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Luciano Pires -
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Luciano Pires: Muito bem, mais um LíderCast, outro daqueles em que eu recebo um convidado indicado por um ouvinte, no caso aqui foi o Alex Mansur que me mandou uma mensagem: conheço um cara interessante e acho que você vai gostar de conversar com ele. Eu falei: vamos nessa. Vamos seguir as indicações aqui. É um ouvinte do Café Brasil. É um ouvinte do LíderCast de longa data. Veio me falar que ele me conheceu numa entrevista do Jô Soares. O que significa 2004, são 14 anos. Isso é quase uma vida. Então você já sabe que só tem três perguntas fundamentais, que você não pode errar aqui, que são: seu nome, sua idade e o que você faz?

Doug Alvoroçado: São as três que eu vou errar. Vamos lá, meu nome é Douglas Neves. Mas eu não atendo por Douglas Neves. Não conheço essa pessoa. Essa pessoa morreu, foi enterrada. Eu atendo por Doug Alvoroçado, que é o nome que todo mundo conhece. Eu tenho 36 anos, mas já fiz 30 seis vezes. Então é por aí. E eu sou professor, sou intérprete de LIBRAS, sou um monte de coisas na vida. Sei lá, é difícil falar o que a gente faz. Mas assim, resumindo muito: eu sou professor.

Luciano Pires: Você é daqueles que como eu, quando alguém pergunta o que você faz, você responde: você tem tempo?

Doug Alvoroçado: É. Eu faço bastante coisa. Inclusive dou aula, inclusive tenho família. Que aí é uma coisa a mais.

Luciano Pires: Sim. Doug Alvoroçado.

Doug Alvoroçado: Alvoroçado.

Luciano Pires: Eu estava tentando entender se o Alvoroçado era nome de família e tudo mais. Eu falei: qual é a origem disso? Agora eu estou entendendo que é um adjetivo?

Doug Alvoroçado: Sim. É uma história. Resumindo, vou resumir bastante: é uma experiência meio espiritual minha, assim, numa conexão que eu tive com Deus, assim, num dia bem doido. E aí eu recebi esse nome numa experiência espiritual. E adotei. Porque eu já me via assim, só não tinha o nome. Agora eu sou Doug Alvoroçado, assino como Doug Alvoroçado, publico como Doug Alvoroçado, currículo, identidade, documentação. E é isso.

Luciano Pires: Você se sente confortável em detalhar um pouco mais essa experiência que você teve?

Doug Alvoroçado: Não, foi tranquilo. Um dia, eu estava numa cerimônia religiosa, num culto de uma igreja evangélica. Estava pregando um apóstolo chamado Gustavo que, se eu não me engano, é de Manaus.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Doug Alvoroçado: Eu tinha sei lá, 20, 19.

Luciano Pires: E onde que isso acontecia?

Doug Alvoroçado: Isso lá em Inhaúma, lá no Engenho da Rainha, lá no Rio de Janeiro. Lá na igreja em que eu fazia parte na época, que era Oceano. E aí lá, o cara estava falando sobre Atos, 17:6, que é uma passagem que diz que: esses que tem alvoroçado o mundo tem chegado até nós. E aquela palavra falava de pessoas que incomodavam os outros. Mas não incomodavam porque eram chatas. Incomodavam porque faziam diferente, porque traziam ideias novas. Incomodavam porque queriam melhorar, não sei o quê. E eu já me via assim. E eu, naquele momento, eu fechei os meus olhos e falei, eu fui me conectar lá com o alto e falei: cara, eu sou essa pessoa? E aí eu entrei num transe meio doido, que eu não sei explicar. E Deus me chamou por esse nome – que eu acredito que seja Deus – me chamou por esse nome. E aí eu falei: se o Cara me conhece por esse nome, é esse nome que eu vou adotar agora. Então é mais ou menos essa história. Mas aí foi uma coisa, que depois eu recebi uma outra confirmação. E aí ficou. As pessoas me conhecem mais por Doug Alvoroçado que pelo meu nome. Então ficou. É uma coisa que era minha e só faltava me dar.

Luciano Pires: Não foi marketing então?

Doug Alvoroçado: Não. Não foi marketing. Não foi numerologia.

Luciano Pires: Ótimo.

Doug Alvoroçado: Embora eu acredite em tudo isso. Eu acho ótimo, acho lindo. Tanto que falam para eu tirar o Alvoroçado porque tem cedilha. Cedilha não é bom para marketing. Mas eu gosto.

Luciano Pires: Que bom. Mas vamos lá. Você nasceu onde?

Doug Alvoroçado: Eu nasci no Rio de Janeiro. Mas já passei parte da infância em São Paulo também, Jundiaí. Uma terra querida, Jundiaí. Mas sou do Rio. A maior parte do tempo.

Luciano Pires: O que seu pai, sua mãe, faziam, fazem?

Doug Alvoroçado: O meu pai trabalhava em Furnas desde a adolescência. Já se aposentou. A minha mãe trabalhava na Universidade Gama Filho. Se formou professora de História. Chegou a dar aula um tempo. Mas assim, a maior parte do tempo ela foi cozinheira. Cozinheira, boleira, tiveram uma barraquinha de cachorro quente, que virou um comerciozinho. E depois meu pai se aposentou. Minha mãe também decidiu cuidar do neto. E aí ficou.

Luciano Pires: O bichinho do empreendedorismo está na mãe?

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: O pai era um trabalho CLT?

Doug Alvoroçado: É. O meu pai era carteira assinada, coisa bonitinha. A minha mãe sempre foi muito vanguardista assim, a minha mãe sempre foi… na minha família, as mulheres são muito fortes, assim. Então a minha mãe não sabia cozinhar, aprendeu a cozinhar e virou cozinheira. E foi conhecida e é conhecida até hoje como uma grande cozinheira. Tanto que quando ela casou, não sabia fritar um ovo, diz o meu pai. Mas é bem essa história aí.

Luciano Pires: Que legal. Você é negro. Sua mãe e seu pai são negros?

Doug Alvoroçado: Sim.

Luciano Pires: Sua família era de negros?

Doug Alvoroçado: Sim.

Luciano Pires: Do Rio de Janeiro. Em que lugar?

Doug Alvoroçado: Na verdade, na época em que eu nasci eu morava em Quintino. Mas eu sou do lugar mais tranquilo do Rio de Janeiro – que eu chamo – que chama Complexo do Alemão, no Engenho da Rainha, Inhaúma, aquela região lá. Só gente boa.

Luciano Pires: Que legal. Mas é bom saber. Porque a gente que não está lá, conhece pelo estereótipo.

Doug Alvoroçado: É. Exatamente.

Luciano Pires: Pelo cinema. Eu conheço aquilo pelo cinema. Pelas reportagens da televisão. Pelo helicóptero dando tiro e recebendo tiro.

Doug Alvoroçado: Aquela imagem que você viu, dos caras subindo o morro, assim, eu vi pela janela. Olha que coisa…

Luciano Pires: Pela janela. Fascinante. Mas qual era o teu apelido quando você era criança?

Doug Alvoroçado: Na família era Bananinha, Dodica. Eu sempre fui muito gordinho. Então, mas os professores me chamavam… eu tenho um irmão mais velho. Ele era Nescau, eu era Toddynho. Mas eu nunca tive muitos apelidos não. Nunca foi uma coisa que pegou, porque eu acho que eu nunca liguei também. Alvoroçado pegou mais como nome.

Luciano Pires: O lance do apelido é esse. Se o apelido for uma sacanagem. Você achar ruim, ele pega. Se você deixar barato, ele acaba que não passa.

Doug Alvoroçado: Nunca tive não, era Doug.

Luciano Pires: O que o Doug queria ser quando crescesse?

Doug Alvoroçado: Rico.

Luciano Pires: Está bom. Esse é o genérico. Agora vamos ao específico.

Doug Alvoroçado: Não, eu lembro de querer ser dentista quando eu era criança, porque eu achava bonito. Depois eu queria ser advogado, na época da adolescência. Aí quando eu descobri o que o advogado fazia, eu falei: eu não quero fazer isso. E aí eu acho que eu quis ser professor mesmo. Na verdade, eu queria ser professor, porque eu sempre gostei de dar aula. Sempre dei aula para os meus primos. Sempre fui o CDF da família, um dos. A minha família tem bastante gente boa para estudar. Mas eu queria, assim, eu queria ter uma profissão que me fizesse andar, conhecer gente. E o meu sonho era pegar o ônibus de roupa social, com uma mochila nas costas, indo para o Centro da cidade. Era a visão que eu tinha de uma pessoa bem-sucedida, trabalhando. Ele está de blusa social e mochila, no ônibus. Até o dia que eu cheguei a trabalhar no Centro da cidade do Rio de Janeiro, no Instituto Nacional do Câncer, que é ali na Rua do Resende. E eu pegava o ônibus todo dia, eu ia de socialzinho. Eu estou realizando o meu sonho. Quando eu peguei dois engarrafamentos eu falei: não é isso que eu quero para a minha vida. Mas eu tinha esse estereótipo de: nossa, eu vou andar de roupa social na rua, tal. Mas aí, logo depois disso, eu comecei a trabalhar do lado de casa, numa escola e aí foi bem melhor para mim, assim. Na verdade, eu acho que eu sempre quis ser professor, de alguma maneira.

Luciano Pires: Que idade você começou a trabalhar?

Doug Alvoroçado: 16, 17 anos.

Luciano Pires: Garotão.

Doug Alvoroçado: Trabalhava como técnico de academia. Olha, eu sou gordinho. Técnico de academia. Eu consertava as bicicletas spinnings e tal nas academias.

Luciano Pires: Está bom. Dá para você ficar um gordinho consertando bicicleta. Agora, dando aula é que não vai ter credibilidade.

Doug Alvoroçado: Verdade.

Luciano Pires: Mas então, você começou a trabalhar antes de você definir o que você ia fazer da vida. É isso? Você já tinha uma ideia com 16 anos, o meu caminho é tal?

Doug Alvoroçado: Eu já queria alguma coisa. Eu queria alguma coisa fora do país. Eu queria assim, viajar. Eu queria sair. Eu queria dar aula, mas eu não queria ficar preso. Eu queria alguma coisa que não me deixasse preso em algum lugar. Escritório não era uma coisa que eu almejava. Então…

Luciano Pires: Não era Complexo do Alemão na época? Já era?

Doug Alvoroçado: Já. Já era.

Luciano Pires: Você estava no Complexo do Alemão?

Doug Alvoroçado: Já. Já estava lá no Complexo do Alemão.

Luciano Pires: Nós estamos falando em mil, novecentos e oitenta?

Doug Alvoroçado: Eu nasci em 82.

Luciano Pires: Você está em 96?

Doug Alvoroçado: É. Por aí, 96, 97. E eu começo a trabalhar. Mas assim, eu fiz… meu pai é técnico em eletrotécnica, se eu não me engano. Ele achava que os filhos tinham que seguir essa profissão. E aí ele me obrigou a estudar no 2º grau, fazer um 2º grau técnico, numa escola que até é muito boa no Rio de Janeiro. E eu acabei que eu não queria. E aí eu fiquei brigado com o meu pai um tempo. O meu pai me obrigava. E aí eu, nessa escola… eu sempre fui muito bom em estudar. Eu sempre tive facilidade para aprender, a verdade é essa. Eu me moldei ao molde que a escola era na época. Então, eu raciocinava rápido, memorizava as coisas. Então eu ia para a escola técnica. Eu ia todo dia chorando e voltava chorando. E só tirava 10. Aí os professores faziam reunião, chamavam meu pai na reunião e falavam: não, tira ele daqui; ele vai entrar em depressão. Não sei o quê. Meu pai: não, eu estou pagando e ele vai ficar. Mas aí eu estudei. Tive oportunidade de estagiar em algumas empresas legais.

