história e vou ter minha opinião sobre você sobre aquilo que está colocado lá.

Ricardo: Este assunto me faz sempre lembrar o Cidade de Deus.

Luciano: O filme?

Ricardo: O filme. Lembra quando os dois moleques foram assaltar o cara que estava num fusca, aí disse “pô, mas o cara é legal pra caralho”, eles falavam isso o tempo inteiro e acabam não assaltando o cara. Por quê? Porque eles interagiram com o cara, eles ficaram com pena, eles não eram bandidos os dois.

Luciano: É, e com isso o clima que nós criamos aqui agora, acabou, basta eu falar Bolsonaro e eu arrumei… Ontem eu botei um post no Face mostrando uma frase do Bolsonaro que foi manipulada. O Bolsonaro chega na entrevista e diz o seguinte, os portugueses nem punham o pé na África e vai para todo lugar dizendo que Bolsonaro disse que os portugueses JAMAIS botaram o pé na África.

Ricardo: É, e nunca escravizaram ninguém.

Luciano: E eu digo o seguinte, não, ele não falou que JAMAIS colocaram, ele disse nem punham e é diferente. Luciano NUNCA foi ao cinema / Luciano nem ia ao cinema, é totalmente diferente. E com isso você, cara, quando eu botei isso no ar, já tem nego lá, não vou te seguir mais, porque você está passando pano no Bolsonaro. Falo, não, cara, esqueça o conteúdo, eu estou discutindo interpretação de texto. Tira o Bolsonaro e bota Masterchef ali que vale igual. Mas ninguém está disposto a isso, está disposto ao seguinte, o cara falou, agora vou botar o rótulo nele e vou tomar minhas decisões. Meu amigo, explodimos o nosso time aqui, me dá uma dica rapidamente o que você está fazendo hoje. Você está empreendendo?

Ricardo: Hoje eu tenho dois negócios, eu tenho um que chama Exponenciais, que é uma empresa focada em educação corporativa, mas com cursos presenciais, um modelo mais antigo, mas que funciona, é necessário. E tenho uma empresa chamada BI Creations e o BI todo mundo pergunta, o que é BI? É Business Intelligence Creation, que não é só manipulação de dados, é exatamente o que o nome diz, que lida com tecnologia voltada também à educação e produtividade, com Celex etc. E eu acabei de trazer para o Brasil uma empresa que se chama SmartUp, que é da Inglaterra, que a gente está avançando no que é a nova onda do conceito mundial, que é microlearning, aprendizado rápido via mobile.

Luciano: É, ele mostrou para mim, é fascinante. Vocês imaginem um fórum de debates absolutamente inteligente, onde você não só entra para debater, como entra para gerar conteúdo, para absorver conteúdo. É muito legal, eu vou até querer ver com mais calma isso aqui. Quem quiser te encontrar e saber das tuas coisas, me dá o caminho.

Ricardo: Então, o site da empresa, bi2.com.br. Eu tenho um blog pessoal, que é Ricardo Abiz.com.

Luciano: O Abiz tem z no final. A-B-I-Z.

Ricardo: E esse blog aonde eu faço os meus devaneios, escrevo meus artigos, em mau português, em bom português, mas é bacana e rede social.

Luciano: Legal. Grande Ricardo. Dá para a gente continuar aqui e ir longe, cara, mas também esgota a paciência do ouvinte. Eu já fiz aqui, tem pessoas que já vieram duas vezes. A pessoa vem, depois volta na frente, a gente retoma e continua. Obrigado pela visita. Muito legal.

Ricardo: Obrigado. Foi um prazer, foi muito legal.

Luciano: É muito rica essa história tua e eu vou querer ficar mais pertinho para saber mais detalhes.

Ricardo: E a gente ainda pode trocar muita figurinha.

Luciano: Vamos, sim.

Ricardo: E eu vi também, conheci hoje um pouco mais do teu trabalho, o que reforça o que a gente acabou de dizer, interagir, visitar você aqui, olhar a tua sala me encantou mais do que estar sentado aqui conversando [risos].

Luciano: Grande abraço, cara.

Ricardo: Abraço. Obrigado.

Luciano: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no LíderCast.com.br. Para ter acesso a esta temporada completa, assine o Café Brasil Premium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos, além de ter acesso ao Grupo Café Brasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LíderCast, que discutem em alto nível temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos. Lembre-se, Café Brasil Premium.com.br.

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