Luciano Pires: Você tirou o diploma?

Doug Alvoroçado: Tirei. De técnico. Dei na mão do meu pai. Eu falei: esse aqui é o seu diploma. Parabéns. Meu irmão seguiu a mesma carreira. Eu estudei junto com o meu irmão esse tempo todo. Meu irmão hoje trabalha numa grande empresa. E eu saí de lá. O meu irmão entrou como estagiário e está lá até hoje. Uma empresa muito famosa, igual televisão. Eu não vou falar o nome. E eu saí de lá, eu fui fazer um preparatório para o vestibular. E nisso a minha mãe foi – eu tenho alguns parentes que moram fora do país, eu tenho uns tios que tem cidadania canadense, americana – e aí eu fui… a ideia era: vou sair daqui, vou embora, tchau. Tchau Brasil. E aí, nisso eu estava preparando as coisas. Começou a prova do vestibular. Eu falei: vou fazer. Mas nem quero passar.

Luciano Pires: Já sabia para que era?

Doug Alvoroçado: Uma amiga minha – uma grande amiga minha, minha melhor amiga até hoje – ela falava assim: cara, você tem que fazer Pedagogia, porque é a tua área, não sei que, tem tudo a ver com você. E eu falava: Pedagogia? Vou limpar bunda de criança? Nada a ver. Vou fazer Relações Internacionais. Vou fazer alguma coisa mais assim. Mas eu queria dar aula, mas não na área da Pedagogia, que eu não me via nessa área. Via, mas não via. E aí nessa época, eu já era muito bom de LIBRAS. Eu interpretava LIBRAS. Então, eu achava que eu tinha que fazer alguma coisa por aí, uma coisa na linguística, por aí. E uma amiga falou: não, quando você botar o pé na faculdade, você vai descobrir que o teu lugar é ali. Aí eu fiz a prova do vestibular sem querer passar, porque eu ia morar fora. E aí fui fazendo a prova. Teve o 11 de setembro. Que aí fecharam as portas. Eu não consegui. A minha viagem estava marcada – se eu não me engano – para o dia 21 de novembro ou dia 22, eu não me lembro. E dia 11 de novembro teve tudo, fecharam as portas. Minha família voltou para o Brasil. Depois de um tempo voltou para os Estados Unidos, meus tios, no Canadá. E eu fiquei aqui. Já que eu estou aqui, que eu passei no vestibular, vou fazer faculdade. Eu botei o pé no primeiro dia e aconteceu a profecia da Carla. Me apaixonei e falei: não, agora eu só vou embora depois que terminar isso aqui.

Luciano Pires: Fez vestibular para quê?

Doug Alvoroçado: Pedagogia, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, lá na UERJ.

Luciano Pires: Que legal.

Doug Alvoroçado: E aí eu me formei em Pedagogia lá, com toda aquela dificuldade de um garoto normal, meio louco, da zona norte do Rio.

Luciano Pires: Muito bem. Vamos lá, vamos tentar equacionar essa loucura toda. Você, evidentemente, já devia ter esse fogo no rabo na época? Não era um cara normalzinho?

Doug Alvoroçado: Não, nunca fui normal.

Luciano Pires: Já girava numa velocidade além da… eu tenho uma tese que é a seguinte, cara: o mundo gira numa velocidade e têm pessoas que nascem atrasadas e têm pessoas que nascem adiantadas. Tem gente que gira um pouco mais rápido e gente que gira um pouco mais devagar. E no contato você saca: esse aí não tem jeito, esse aí vai devagarinho. O outro vai um pouco mais avançado. E você então, está dentro de uma universidade, se formando em Pedagogia, com uma outra turma que se forma em Pedagogia. E, de repente, você pega na mão um certificado e fala: vou ganhar minha vida dando aula?

Doug Alvoroçado: É.

Luciano Pires: No Brasil?

Doug Alvoroçado: Por aí.

Luciano Pires: E aquela ideia de ficar rico, então, esquece?

Doug Alvoroçado: É. Eu não estava conseguindo chegar lá mesmo. Bom, na verdade, eu estava no Instituto Nacional. Não, minto. Eu estava fazendo faculdade e arrumei esse estágio no Instituto Nacional do Câncer.

Luciano Pires: Que não tinha nada a ver com Pedagogia?

Doug Alvoroçado: Não, era analista de ensino médico. Que eu estava ali meio coordenando a parte pedagógica da residência e da especialização médica. E aí era uma coisa muito legal. E aí abriu prova para o município do Rio. E a galera lá da Pedagogia: não, vamos fazer. Vamos fazer. Que o salário é bom. Professor paga bem. E eu: não vou fazer. Eu vou dar aula. Não, nada a ver. Criança. Não sei quê. Aqui no hospital tinha mais a minha cara. Mas acabou que todo mundo vai fazer. Eu fiz com a galera. Eu fui o único que passei. Ninguém passou daquela galera. Aí eu falei: já passei. E lá tinha uma coisa, o contrato demorava, o pagamento era mais dificultado, assim. E aí acabei: cara, não, vou entrar nessa daí. Porque primeiro eu vou ganhar o meu dinheiro e depois eu vejo o que eu quero fazer da vida. O plano era esse. Não vou ficar enganando aqui e isso.

Luciano Pires: 20 anos de idade?

Doug Alvoroçado: É. Isso. Eu tive uma dificuldade aos 16 anos. Que eu parei de dormir. Aos 16 anos eu tive um febrão. Foi a primeira vez que eu lembro de ter virado a noite, passando mal, aquela coisa. Eu lembro de ver a série Dallas na televisão, de madrugada, assim. Eu fiquei doente. Desse dia para frente, eu nunca mais dormi direito. Eu era uma pessoa que dormia normal. Comecei a dormir duas horas por noite, três horas por noite. Até hoje é isso que eu durmo.

Luciano Pires: E tranquilo?

Doug Alvoroçado: Tranquilo. Hoje eu dormi uma hora e meia, quarenta minutos, assim, uma hora e quarenta, uma hora e meia. E estou bem. Estou no meu normal. E já desde os 16 anos. Então isso me ajudou na faculdade, que eu entregava os trabalhos. Madrugada é ótimo.

Luciano Pires: Máquina de produtividade, cara. Duas horas de sono só e o resto é produzindo? Fantástico.

Doug Alvoroçado: Aí me ajudou muito. Eu leio muito, eu produzo bastante, eu estou animado. De noite, ir para a balada é comigo mesmo, pode me chamar para as nights, que eu fico loucão lá, em pé.

Luciano Pires: Eu quero tomar o que você toma. Deixa eu fumar o que você fuma? Me dá?

Doug Alvoroçado: Aí é que está. Se eu fumar e se eu beber, eu fico chato. Então eu tenho que ficar na água mesmo. Então, isso me ajudou com os estudos. Então acabou que eu lia mais, eu tinha mais tempo. E aí eu fazia muita coisa, comecei a fazer muita coisa. Nessa época você já está interpretando, você está dando aula, você está… assim que eu terminei a faculdade, eu fiz a Escola Ministerial de Música no conservatório, eu estava me formando em canto e regência. Por causa das atividades outras…

Luciano Pires: A igreja que te levou para a música?

Doug Alvoroçado: Exatamente. A minha família é de maestros desde sempre.

Luciano Pires: Legal. Deixa eu pegar você um pouquinho antes, aqui. Como é que LIBRAS entra na tua vida, cara?

Doug Alvoroçado: Cara, há milênios atrás, eu devia estar na 2ª série. Tinha um menino surdo na escola. E nós dois éramos os excluídos, porque eu era o preto e ele era o surdo. Dois esquisitos.

Luciano Pires: Uma sala de aula sem negros?

Doug Alvoroçado: Era eu e meu irmão. E aí depois de um tempo entrou mais um. Mas era uma situação bem mais dificultada, porque ele teve que sair, inclusive. O meu pai, por ter um emprego legal na época e ele tinha condições de bancar. E meu pai sempre quis bancar a nossa educação em escola particular. Então, eu me agarrei a ele e ele se agarrou a mim. Então eu peguei um amor. Eu acho que a vantagem que eu tive é de perder o medo do contato com o diferente. Ali eu ganhei isso. Ele sabia pouco LIBRAS. Eu sabia menos ainda.

Luciano Pires: Que idade vocês tinham?

Doug Alvoroçado: Na 2ª série. Eu devia ter 8 anos, 7 anos. Não, eu era um pouco mais novo. Eu devia ter 7 anos. Porque eu entrei junto com o meu irmão. E o meu irmão é mais velho. E aí beleza. E aí já cantando. Família de músicos, sempre cantando e tal. E aí eu sempre fui muito performático.

Luciano Pires: Mas vocês foram buscar LIBRAS os dois juntos, é isso? O menino surdo e você?

Doug Alvoroçado: Sim. Depois eu perdi o contato com ele, porque ele foi tirado daquela escola e foi para uma escola especializada para estudar. E eu continuei na escola. Ele sabia do contato com a família, do contato com a cultura. Muito pouco. Os pais eram ouvintes. Mas foi isso.

Luciano Pires: E aí você percebeu que existia uma linguagem, que você poderia falar com ele e foi bater num lugar? Deixa eu ver como eu aprendo isso?

Doug Alvoroçado: Isso só caiu a ficha depois. Eu acho que a única coisa que eu aprendi mesmo é que ali existia uma pessoa. Não era uma deficiência. Não era uma coisa. Ali existia uma pessoa. E essa pessoa era igual a mim. Eu acho que a única coisa que eu aprendi naquela época, se eu aprendi alguma coisa, foi isso. Eu não tinha medo de falar com ele. Ele era uma pessoa, ele queria brincar igual todo mundo. Ninguém brincava com ele, porque não entendia ele. E eu brincava com ele. Então eu acho que a única coisa que eu peguei mesmo foi isso. Depois nos afastamos. E isso ficou dentro de mim. Na minha igreja tinha um grupo de surdos. E aí como eu sempre fui muito performático e na LIBRAS você precisa ter expressão, você precisa ter todo um gestual. Eles falaram: cara, por que você não aprende LIBRAS? Eu falei: cara, eu sei um pouco. E aí eu fui colando com eles. Aí o contato foi me ensinando LIBRAS. Tanto que quando eu cheguei no município eu já estava interpretando. E aí eu fiquei caçando os surdos do município. Eu falei: eu queria um aluno surdo. Para ter mais contato com o surdo, para aprender mais e tal. E aí encontrava com mais dificuldade. Mas eu sempre gostei. Eu tenho uma paixão pela surdez. Eu não sei como um cara de música se apaixona pela surdez. Não sei como isso acontece. Mas eu fiquei fascinado com a história da surdez, do cara ter uma língua diferente. Essa língua é melhor para fofocar. É melhor para fazer um monte de coisa. E eu já estava querendo aprender e eu queria ajudar. Na verdade, eu acho que o negócio era querer ajudar mesmo. Vamos ajudar, vamos lá interpretar, vamos aprender mais. E como eu sempre gostei de aprender. Eu acho que eu gosto de aprender. A minha esposa fala assim: vai ter um curso de solfejo para albino. O nome do Douglas está lá. Porque eu vejo curso de tudo. Eu me inscrevo. Tem um livro que vai falar de sete teorias sobre, sei lá, a teoria da conspiração. Mano, eu vou comprar e vou ler. Porque tem alguma coisa ali que vai me ajudar. Eu gosto de aprender. Eu acho que é a única coisa que eu faço bem, aprender. Então eu sempre fui gostando e fui…

Luciano Pires: Você sabe que tem o lance do empenho e do desempenho. É aquela história toda: esse período que você passa lendo, você está empenhando. Você vai empenhando. Empenha, empenha, empenha. Então, eu estou lendo livros, eu estou estudando, eu estou praticando. Eu estou aprendendo LIBRAS. Eu estou empenhando um monte de coisas. E um dia surge uma chance do desempenho. Sabe, é aquela história do Usain Bolt, treinando o dia inteiro, a vida inteira e chega na prova da Olímpiada, é o momento do desempenho. E ali ele devolve tudo aquilo que ele empenhou. Como músico, na hora de você tocar, na hora de você cantar, na hora de você reger, na hora de você estar no palco, de fazer uma palestra, dando uma aula. É o momento do desempenho. Você devolve tudo que você empenhou. Então, se você tem essa gana por empenhar, cara. Eu imagino o tamanho do repertório que você não constrói? A quantidade de recurso que você não acaba ganhando? E como você está colocando aqui, cara, você sabe interpretar LIBRAS, você é músico, você é professor, você lê. Quer dizer, tem um repertório que explica a facilidade. Eu vou me dar bem em algum lugar. Eu entro lá e com esse repertório que eu tenho, eu sou um ogro. Se eu tiver um mínimo de educação, eu consigo fazer acontecer. A recomendação para você é o seguinte: com o Bolsonaro aí LIBRAS vai para primeiríssimo plano.

Doug Alvoroçado: Mano, eu estou superanimado com isso aí.

Luciano Pires: Você viu como é que é, cara. Está vindo de uma forma bem… eu vi a entrevista da esposa dele. Não sei se você viu a entrevista dela na Record?

Doug Alvoroçado: Eu vi sim.

Luciano Pires: Ela chora, cara. Ela vai em lágrimas quando ela fala da vontade que ela tem. Já trouxe para primeiro plano. Fez ele assinar um documento. Cara, eu acho que pode vir um momento bem legal para essa…

Doug Alvoroçado: Cara, e eu sou um pesquisador da área de LIBRAS.  Eu gosto muito da área. E na verdade, eu… e aí, entrando no município eu catei os alunos surdos, pedi uma sala de recursos e aí comecei a atender alunos com surdez.

Luciano Pires: Isso não era profissão?

Doug Alvoroçado: Não, era lá no município.

Luciano Pires: Não, eu digo assim: LIBRAS não era a tua profissão?

Doug Alvoroçado: Não. Nunca foi.

Luciano Pires: Era uma ferramenta que você usou?

Doug Alvoroçado: Não, e o cara que sabe LIBRAS, ele é tudo. Porque, por exemplo, você imagina: você é surdo. Que médico você vai? Que dentista você vai? Que banco você vai? Então, você acaba sendo convidado para tudo. Olha, eu vou no dentista. Vai comigo? O surdo fala com você. Eu vou num casamento. Você vai comigo. Eu já pedi o seu ingresso. Não, cara, eu não quero ir num casamento. Eu não quero. Não, você vai comigo, porque alguém tem que interpretar. Então, o cara que sabe LIBRAS, o cara te convida para ir no médico, para ir no psicólogo, para ir em qualquer lugar. Porque você é um cara que ajuda ele. Então, eu amo LIBRAS. Então, você acaba conhecendo muita gente e indo, você descobre coisas legais. E como eu sou apaixonado pela língua, eu acabei buscando esses alunos surdos. E aí é o primeiro choque, eu acho, porque aí eu achava: o cara é surdo. O cara sabe LIBRAS ou sabe o mínimo. E vai ser uma festa. Eu vou dar uma aula, assim, maravilhosa. Vou tirar onda. Até que eu descobri que o surdo não nasce falando LIBRAS. Aí eu me dei mal. Porque quando um surdo é de família ouvinte, LIBRAS vai ser a 10ª coisa que a família vai se importar.

Luciano Pires: O que é família ouvinte?

Doug Alvoroçado: A família ouvinte…

Luciano Pires: Que todo mundo escuta normalmente?

Doug Alvoroçado: Escuta.

Luciano Pires: E tem um surdo no meio?

Doug Alvoroçado: É. Nasceu um surdo na família, não tem um parente surdo. Não tem ninguém surdo. Eles nunca tiveram contato com a cultura. E os meus alunos, 100% dos meus alunos surdos eram de família ouvinte. Eu tinha um caso de um menino que era a família ouvinte e ele era surdo. Aí nascia uma menina, era ouvinte. Aí nascia um menino, era surdo. Aí nasceu outra menina ouvinte. Aí nasceu outro menino surdo. Então tinha dois irmãos um – na época – um estava com cinco, outro estava com três anos. Então aí eu começo a descobrir assim: caramba, o cara não sabe LIBRAS. O cara não sabe português. Ele não ouve. E se ele fecha os olhos, o mundo acabou. Como eu vou ensinar a essa criança, fotossíntese? Como eu vou ensinar para essa criança? Deram uma prova que era para ensinar o conceito de… era uma coisa de cartografia, para ensinar o conceito de bairro. Eu falei: cara, ele não sabe a letra B. Ela não tem valor sonoro, ela não tem valor gráfico. Ela não tem nada. Como que eu vou ensinar bairro? É um conceito muito… aí eu pensava: fotossíntese é mole. Mole. Aí você fala assim: fotossíntese é a troca lá do gás carbônico por oxigênio. O cara fala: o que é oxigênio? O que é gás carbônico? Aí você: não, o oxigênio vem do ar. O que é ar? Eu falei: pronto. Esse cara, ele está muito, muito, muito lá atrás. Então é a hora que eu começo. Por ter me formado em técnico em eletrônica, isso me ajudou. Porque eu tinha contato com algumas coisas de tecnologia. E tudo que eu aprendia: cara, isso aqui pode me ajudar. E eu descobri um site que tem uma explicação. Tem um vídeo legal sobre fotossíntese. Eu vou levar para a minha aula. Aí eu começava a incomodar: eu preciso de internet, eu preciso de computador. E na minha sala de aula nessa época, era uma sala de aula supermoderna. A tecnologia que eu queria era uma janela. Porque nem janela tinha.

Luciano Pires: Onde era isso?

Doug Alvoroçado: Lá no Engenho da Rainha. De frente para o Alemão.

Luciano Pires: De frente para o Alemão. Era uma escola estadual?

Doug Alvoroçado: Escola municipal.

Luciano Pires: Municipal.

Doug Alvoroçado: Então a tecnologia que eu queria era uma janela. Porque não tinha nada. Ainda mais computador, internet, essas coisas. Beleza. Aí depois a sala de recursos foi sendo montada. E aí ficou legal, ficou tinindo. Mas eu pedindo: preciso de um computador, preciso disso, preciso de uma câmera para gravar, preciso de um monte de coisa para dar aula para esse guri. E aí eu comecei a trazer tudo que era de tecnologia para a minha aula. Tem um Google Maps aqui, que eu posso ensinar ao cara o conceito de bairro. Trazia. Tem um Arduino aqui que você monta e o cara entende uma coisinha aqui. Trazia. E aprendia. Fui numa feira, descobri como se faz uma holografia. Cara, traz isso correndo. Cara, joguinho. Vamos montar um joguinho de papel que seja. Calendário circular. Tudo que eu via lá fora, eu trazia para dentro. E como nessa época eu já era professor de sala de recurso, eu não tinha um compromisso estrito ali com o conteúdo. Eu tenho um compromisso com o conteúdo. Mas eu posso trabalhar tanto o que é complementar, quanto o que é suplementar. Então eu buscava capacitar os meus alunos em várias outras coisas que eles iam aprender mais. Então eu…

Luciano Pires: Você está falando a tendência da educação do novo milênio, da frente. Que é aquela história: não é pegar aqueles livros antigos e ensinar o beabá para a molecada. Mas é pegar uma coisa que ela se interessa. E a partir dali eu vou te ensinar matemática, a partir do teu interesse em balonismo.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: Vamos conversar sobre balonismo e o conceito da matemática também.

Doug Alvoroçado: Na verdade, eu comecei, eu começava até errado. Que eu partia do conteúdo que o professor passava para mim: olha, a turma está aprendendo números até 10. Então, ensina isso para esse garoto. Aí eu tinha esse conteúdo. Mas cara, como é que eu… o cara gosta de Pokémon. Mano, vinha Pokémon com todos os números.

Luciano Pires: Isso aí.

Doug Alvoroçado: Então eu transformava isso em números de 1 até 10, de alguma maneira, para o cara se interessar, para ele começar a olhar. Beleza. E aí eu começava a trazer tudo que eu tinha na mão. Uma vez, esse aluno que tem um irmão surdo, o Adriel, que eu morro de saudade. Ele chegou, não quis olhar para mim, de olhos fechados, abaixou a cabeça. O cara não ouve, de olho fechado, a cabeça baixa. O mundo acabou para ele. Não tem. E eu tentando chamar a atenção dele: poxa, vem cá, vamos brincar. Vamos fazer alguma coisa. E o cara não queria, não queria, não queria. Na minha sala de aula eu sempre trabalhava com Emoji. Você está feliz? Você está triste? Aquilo, aquilo outro. No papel, obviamente. No mural. E eu tinha feito um livro de expressões, para falar para os alunos: o que é feliz? Para explicar o que é rir. O que é triste. O que é gritar. Algumas coisas assim, muito básicas para um aluno de seis anos de idade, que não ouve, que não sabe português, que não sabe LIBRAS, que estava aprendendo tudo ali. E a família… ele é seu filho, ele é seu aluno. A família tem comprometimento em alimentá-lo. E você que se vire em dar qualquer tipo de educação ou buscar LIBRAS ou buscar alguma coisa. E aí o aluno pegou o livro, ele folheou, folheou, folheou. E encontrou a foto do Emoji passando mal. Apontou para o Emoji. Apontou para ele e vomitou e começou a sorrir. E aí o aluno… eu entendi naquele momento ali… aí o aluno vomitou. Aí eu fui, fiz todo aquele atendimento, limpa e tal. O aluno dali já estava rindo, brincando, feliz. Ele estava passando mal, ele não conseguia uma palavra, o que significava passar mal. O que significava quero vomitar. Aí ele ficou folheando o livro, achou aquilo, apontou para mim, mostrou. Vomitou. Tipo: quero vomitar. Conseguiu falar comigo. Fez. E resolveu o problema dele. Já estava feliz, brincando, rindo. E eu falei: cara, tem alguma coisa aí nesse negócio, mano. Existem várias possibilidades de educar esse garoto. E aí eu comecei a trazer Emoji. Alfabetização através de Emoji. Alfabetização através de imagem. Tudo, tudo que eu achava, tudo. Lia um livro sobre, sei lá, imagem no contexto lá-lá-lá. Cara, traz isso que eu tenho que usar, tenho que ver. E aí comecei a usar muita coisa. E aí você vai guardando. Essa aqui ficou legal, guarda que eu vou usar no ano que vem. Isso daqui deu errado. Joga fora. Isso aqui…

Luciano Pires: Você está contando isso, sabe? Eu estou vendo essa tua… eu estou imaginando: a aula deve ser… é dinâmica, porque tem aquele na-na-na e silêncio.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: Então é um negócio dinâmico, em silêncio, sem som. Para a gente que… tem que ter barulho, cara. Eu gosto de feira livre, sabe? Eu quero trabalhar num lugar com bagunça, com barulho. Porque o barulho mostra que as coisas estão acontecendo. De repente, você tem um silêncio e aquilo é chocante. Eu passei por uma experiência, eu acho que foi em 2014, se eu não me engano. Eu fui convidado para fazer uma palestra num evento no Rio Grande do Sul, da Associação Nacional dos Cegos do Brasil.

Doug Alvoroçado: Legal.

Luciano Pires: E a minha palestra é extremamente visual. Sou eu e uma tela, cara. E a tela me complementa. Eu faço a piada, a tela complementa. Eu converso com a tela e tudo mais. E eu fui fazer uma palestra para cegos. E eu sentado aqui eu falei: cara, como que eu vou fazer uma palestra que é visual para cego? Aí eu peguei e montei a palestra normalmente, a palestra para mim. Então, o que estaria na tela era meu. Eu e a tela. Porém, eu tinha que lembrar que ninguém ia estar vendo aquilo que eu estava. Então, eu não poderia apontar. Eu teria que descrever. Eu fui muito mais para o áudio, usei muita música e tudo mais e trabalhei uma questão de áudio. Chegar no local do evento já foi uma loucura. Porque eu entrei no local do evento – e eu estou acostumado, eu faço palestra a vida inteira – chego no lugar, baita organização. Eu chego lá, o lugar é todo feio. Não tem banner na parede. Aí você olha para aquilo e você começa a ter um choque, porque fala: cara, todas as referências que eu tenho do que é um evento, lá não precisa. Porque não precisa nem ter tela cara, nem projetor. Não tem que ter nada disso. E aí começa a dar um choque. Você fala: cara, os meus recursos estão desaparecendo. Aí você entra, tem cachorro no chão. E eu chego na frente de uma plateia com 70 pessoas que não estão me vendo. E pela primeira vez, eu: bom dia. Vocês estão bem, etc. e tal. E eu começo. E agora, cara? Vem cá, eu devo chamar vocês de quê? Mas é claro que é cego. Chama de cego. Está bom. Vamos com os cegos. E a experiência que eu tive ali, de fazer uma palestra de uma hora, uma hora e meia foi um negócio assim, enlouquecedor. Porque me levou para uma dimensão, que me tiraram um recurso fundamental e eu tive que fazer sem aquele recurso. E agora que você está falando, eu estou imaginando você fazendo essa loucura toda com o pessoal, sem som.

Doug Alvoroçado: É. Vou te dizer uma coisa: a aula com surdo não é tão silenciosa. Porque eles gritam muito. Eles falam muito alto. Porque eles são de família ouvinte. Então eles acham que gritar é falar. Eles acham que mexer a boca é falar. Mas assim…

Luciano Pires: Então você me tirou um peso. Você me tirou um peso. Porque é o seguinte: o que eu imagino aqui? Como eu faço podcasts, estudo muito a questão do som. Tem uma frase que eu gosto muito de usar, de um médico chamado Alfred Tomatis, um cara que estudou profundamente o impacto do som na comunicação, no desempenho, etc. e tal. E esse cara fez uma frase, que ele diz o seguinte, assim – como é que ele fala? – ele fala: falar é vibrar junto com outro ser humano. Então, eu estou falando com você, minha vibração entra em você. Ela te provoca alguma reação, até física. E você devolve para mim. Então, a princípio, quando você começou a falar, eu imaginei aquele lugar silencioso. Agora, se eles estão falando alto, estão gritando, a vibração surgiu. Estão te cutucando. Ele fez um barulho, você voltou. Então, basta existir uma energia. Que eu pensei que não tivesse.

Doug Alvoroçado: Não. Tem. E vou te dizer: eu falo muito que o surdo, ele convive no mundo de sons. Isso não pode ser negado. Tem gente que fala assim: não precisa botar música não, numa festa de surdo. Por que não? E quando a gente pensa surdo, existem 500 milhões de tipos diferentes. Existe surdo que ouve. Vamos começar do princípio. Existe surdo que ouve e surdo que não ouve. Existe pessoa que tem identidade de surdo, que ela se vê como surdo e tem identidade de surdo. Têm pessoas que são surdas, que não ouvem, mas não se veem como surdos. O surdo não se vê como deficiente, se vê como portador de uma outra língua. Pessoa com uma outra língua. Desculpe. A palavra portador não usa. Pessoa com uma outra língua. Outros já acham que têm uma deficiência sensorial. Então é muito diferente. E aí você fez exatamente o certo. Cara, joga para eles. Lá na Declaração de Salamanca, se eu não me engano, fala: nada sobre nós, sem nós. Então eu não posso, eu enquanto ouvinte, posso dizer o que eu acho que tem que ser o surdo. E isso é o que tem revolucionado. A briga hoje é essa. Porque os surdos agora estão chegando nos mestrados, nos doutorados. Estão ganhando voz acadêmica, voz de autoridade. E eles estão falando por eles mesmos. Antigamente a gente falava assim: inclusão é a melhor coisa para a pessoa com deficiência. Não, vamos incluir. Eles vão estar em sala normal. Beleza e tal. Aí você fala para o surdo, você fala: a melhor coisa é a inclusão. E o surdo fala: não, não quero. Porque para ele, ele é um numa sala, onde ele fala LIBRAS, ele é uma pessoa que tem outro idioma e 40 que falam outro idioma. É melhor para ele, na hora da alfabetização, estar com os pares dele, com um modelo linguístico. Depois que ele já está alfabetizado, aí ele vai para onde ele quiser. Então, o surdo agora, ele chega na academia, ele diz: não, não quero inclusão. Eu quero inclusão depois, na faculdade eu quero ser incluído, no ensino médio. Mas no fundamental, eu preciso estar com o meu modelo linguístico. Contrariando o que os ouvintes, doutores, achavam que era melhor. Tanto que quando foram lá: vamos levantar a inclusão, vamos acabar com as escolas especiais. Os surdos foram marchando para Brasília e falaram: para com essa merda, porque para a gente isso não adianta. Então você vê, falar de deficiência é muito amplo. E na minha sala tinha surdos num horário, no outro horário tinha cegos, no outro horário tinha autismo. E aí a galera do autismo já é mais agitada.

Luciano Pires: Eu tenho um texto chamado Os X-Man. E a minha tese é que o autismo é um estágio de uma mutação humana, que está criando super seres que a gente não consegue entender. Entendeu? Que têm capacidades que é coisa de outro mundo, cara. É um caminho que nós estamos compreendendo.

Doug Alvoroçado: Eu vejo por aí também.

Luciano Pires: Mas olha que coisa interessante que é um negócio, que eu tenho uma palestra que eu falo sobre ética. E no final da palestra eu trago algumas discussões éticas para daqui a 30, 40 anos. Eu falo: olha, nós estamos discutindo ainda se tem que devolver a carteira para o dono ou não? Eu vou mostrar para vocês o que vem pela frente. E começo a trazer as discussões de, sabe? No momento em que uma máquina tiver consciência, ela deve ter direitos ou não? Eu posso magoar o meu iPad? Entendeu? Eu posso deixar na chuva o meu robô? Entendeu? Eu começo assim. E uma das discussões tem a ver com a forma como a tecnologia está se juntando com o ser humano e está transformando um ser humano que tinha uma deficiência, num super-homem. Então, o primeiro exemplo que eu trago, que é um exemplo mais bobo de todos. Eu trago lá o Pistorius, o corredor, que não tem as duas pernas e que sai da Olimpíada especial, da Paralimpíada e vai correr na Olimpíada normal, contra corredores que têm as duas pernas. E a Olimpíada fala: não senhor, você não pode correr aqui, porque você com esses dois…

Doug Alvoroçado: Propulsores…

Luciano Pires: Você tem propulsores, você vai levar vantagem. E ele só consegue correr judicialmente. E aí você olha para aquilo e fala: espera um pouquinho, cara. Até pouco tempo atrás esse cara não tinha as duas pernas. Ele era um aleijão. Ele era um cara que tinha um problema sério, que fazia com que ele não pudesse ser um ser humano comum. E agora nós estamos dizendo que ele é um super-homem. Aí eu trago um outro conceito, falando o seguinte: vocês imaginam a situação em que um sujeito perde o olho num acidente e bota um olho biônico, que faz com que ele enxergue à noite. Sai um concurso para contratar guarda-noturno. É ético que esse cara concorra com pessoas que têm os dois olhos normais? E ele tem um olho que faz ele enxergar de noite. Ele deixou de ser um deficiente para ser um super-homem. Quando você pega o surdo e fala: cara, esse cara conhece uma língua que ninguém conhece. Numa situação em que você não pode usar a voz, etc. e tal, esse cara é o único que vai ter vantagem. Porque ele consegue de longe se comunicar. Ele faz coisas que eu não consigo fazer. Porque o que seria uma deficiência passa a ser um plus. E quando você traz isso para esse conceito de que eles estão se comunicando, eles estão começando a ter voz, muda todo o conceito. Eu era um coitadinho. O fulano é surdo. Isso está deixando de ser o estigma para ser: olha, ele é alguém que tem características diferentes. Eu não vou poder usar com ele a forma que eu uso para me comunicar com você. Mas eu vou ter que aprender mais para poder falar com ele. E ele tem vantagem sobre mim, que acaba até que em algum momento, superando a tal da desvantagem.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: É uma mudança social, cara. Brutal.

Doug Alvoroçado: Eu costumo dizer que nós estamos agora passando por uma coisa que a gente já devia estar fazendo. Nós estamos nos adequando. Você adaptou a sua palestra naquela hora para o público. Isso é uma adaptação. E a gente achava que a adaptação era a melhor coisa que a gente fazia. Não, eu vou pegar a prova da 5ª série, vou adaptar para o meu aluno. Então, a turma da 5ª série está fazendo uma prova. Aí eu vou adaptar, vou botar ela mais visual, vou botar um estímulo assim, vou botar isso para que esse aluno surdo consiga fazer a mesma prova. Estou fazendo aspas com os dedos. Então a gente achava que isso era bom. Só que a gente está entrando num outro lugar. Nós estamos num lugar de adequação aos processos. Não é adaptação. Adaptação é bom, funciona. Mas é gambiarra. Um dia isso vai estourar. Um dia aquele fio que você puxa a extensão, a extensão vai sumir, o fio vai queimar e você vai ficar sem ele. Adequação é entender que eu posso tornar esse processo mais igual, mais tranquilo, para que todo mundo possa participar junto. Então, hoje você tem aquela palestra, que ela já está adaptada para aquele público e você conseguiria hoje dar de novo, se te convidarem de novo. Poxa, vou lá no Instituto de Cegos, vou dar palestra. Você já iria com um pouco mais de segurança, porque você já viu como que era. Então, imagina agora, você pegando todas as suas palestras e adequando as suas palestras para que qualquer palestra sua possa ser assistida por qualquer pessoa. Então você vai ter que pensar: cara, eu tenho que imaginar que na minha plateia tem um surdo, tem um cego, tem alguém com dificuldade de manter o foco, tem alguém que não consegue ficar sentado. Então, você vai adequando isso para que, se eu penso, quando eu crio um material. Você que é criador de conteúdo, você sabe muito bem. Quando eu crio um material e ele já está adequado, ele está pronto. Aí ele vai funcionar com a galera. Óbvio, não existe receita de bolo e não existe 100% a razão. Hoje deu certo. Amanhã vem um outro tipo de surdo, que já não dá mais. Vamos ter que fazer uma nova adequação. Mas a gente está entrando nesse processo de adequar, inclusive adequar… uma coisa importante: o surdo não participa das Olimpíadas. Nem das Olimpíadas, nem das Paralimpíada. Porque para a Olimpíada ele é deficiente. Para a Paralimpíada ele é normal. Então ele não participa.

Luciano Pires: Ele não tem uma olimpíada?

Doug Alvoroçado: Aí tem uma olimpíada específica para surdos.

Luciano Pires: Sim. Eu não sabia disso.

Doug Alvoroçado: Então, é um lugar que eles têm que criar isso, porque eles não conseguem participar. Se eu vou participar da corrida, não pode porque o estímulo é auditivo, ele é deficiente. Não vai dar. Aí eu vou na Paralimpíada. Não, você tem as duas pernas, você não pode correr comigo. Então tem uma olimpíada específica para a surdez. Que é uma coisa que a gente tem que começar a pensar, vai, eu costumo dizer que fazer Olimpíada e Paralimpíada é uma bobeira. Tinha que ser tudo Olimpíada e modalidade. Modalidade para você, modalidade para pessoas assim, modalidade para pessoas assim, modalidade para pessoas assim. Fica bom. Porque aí eu crio uma Paralimpíada, é mais legal. Eu gosto mais da Paralimpíada, inclusive. Porque o Brasil inclusive se sai muito melhor. Mas…

Luciano Pires: Eu já acho que vai ter que fazer a supra olimpíada.

Doug Alvoroçado: Ah, com certeza.

Luciano Pires: Esses super-homem, entendeu? Aqui só corre super-homem. Que é o pessoal da prótese. Aqui é só super-homem.

Doug Alvoroçado: Eu li uma matéria da Superinteressante há muito tempo. Para você ver como isso já é velho. Dizendo assim: como será a vida daqui a 20 anos atrás? Aí uma das coisas é…

Luciano Pires: À frente.

Doug Alvoroçado: É. 20 anos para frente. Desculpa. E aí dizia assim: eu perdi minha mão na janela, fui na loja e comprei outra. Entendeu? Porque daqui a pouco as coisas vão estar assim. E o cara vai estar: não. Eu quero uma mão que tire raio. Eu quero um olho que veja no escuro. Eu quero uma perna, sei lá, com mais propulsão, que vai prejudicar menos o joelho. Então, eu acho que a gente está chegando numa coisa meio doida assim. Isso me assusta um pouco. Mas vamos para frente.

Luciano Pires: Não, isso vai exigir da gente, uma atenção que a gente não tem hoje. Você falou um negócio aí que bota a gente para pensar, cara. Eu faço uma palestra para uma plateia que ouve e que enxerga normalmente. Eu nunca montei uma palestra pensando – só aquela vez – hoje eu vou para um público, eu não faço uma palestra pensando que vai ter um cego ali. E se eu parar para pensar nisso, eu vou ter que voltar na minha palestra e: espera um pouquinho, tem um recurso que eu usei aqui, que eu não posso não dar ao cego a chance de ver. Eu não vou muito longe. Eu faço… só um segundo. Deixa eu só atender aqui.

Doug Alvoroçado: À vontade.

Luciano Pires: Alô, alô? Saco.

Doug Alvoroçado: Esse som do Bohemian Rhapsody é o maior barato.

Luciano Pires: A minha esposa fez um transplante duplo de rim e fígado. Isso foi em dezembro. Então, toca o telefone aqui, sempre a gente está antenado aqui.

Doug Alvoroçado: Com certeza.

Luciano Pires: Mas deixa eu voltar ali agora. Vou dar um exemplo bobo, mas que mostra a diferença toda, cara. Eu publico duas vezes por semana uma frase. É uma placa com uma frase. Uma frase que alguém disse aí, uma frase criativa, etc. e tal. E um dia um cara me mandou uma dica falando o seguinte: cara, você tem que escrever a frase que você publicou na placa. E eu não tinha me tocado. Ele falou, tem até a hahstag: para cego ler. E aí que a hora que eu parei, eu falei: é verdade, cara. Quando eu publico a placa, o cego não consegue ver a placa. Então, na descrição eu passei a repetir e passou a ser padrão. Então hoje para mim é padrão fazer assim. Às vezes é um detalhe bobo, que não passou pela minha cabeça, porque eu não estava preparado para falar para um público. Nem passava pela minha cabeça que esse público estava presente e estava com essa carência. Porque eu não fui apresentado a ela. E isso vai até o momento em que, cara, se eu sou um engenheiro e estou planejando um prédio. Um arquiteto. Até a rampinha para o acesso. Então, quando a gente fala de acessibilidade é tudo isso. Como é que eu trago esse povo para participar?

Doug Alvoroçado: Exatamente. E agora a arquitetura está trazendo um conceito para a educação, que é o conceito da universalização. Que a gente estava na adaptação, passamos para a adequação e vamos passar para a universalização. A rampa, quem tem perna, quem tem cadeira de roda, quem tem dificuldades consegue subir. Então, ela atinge todo mundo. Será que um dia nós vamos conseguir chegar a isso em todos os lugares? Através da educação, eu consigo trabalhar de uma maneira que qualquer público possa ter acesso a esse conteúdo? Eu confesso que eu não sei. É muito utópico, mas eu estou perseguindo isso aí, adequando os processos e tal. E aí, essa discussão da acessibilidade traz para a gente esse escopo de que as coisas precisam mudar. Você pensa que no McDonald’s era muito mais fácil pedir o sanduiche antes, porque ele era pelo número. Agora não tem mais número. O surdo chegava lá e fazia: número 1, número 2, número 3. Ele pedia o sanduiche e estava pronto. Agora não tem mais o número. Como é que o surdo se comunica se não tem intérprete de LIBRAS lá? Como é que ele vai no médico? E se você vê as histórias que os surdos contam, tristes e engraçadas. Você ia morrer de rir. Eu vou pedir para os surdos te convidarem para dar uma palestra para eles. Quero ver a sua cara dando palestra para eles. Tem que se virar.

Luciano Pires: Eu tenho um amigo. Eu vou dar uma pausa aqui, que eu tenho que pegar agora o nome dele. Espera aí, que essa história aqui é uma delícia. Espera aí, que eu vou pegar ele aqui e vou te dar. É o Schneider, o Dado Schneider. Eu tenho um amigo, o Dado Schneider, um puta palestrante. Ele criou a palestra surda. Desculpe, a palestra muda. Ele não abre a boca na palestra. E a palestra é toda feita… ela tem uma trilha sonora no fundo, que ele evidentemente não vai poder usar. Mas a palestra é ele conversando com uma tela. E ele só faz gestos, indignação, coisa e tal. Conversando com a tela. Um recurso, que se você me convidar, eu vou ter que usar, cara.

Doug Alvoroçado: Com certeza.

Luciano Pires: Por aí. Mas cara, que legal essa história toda. Mas eu sei que você ao se mexer, ao fazer essa loucura toda no teu núcleo ali, você acaba não só encontrando esses recursos da tecnologia, mas alguém acaba te vendo e você acaba se transformando num bicho meio digital, com conexões e tudo mais. Me conta o que vai na sequência aí?

Doug Alvoroçado: Então, eu estava trazendo tudo que era de tecnologia para dentro da minha sala de aula, para me ajudar. Isso começou a dar certo. Isso chama a atenção. Aí tem gente que acha superlegal, tem gente que não gosta. Tem gente que acha que você é maluco. Beleza. E aí você começa a incomodar. Um belo dia… não, tem uma história engraçada, antes de eu contar isso. Que eu tinha um aluno autista, que ele não queria escrever no papel de jeito nenhum. Não queria escrever no papel de jeito nenhum. Ele estava em alfabetização ainda. E eu precisava ensinar o nome, data de nascimento, essas coisas assim, básicas. E eu pensei: cara, como é que eu vou ensinar isso se ele só quer saber de videogame, videogame? Pronto. Vou criar uma rede social. Vou criar a página dele, da rede social. Não vou publicar a rede social, mas vai criar a página, vou deixar bloqueado ali. Mas vou. Aí entrei na rede social, ele ali do meu lado. E ele animadíssimo. Escreveu o nome, escreveu tudo. Aí a diretora da escola olha: está vendo? Está no Facebook na hora do trabalho. Aí eu disse assim: tá cara, a pessoa não está entendendo o que eu estou fazendo. Mas tudo bem. E aí eu começo a trazer tudo que existe para dentro da minha sala de aula em prol do meu aluno. E aí o Google abre um edital selecionando professores que usavam inovação, tecnologia, como que você usa? Conta para a gente. E aí eu falei: cara, você acha que um cara do Rio de Janeiro, aqui do Alemão, de escola do município, pobre, vai chegar lá? Não vai, mano. Não vai. Aí assim, faltava umas duas semanas para acabar o prazo. Eu falei: não vou, não vou. E minha casa estava em obra, eu estava na casa da minha mãe, assim, as coisas estavam todas meio jogadas. E ficou aquele bichinho na minha cabeça: vai, vai, se inscreve, se inscreve. Era um processo de inscrição grande. Eu falei: quer saber? Não estou devendo nada para ninguém. Ninguém me deve nada. Vou me inscrever e beleza. E joguei. Joguei já achando assim: não vai rolar. Mas beleza. E acabou que eu fui selecionado em 2014. E nessa turma que eu sou selecionado, eu sou o único que usa tecnologia para inclusão. E aí quando eu mostrava lá o que eu fazia, por exemplo, tem uma coisa que eu comecei a fazer, que era prova no Youtube. Que os caras do Google falaram assim: mas cara, o Youtube não é para isso. Eu falava: mas eu faço isso. Ele: cara, como você pensou nisso? Eu falei: cara, necessidade. O meu aluno está com esse Youtube o tempo todo na mão dele. Ele quer ver todos os vídeos. Ele é surdo. Mas ele quer ver. Ele quer ter contato. Aí eu comecei a botar algumas provas, algumas avaliações dentro do Youtube. Botava o vídeo e aí colocava um card com opção A, um card com opção B, C e D. Aí ele clicava e ia para um outro vídeo dizendo se ele acertou ou se ele errou. Coisa simples, que eu fui pensando. E os caras ficaram loucos. Os caras: caraca, que maneiro. A gente nunca pensou nisso. A gente sabe que isso pode ser feito. Mas não pensava que podia ser usado assim. E eu hackeava as ferramentas em prol da inclusão. E aí eu fui selecionado para essa turma de Google Innovators. Naquela turma eram 50, hoje nós já somos oitenta e tantos innovators no Brasil. A nossa turma foi a primeira da América Latina. E aí a gente se junta. Eu descubro que eu não sou o único doido no Brasil. Tem um monte de gente em outras áreas fazendo coisas tão loucas, mais loucas, menos loucas, umas coisas igualmente loucas. E aí eu começo a aprender muito com essa galera. A gente cria uma rede que é uma rede que funciona até hoje. Se eu pegar o meu celular e colocar assim: gente, como é que eu faço tal coisa? Tem 80 cabeças que estão lá trabalhando para se ajudar a responder. E eu estive com a galera. A gente está sempre junto. Hoje eu vou estar junto com alguns deles também. E a nossa rede se conectou e a gente começou a pulverizar isso no Brasil. Cara, tecnologia em prol da sala de aula. Tecnologia em prol do aluno. Empreender através da tecnologia. Começar a usar, começar a fazer. E aí eu começo a ser chamado: poxa, vem aqui falar como você usa essa ferramenta? Aí a escola “x” fala: poxa, vem cá. Aí eu já estava com duas matrículas no município. Aí esses convites começaram a aumentar. Eu tive que exonerar uma matrícula para poder dar conta disso. Aí todo mundo: você é louco? Vai exonerar matrícula no município. Eu falei: cara, eu preciso voar. Agora é o momento que eu vou abrir as asas. E aí eu sou convidado por uma amiga a dar aula de tecnologia na escola dela. Aí eu começo a dar palestras. Aí começam a me ver: vem cá, dá uma palestra aqui. E aí uma parte do Google me chama também para trabalhar junto com eles. E agora, parte do meu trabalho, além de ser professor do município do Rio é essa consultoria/aula/qualquer coisa. Que eu vou nas escolas e ensino a usar as ferramentas. Trabalho não só para a inclusão, mas para dar aula, para empoderar o professor. Para ele fazer uma coisa diferente, para ele adotar tecnologia na sua sala de aula ou na escola ou no administrativo da escola. E aí eu começo essa parte, que agora toma grande parte da minha vida, que eu sou apaixonado também, estou amando. E nesse grupo de innovators somos eu e mais um só que falamos de inclusão. Na verdade, a Raquel também – beijo linda, eu sei que você ouve – ela trata muito com a cegueira também. Então, ela é professora de inglês, mas faz uma outra coisa. Aí tem outro cara que fala de inclusão também. Então, a gente está agora jogando isso para discussão, produzindo texto, produzindo material falando o que existe, o que tem, o que não tem. O que serve, o que não serve. Somando as coisas que os outros estão fazendo. Outro faz uma coisa legal. Poxa, vamos adaptar isso aqui, vamos adequar isso aqui para esse público e tal. E isso tem sido a minha vida agora. Ir pelos lugares aí do Brasil todo para espalhar essa tecnologia na educação.

Luciano Pires: Você sabe que esse aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo. Isso que você está descrevendo para mim é business? Se for um business, eu queria entender como ele funciona. Você não trabalha para o Google?

Doug Alvoroçado: Não.

Luciano Pires: O Google não paga nada para você?

Doug Alvoroçado: Não.

Luciano Pires: O Google te incluiu num grupo que se encontra eventualmente, que ganha ferramentas do Google. Provavelmente ele cria coisas novas, te chama para experimentar?

Doug Alvoroçado: Sim.

Luciano Pires: Te dá recursos para você usar, etc. e tal. E você trabalha isso no teu dia a dia. Você tem uma fonte renda que é ser professor na escola e tem uma puta atividade que está tomando o teu tempo. Essa atividade te rende dinheiro? Você ganha dinheiro com ela também?

Doug Alvoroçado: Sim, graças a Deus.

Luciano Pires: Isso é um business então?

Doug Alvoroçado: Sim.

Luciano Pires: Esse business está onde? Você montou a tua pessoa jurídica? Você montou uma empresa? Como é que funciona? Eu quero o bichinho do empreendedorismo aí.

Doug Alvoroçado: Então, eu montei a minha pessoa jurídica e essa pessoa jurídica presta esse serviço. O Google tem um produto chamado Google for Education, que é um produto específico para as escolas, que ele é gratuito para qualquer escola do mundo todo. Ela vai lá e adota. A escola vai lá, adota, faz os procedimentos e tal.

Luciano Pires: Vai lá onde?

Doug Alvoroçado: Vai no site lá do Google for Education. Vai lá, preenche o cadastro.

Luciano Pires: Tem em português isso?

Doug Alvoroçado: Tem. Está tudo em português.

Luciano Pires: Google for Education?

Doug Alvoroçado: Google for Education. E aí a escola vai lá, se cadastra e aí você pode começar a usar. Beleza. Eu posso começar a usar. Por onde eu começo? Quem é que vai mexer na minha estrutura de TI para dizer? Quem é que vai capacitar os meus professores a usar isso aqui? Então, nessa ponte entre… a parte de Google é gratuita. E se a escola tiver material dentro de si para poder fazer esse material, tranquilo. Geralmente as escolas procuram partner do Google, que é uma empresa, para poder fazer esse processo de adoção.

Luciano Pires: Que é um trabalho de consultoria? É uma consultoria?

Doug Alvoroçado: É uma consultoria.

Luciano Pires: Ela te contrata e você faz, dá a consultoria, implementa isso?

Doug Alvoroçado: Sim.

Luciano Pires: Interessante o seguinte: isso pode ser uma escola no interior do Amazonas. Só precisa de um link com internet?

Doug Alvoroçado: Exatamente. Tem escolas, um projeto nosso lá na cidade ribeirinha lá do Amazonas. E é um dos projetos que deu mais visibilidade, que fez mais sucesso. Que é lindo, lindo demais. Tem escolas municipais aqui em São Paulo, no município de Cordeirópolis, ele está empreendendo aí. No Rio tem várias escolas. Óbvio que quando a gente fala, você vê uma escola de classe A, de classe AA assim, adotando, porque conhece. Tem muita escola que fala: não vou fazer. Aí quando eu chego lá: cara, é gratuito. Vai lá e faz. E eu te ajudo no que eu puder ajudar.

Luciano Pires: É interessante. Porque isso está destruindo completamente aquela noção do eixo Rio/São Paulo, lembra? Tudo era o eixo Rio/São Paulo. Era lá que aconteciam as coisas. Era de lá que saía mídia. Cara, isso está sendo destruído de uma forma… eu fui fazer agora, dois meses atrás, uma palestra na Campus Party de Porto Velho.

Doug Alvoroçado: Show de bola.

Luciano Pires: Rondônia. Cheguei lá. É uma mini Campus Party, parecida com a de São Paulo. Com 4 mil caras, bicho. E os caras fazendo robô. E agitando. E com uma fome de fazer acontecer. Eu estava em Porto Velho, cara, que é a periferia. É totalmente fora do eixo Rio/São Paulo.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: E as coisas estão acontecendo lá. E dali, saindo soluções que vêm e tomam conta do Brasil. Eu fui montar um projeto meu de assinatura recorrente aqui, eu fui cair nos meninos de Natal. Então, quando eu paro para pensar hoje, eu falo: cara, olha como isso está derrubando barreiras. E eu imagino que quando você traz essa questão da educação e fica aquela história: a escolinha, pobrinha, no fim do mundo, que não tem recurso, onde as coisas não chegam. Caiu a barreira. Hoje tudo chega lá. Pode não chegar… o dinheiro não chega, não chega talvez, a carteira, não chega a iluminação. Mas se chegar um cabo, o conhecimento vai.

Doug Alvoroçado: Não, e tem uma coisa, que a gente parou de ser consumidor e começou a ser produtor. Então nós vivemos essa mudança. Estamos vivendo essa mudança. Então a escola: eu não recebo livro tal, “x”, maravilhoso. Mas o conteúdo está posto na internet. Então quer dizer, eu pego aquele material e começo a produzir coisas. E o meu mote agora é isso, cara. Eu não quero ser o professor que ensina, eu quero ser o professor que produz conteúdo, conhecimento. Que o cara que produz conhecimento, ele está aprendendo, ele está ensinando, ele está usando, ele está fazendo. Então a gente não sai só do eixo Rio/São Paulo, como sai também daquele contexto socioeconômico: as escolas ricas vão ter e as escolas pobrinhas não vão ter. Não, todo mundo tem. O celular que está no bolso da garotada tem mais tecnologia que a nave que levou o cara para a Lua pela primeira vez. E a galera está fazendo, existe, está posto. Então a gente tem que começar a quebrar esse paradigma e começar a educar para a tecnologia e não educar só com a tecnologia.

Luciano Pires: E isso vai quebrar paradigmas que são impensáveis. Eu tenho batido muito na tecla, cara, essa história de que eu tenho que ir na escola de segunda a sexta, das 14 às 18. Para bicho. Não vai ser mais assim.

Doug Alvoroçado: Você já ouviu falar no conceito de escola academia?

Luciano Pires: Escola academia?

Doug Alvoroçado: Escola academia agora. Que academia você vai a hora que der. Então, agora as escolas estão começando a criar escolas assim, escola academia. Eu vou a hora que der. Acordei, estou bem eu vou. Hoje eu vou. Eu vou estar lá, vai ter um currículo que eu tenho que seguir, uma série. E eu vou buscar, eu vou aprender. A hora que meu horário acabou, eu vou sair de lá. Óbvio, eu não vou pensar isso em educação infantil ainda. Mas por que não?

Luciano Pires: Uma hora vai chegar lá.

Doug Alvoroçado: Uma hora vai chegar lá.

Luciano Pires: Eu gravei aqui um programa com uma educadora que conta essa história, ela fala: é uma escola totalmente fora da casinha. E ela conta a história. Ela fala: o cara chega lá não tem matéria, não tem classe, não tem sala de aula. A garotada chega lá e aprende o que quer. Você fala: mas como que uma criança de sete anos sabe o que quer? Aí quando você vai ver tem todo o sentido. Ela sabe o que quer.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: E ela vai definir o que ela vai fazer e vai sair de lá com um aprendizado diferente.

Doug Alvoroçado: A tecnologia faz romper essa barreira.

Luciano Pires: Pois é, cara. O duro é: como nós estamos num momento de transição. É uma coisa interessante. A história da humanidade, ela vem num caminho. De repente, você tem um choque que muda a história completamente. O Carlos Nepomuceno, que eu conversei também, ele fala muito dos choques das mudanças de mídias. Chega a escrita, muda a história da humanidade. Aí chega a prensa tipográfica, muda a história da humanidade. Aí chega o rádio. Aí chega a televisão. Chega a internet. Cada vez que chega uma coisa dessas, dá uma mudança. Agora, a internet entrou, que em termos da história da humanidade é recentíssima, tem 20, 30 anos. E a gente não entendeu direito ainda o que é. Nós estamos vivendo essa mudança. Então, nós estamos no meio dela. E pega um cara como eu, 62 anos de idade. Fui criado numa educação… eu fui ver televisão aos 11 anos de idade. E toda essa minha formação está sendo colocada num momento em que tem essa transição, onde alguém vem dizer para mim: escuta, aquele modelo de sala de aula que você se criou naquilo, está acabando. Não vai ter mais. Então você vai chegar num lugar e vai perguntar: cadê o professor? Eu não sei se vai ter professor. Entendeu? Aula de que hoje? Do que você quer ter aula? Então, isso para entrar na cabeça do pessoal mais velho é muito complicado. Então, essa transição para mim, eu acho que é o maior desafio. Como que você traz essa ideia progressista e totalmente nova e implementa numa sociedade que não está preparada para receber isso ainda?

Doug Alvoroçado: Eu acho assim, acabar não vai. Eu acho que não é acabar. Eu acho que vão se criar vários modelos. As pessoas falam muito de fracasso escolar. Eu acho muito duro falar isso. Porque a escola deu certo comigo, deu certo com você. Então, quer dizer, é que a gente teima em dizer assim, em casa: isso aqui está perfeito. O problema está no outro. Tipo: a minha casa é bonita a sua é a feia. A minha voz é bonita, a sua é a feia. É algo que a gente costuma ter na nossa vida. Porque a gente fala assim: essa sala de aula aqui, quadradinha do jeito que está, ela tem que mudar, tem que botar computador, quadro, na-na-na. Será que para tudo, para todos os momentos eu vou precisar de um tablet? Eu acho que isso também é retrocesso. A gente vai ter que: não, essa aula aqui vai ser uma aula expositiva. A sua palestra, que é brilhante, é uma palestra expositiva. Vamos adequar, vamos melhorar sim, que bom. Mas ela cumpre o efeito dela. Então não é acabar. É criar uma nova possibilidade. Não, agora eu vou num lugar que pode ter um monte de possibilidade. Agora, nesse momento, porque antigamente era só isso. E só isso dava certo com um grupo e não dava certo com outro. Agora nós temos que ter pluralidade, diversidade, para poder atender a todos esses públicos. E a gente tem que pensar assim: eu vou atender todo mundo. Então, eu vou ter que ter modelos diferentes. E essa escola que tem, que é fora da caixinha, que é muito maneira, cara que bom. Mas ela vai ter um momento lá que o aluno vai no banheiro. E o banheiro vai ter que ser num padrão que vai ter que atingir o aluno. Ela vai ter uma fala no auditório. A fala no auditório vai ter que ser um momento em que todo mundo vai estar…

Luciano Pires: Sim, tem coisas que não vão mudar jamais. Eu estou relacionando com você, dois seres humanos. Eu tenho regras que eu não vou poder jamais ultrapassar. O que você está colocando, cara, é o mais puro conceito de integração, de diversidade. Que a gente ouve diversidade como uma bandeira progressista, que, de certa forma, como ela é colocada hoje, ela meio que exclui. Eu uso a diversidade como uma ferramenta de exclusão.

Doug Alvoroçado: A galera da diversidade são os mais preconceituosos que eu conheço. São os mais preconceituosos que eu conheço. Porque diversidade só serve se você é igual a mim. Se você é igual a mim nós somos diversos. Eu não entendo isso. Eu acho que a galera que prega a diversidade, que luta pela diversidade tem que entender que o cara que está reclamando a diversidade, ele tem o direito de existir. Porque ele não acredita na diversidade. Então, ele, de repente, tem um discurso que fala contra mim. Cara, ele é um ignorante. Ele vai aprender. Eu que conheço a diversidade, que prego a diversidade, não posso ir contra ele. Porque ele tem o direito de existir. Eu vou negar esse direito? Quem luta pela diversidade, não pode negar o direito do outro, de existir. Óbvio, tem coisas que eu tenho que lutar contra. Claro, óbvio. Mas essa galera da diversidade, a galera da lacração, são os mais preconceituosos que existem. Não se preocupa não. A galera é terrível.

Luciano Pires: Sim, sim. Eu já tive aqui, eu trouxe pessoas aqui, o LíderCast número 100, com a Neide, que é uma história fabulosa. Que tem muita coisa parecida com você, na medida em que ela está quietinha, fazendo acontecer no mundinho dela. Um dia aparece um prêmio da Nike. Ela se inscreve sem nenhuma pretensão e pum, ela ganha o prêmio. E aquilo traz para ela uma visibilidade brutal. Eu imagino que em certa medida, isso tenha acontecido com você?

Doug Alvoroçado: Sim, sim.

Luciano Pires: O que rolou? Eu quero saber a história assim, do garoto lá no Complexo do Alemão, entendeu, numa escola municipal. Que eu imagino que não seja uma escola…

Doug Alvoroçado: Ricona.

Luciano Pires: Ricona, brilhante. Não é, cara. Ali o que é? Você está numa comunidade que é uma comunidade que não está na ordem do dia. E ali começa a fazer a coisa acontecer. E dali você começa a surgir, para se transformar num Google Innovator.

Doug Alvoroçado: Isso aí.

Luciano Pires: Como é que isso começa a refletir na tua vida?

Doug Alvoroçado: Então, como eu falei lá no começo: eu sempre gostei muito de ajudar, de dar aula, de ser professor, essas coisas. Então, eu entendo. O Doug entende que tem muita gente que tem medo. O robô vai substituir o professor. A internet vai substituir o professor. Eu costumo dizer o seguinte: o professor nunca vai ser substituído pela máquina. Mas um professor que domina a máquina vai substituir um professor que não domina. Então, eu acho que o professor… eu quero ser essa pessoa que vai estar update com a realidade. Então eu quero ser aquele cara que aprende, que busca conceitos. Ele vai chegando lá. Então eu construo a minha carreira mirando o futuro, mirando o que eu posso contribuir. Você falou da sua palestra lá, que você está pensando tanto tempo, lá no futuro, na frente. E eu estou aqui pensando: cara, qual é a tendência de 2030. Porque de 2020 já chegou. E a gente começa a buscar isso. E eu sempre militando na área da inclusão, que é uma área que eu sou apaixonado, principalmente a área da surdez. O Google, ele me permitiu conhecer muita gente, aprender muita coisa e me dá experiências, para eu poder não só ensinar muitas coisas, como também aprender muita coisa. Conhecer muita gente, conhecer muitos lugares. E poder botar para fora. E poder ter ideia, aplicar na minha sala de aula. Sendo esse professor pesquisador lá, que usa o chão da sala de aula como laboratório. [inint 01:07:24] eu fiz, deu certo. Faz assim. Beleza. Tenta desse jeito. Beleza. Só que eu ainda era um professor com muito medo. Ia dando aqueles passinhos. Quer dizer, empreendia dentro da minha área, assim, muito com uma segurança. Um belo dia, catando na internet, recebo também um edital da Fundação Lemann com a Universidade de Columbia procurando empreendedores. Empreendedores que vão empreender na área da educação. Eu falei: esse com certeza não sou eu. Porque o empreendedor, eu imagino que é um empresário, um cara que vai tirar dinheiro do bolso e vai contratar uma equipe. Isso por ser um cara de uma criação mais humilde, você não tem acesso a isso. De onde eu venho empreendedorismo era uma coisa que não existia. Hoje já existe, graças ao bom Deus. Mas muita coisa não chegava lá. E aí eu vou lendo o edita. Leio, releio. Eu falo: cara, mas isso é para mim. E eram três temas: inclusão, engajamento dos pais na educação dos filhos e [inint 01:08:40] adequação idade/série. Alunos que tem defasagem em idade/série. Falar sobre esses três temas. E o objetivo do programa, chamado Desafio Start-Ed, era pegar esses professores. Montar um time de professores empreendedores que iriam criar soluções de edtech, para resolver esses problemas. Eu falei: cara, eu estudei eletrônica. Eu sei alguma coisa de code. Mas assim, eu não sou um programador. Como é que eu vou criar uma edtech? Também me inscrevi muito assim: vou fazer, sabe? Porque eu aprendi assim: vou deixar os outros dizerem se eu sou bom ou não. Eu vou me inscrever em tudo. Se o outro achar que eu sou bom ele me aprova. Se ele não achar que eu sou bom, não me aprova. Pronto. Me inscrevi, muito também igual ao Google: não vou ganhar. Mas beleza. E aí sou contemplado para participar desse desafio. E os primeiros 11 dias desse desafio é em Nova Iorque, na Universidade de Columbia. E eu piro na batata. Eu falo: cara, eu vou para Nova Iorque, vou para a Universidade de Columbia.

Luciano Pires: Foi um grupo?

Doug Alvoroçado: Foi um grupo de professores aqui do Brasil. Foram para lá, estudar 11 dias lá, sobre empreendedorismo. Aprender um pouco, para poder criar uma edtech. Aí montou-se o grupo com 2 brasileiros e 4 estudantes da Universidade de Columbia. E montamos um time para prototipar soluções para resolver esse problema. E ao final existiria uma premiação. E eu fui contemplado, depois de sete meses de processo todo. Eu fui o finalista. Ganhei a premiação. Eu com o time, obviamente. E agora eu sou empreendedor. Agora eu sou CEO de uma empresa, que chamada Olhares, que é uma empresa de edtech, é minha plataforma em si, ela faz personalização de currículos para inclusão. A gente tem um currículo cadastrado. E à medida que eu vou dizendo da deficiência, da experiência, de como o aluno aprende. Se ele é visual, se ele é cinético, na-na-na, ele vai adequando o currículo e vai propondo atividade, vai montando atividades e o aluno vai fazendo isso e ele vai atingindo objetivos, ele vai passando para novos objetivos. Então, eu personalizo todo o processo. Eu vou adequando o currículo para esse aluno.

Luciano Pires: O teu cliente são as escolas?

Doug Alvoroçado: Sim. Na verdade, eu ainda estou testando o protótipo ainda.

Luciano Pires: Mas então, o teu cliente vai ser isso. Uma escola vai te chamar e vai falar: eu quero que você pegue o meu currículo e…

Doug Alvoroçado: É. hoje o meu cliente, eu estou mirando na educação pública, porque é onde está a galera que precisa. Essa galera da inclusão mesmo. Em escolas particulares têm muita gente precisando de currículo adequado, mas ainda é um grupo menor. Então, eu quero ver se eu faço isso. Óbvio que eu vou atacar os dois lados. Mas assim, se eu pudesse que um pagasse pouco ou ganhar de graça, seria o mundo ideal. Mas o meu cliente seria a escola pedindo uma adequação de currículo. Nessa plataforma eu consigo dar acesso ao terapeuta do menino, ao menino, se ele puder. Se ele puder contribuir com o próprio currículo dele. Eu quero aprender agora jardinagem. Ele poder colocar isso e a plataforma vai entender e vai trazer o acesso disso para ele aprender. Essa escola, por exemplo, que o aluno está livre da grade curricular, ela pode montar uma trilha de aprendizagem, que o aluno pode ir seguindo. Na escola academia, por exemplo, ele vai chegar lá e o programa vai dar para ele a série do dia: olha, hoje você vai fazer isso, isso e isso e aquilo e vai atingir esses pontos. Vai conseguir esses objetivos e vai, vamos dizer, mudando de fase. Meio que gameficando o currículo e transformando a experiência da escola numa coisa mais fluida, vamos dizer assim.

Luciano Pires: Eu acho que o desafio agora vai ser fazer o MEC entender isso.

Doug Alvoroçado: Não. Já me xingaram. Já me bateram. Bateram não. Já me xingaram. Eles falaram: você é louco. Não mano, o que é isso? Não, você quer mudar o mundo. Você quer fazer… não, quero. Quero mesmo. Pode gritar, pode falar mal. Agora que eu sou abusado então. Antes eu não era. Agora eu sou abusado. Agora eu chego onde eu quero. Falo mesmo, entendeu? Agora eu estou empoderado. A palavra é empoderado.

Luciano Pires: Sim. Na minha palestra do Everest eu abro assim, dizendo que o louco que acha que pode mudar o mundo é o cara que muda o mundo. Porque se você acha que não vai mudar, não vai mudar. Então, esse é o louco que me interessa. É o que chega aqui se achando. Eu vou mudar o mundo. Esse é o cara que muda. E acho que esse caminho é irreversível. O que nós temos que fazer mais é dar cada vez mais visibilidade para que as pessoas entendam que isso existe. E em parte, esse é o papel desse programa aqui. Que é pegar gente como você e falar: moçada, olha que coisa interessante. Eu estou na confiança que agora, que tem alguém ouvindo a gente lá no Tocantins, cara. Lá não sei onde, tem a sua escola e fala: cara, espera um pouquinho. Como que é esse negócio do Google? Deixa eu ver como que é isso aí. E, de repente, a partir de carregar essa informação de lá para cá a gente começa a disseminar. Que eu acho que é um papel social que é desempenhado por um programa como esse que eu faço aqui. É pegar o teu papel social e disseminá-lo para que mais gente possa ter contato. Meu caro, me diga uma coisa aqui, você… eu estou vendo que esse teu projeto aí, ele é ambicioso. Deixa eu te falar uma coisa interessante: eu fui fazer uma vez um evento. E uma das palestrantes foi a Viviane Senna. E a Viviane subiu e apresentou características do Instituto Ayrton Senna, que é um baita empreendimento voltado para a educação. É um negócio muito legal. E ela num momento, falou um negócio lá que chamou muito a minha atenção, que eu acho que até eu falei uma vez num programa aqui, que ela disse o seguinte, ela falou: olha, a gente tem um projeto de educação muito evoluído, que quebra muitas barreiras que estão aí. mas é uma coisa que tem que ir devagarinho. Então nós fizemos um teste. Ela mostrou o teste lá. Nós pegamos um estado. Eu não me lembro, foi um estado pequeno, não sei se foi… foi lá no Nordeste. Pegaram, praticamente fecharam, isolaram o estado e fizeram dentro dele uma aplicação da metodologia que eles queriam lá, com resultados muito legais no estado. E ela falou, cara: deu muito certo. Ela falou. Só que o Brasil tem um problema, cara. O Brasil não consegue combinar qualidade com quantidade. A gente consegue qualidade em ilhas de excelência. E a hora que a gente pega isso aí e vai tentar ampliar, tudo se perde. Aí aparece ineficiência, incapacidade, corrupção. A gente perde a chance de fazer tudo. Então, quando eu participei desse evento – cara, isso eu acho que tem quase 20 anos, que eu estive nesse evento com ela – quando eu ouvi ela falando aquilo lá, eu falei: cara, quem está falando para mim não é o Zé Mané da esquina, é a Viviane Senna, à frente do Instituto Ayrton Senna. Cara, com nome, com grana, com poder, com capacidade. Ela chega e reconhece: nós não temos como fazer com que o Brasil entenda que qualidade e quantidade possam conviver. Quando eu converso com você hoje, 20 anos depois e começo a ver, cara. Não é a mais a Viviane Senna. Agora é o Doug. Agora, o Doug me falou que tem mais 80 parecidos com ele no Google. Eu acho que se for no Facebook deve ter mais 80. Se for não sei onde, tem mais 100, tem mais 50. Então, aquilo que representava a grande força do Instituto Ayrton Senna, centralizado, está implodindo em pedacinhos. E eu vou falar para você uma coisa que eu escrevi outro dia aqui. Eu estava falando de mídia. Eu falei o que está acontecendo com a mídia. Esses dinossauros tipo Rede Globo, Editora Abril, isso está quebrando tudo. A Abril já foi. A Globo vai. É questão de tempo. Vai implodir aquele negócio. Porque não há dinheiro no mundo que justifique pagar aquela estrutura. Não tem como. E esse dinossauro está sendo implodido e está sendo substituído por velociraptors. O que são? São dinossauros menores, super ágeis. Esses caras têm uma velocidade brutal. Mas que já estão se achando. Facebook. Esses caras já estão se achando. Chegaram, estão tomando conta, estão se achando. Esses caras vão ser mortos por bactérias, que é o Doug. O que o Doug é? Ele é pequenininho. Ele tem toda a flexibilidade do mundo. Ele é rápido. Ele se adapta, ele sobrevive com pouco recurso. E ele causa onde ele aparece ali. E quando juntar esse monte de bactéria, destrói qualquer organismo. Eu acho que isso é uma questão de evolução. Então, aquela ideia de que aquele grande organismo centralizado, tomando conta, fazendo acontecer, aquilo é implodido e é substituído por milhares de Dougs Alvoroçados, que cada um fazendo o seu pedacinho, aquilo vai juntar numa coisa. E o grande desafio é como que isso, esses mil Dougs se conectam nessa rede e fazem com que aconteça alguma coisa que é caótica. Que ela é. E não tem como botar ordem nisso. Se eu botar ordem, eu vou botar você numa caixa e acabou. Como que a gente faz para esse caos? Eu acho que isso é fascinante, cara. Nós estamos caminhando para um momento que o caos é parte do fazer acontecer. Se você elimina o caos, você não tem isso que você está fazendo hoje. Sem caos ele não funciona.

Doug Alvoroçado: Exatamente. Eu acho que assim, a tecnologia permite que as redes se conectem. Eu conheço a galera do Google, mas tem a galera do 40 Anos de Saberes, tem a galera da Rede de Aprendizagem Criativa. Tem professores que estão empreendendo lá, pequenininho. Uma professora que eu conheci: olha, eu estava sozinha, achando que eu era maluca na minha sala de aula, ouvindo os outros professores me xingarem. Aí eu encontro vocês, eu descubro: cara, eu sou do mesmo planeta que vocês, eu estou perdida aqui. E foi essa a sensação quando eu encontrei. Eu falei para ela assim: a sensação que eu tive é que eu estava no planeta errado. Eu era o patinho feio. Mas aí eu vi, eu não sou desse planeta, cara. Eu sou daquele. Por isso que eu sou assim. Então, essa galera se conecta e essa sinergia está acontecendo. As bactérias estão se pulverizando e a gente está contagiando outras pessoas. E esse professor que antigamente ele estava ali, me xingando, ele já está falando assim: cara, mas isso aqui também me facilita. Então ele não é um expoente. Mas ele já está começando também a mudar um pouco. E agora tem o cara que está reclamando. Um cara que está: não, mas isso está me dando mais trabalho. Mas isso vai mudar tudo. E não vai mudar. E tem que ser assim. Não pode ser assim, tem que ser pensado. E aí esse cara, ele está passando o tempo dele. Ele vai se aposentar.

Luciano Pires: Ele vai sair.

Doug Alvoroçado: Ele vai mudar de carreira.

Luciano Pires: Ele vai ser atropelado.

Doug Alvoroçado: Ele vai ser atropelado. E está vindo uma galera por trás aí, com sangue nos olhos. Então essa rede é a nossa força. A nossa força é eu pegar o meu celular. Chegou um momento da nossa rede que a gente quase enlouqueceu. Porque tudo é muito interessante. Robótica é muito interessante. Programação é muito interessante. Empreendedorismo. Tudo, tudo, tudo é muito interessante. Então eu queria aprender a ser programador, mas eu queria fazer robótica. Eu queria aprender isso, queria aprender aquilo. Todo mundo queria aprender tudo. Todo mundo queria aprender tudo, tudo, tudo. E a gente começou a enlouquecer, porque não dá tempo. Não dá conta de acompanhar. Então eu falei: gente, vamos fazer o seguinte? Cada um fica no seu nicho. Eu fico na inclusão, você fica na matemática, você fica no empreendedorismo, cada um fica nisso e a gente se conecta. Quando eu preciso de alguém da área, cara, eu preciso de alguém de inclusão. Liga para o Doug. Eu preciso de alguém da área da robótica, preciso de alguém de programação, ligo para a Soraia. Então aí cara, a gente ganhou muito mais força. Porque você fica específico na sua área, aprende mais, consegue trabalhar melhor. Óbvio, vai sempre ensinando alguma coisa para a galera. Mas eu não fico com aquela doideira de aprender tudo.

Luciano Pires: E aí você tem um organismo que é adaptável e… muito legal.

Doug Alvoroçado: Exatamente. Eu com você temos uma força. Eu com ele, temos outra força.

Luciano Pires: Sem dúvida.

Doug Alvoroçado: E nós três fazemos outra coisa diferente. Então essa rede é a nossa força. Isso para mim é a tendência de 2030. É o que você falou: as escolas vão começar a deixar de ser grandes – como que eu vou dizer assim? – grandes placas, grandes sistemas de ensino. Para serem iniciativas de professores empreendendo. Aí você: vamos empreender aqui com esse aluno. Esse aluno vai produzir isso aqui, aquele ali. E a escola vai ser um lugar, vai ser a congregação onde esses pequenos projetos vão eclodir e vão…

Luciano Pires: E o drive não é o poderoso empreendedor sentado no seu escritório na Paulista. É o Doug na Cidade de Deus.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: Você falou um negócio, agora que eu lembrei, que você estava falando, que você teve contato comigo em 2004. Naquele livro: Brasileiros Pocotó. Eu tenho um texto que eu falava, naquela época, eu dizia o seguinte: olha, hoje em dia, quando uma criança entra na escola para ser alfabetizada, ela já vem com 4 mil horas de televisão na cabeça. E ela chega, senta na sala de aula e o professor diz assim: vovô viu a uva. E eu dizia naquela época, cara: não dá, o moleque já vem com 4 mil horas onde tem de tudo. Tem de sexo a tecnologia, para um professor que vai falar: vovô viu a uva. Cara, trazer esse texto para hoje. Não são mais 4 mil horas de televisão, cara. Esses moleques chegam com 18 mil horas de mídia social, de aplicativo, de game. Cara, site pornográfico. Eles veem tudo. Olha a diferença dessa molecada. A matéria prima chega para você hoje.

Doug Alvoroçado: Eu costumo dizer que os meus alunos chegam na escola com mais informação que os meus avós tiveram a vida toda.

Luciano Pires: Eu não tenho dúvida.

Doug Alvoroçado: Ele chega na sala de aula, no primeiro dia, sabendo que ele gosta de Coca Cola, que ele quer isso, o que ele gosta, o que ele não gosta. Qual o tipo de menina que ele prefere ou não. Então ele chega. E aí se eu ficar nesse papel do cara que sabe as coisas, eu estou desesperado. Porque eles também sabem um monte de coisa.

Luciano Pires: Ele está em casa à noite, jogando um game, onde o companheiro dele está na Namíbia, outro companheiro está na Noruega e tem um cara da Austrália. Os quatro estão jogando.

Doug Alvoroçado: O meu professor de Minecraft, porque eu tenho um professor de Minecraft, porque eu não consigo. Tem 10 anos. Ele me ensina Minecraft.

Luciano Pires: Isso alguém comentou. Um negócio impressionante, nós estamos numa época da humanidade em que é a primeira vez na história que os netos ensinam avós.

Doug Alvoroçado: Exatamente.

Luciano Pires: Inverteu o jogo. Hoje neto ensina avô.

Doug Alvoroçado: É. Não, os meus alunos me ensinam muito.

Luciano Pires: É muito louco.

Doug Alvoroçado: Eles me falaram: você tem que jogar Fortnite agora. Eu: fort o que, gente? Já fui entrar no Fortnite para entender, para ver se dá para tirar alguma coisa legal para poder ensinar ou trabalhar isso de alguma maneira ou me divertir também, porque eu preciso. Então, eu tenho muito essa fala de… professor, você que está me ouvindo: saia do pedestal, cara. Você não é mais o cara que sabe. Você é o cara que ajuda. E se eu encontrar a importância real de ser esse cara. E não é, não estou me menosprezando, porque agora eu não sou mais o cara que sabe. Eu sou o cara que vai conduzir o aluno: olha, você sabe isso aqui, cara? Vamos juntar com isso aqui. Você vai usar isso aqui. Por que você vai aprender fração? Não é porque você vai fazer a prova. É porque isso vai ser útil para você aqui na frente. E vamos contextualizar isso? Vamos trazer isso para uma realidade nova? E vamos despreocupar com os rios, com as margens do Amazonas um pouco? Não precisa mais decorar isso agora que a informação está posta na internet. Eu ouvi uma frase, duas frases, há um mês atrás, de uma pessoa que participou da minha banca de mestrado, que eu perdi o chão naquele dia. Eu já era um diferentão, eu falei: não, tem que mudar. Ela falou assim: se você faz perguntas que a resposta é sim ou não, a sua pergunta está errada. Segundo: se você faz uma prova que as respostas estão no Google, a sua prova está errada. Eu falei: cara, eu vou ter que refazer todas as minhas provas da vida. E olha que as minhas provas nem são assim, elas já são mais diferentonas. Mas eu fiquei, eu comecei a olhar e falei: cara isso aqui? Por que eu vou perguntar isso aqui. O cara vai lá e pesquisa no Google.

Luciano Pires: Eu não quero ver. Eu quero saber o teu raciocínio, cara. Eu quero saber a tua capacidade de raciocinar. E não a resposta definitiva. Tem até umas histórias legais, as perguntas que o cara fazia, que não tinha resposta a pergunta. Mas que pergunta maluca. Ele falou: não, bicho, eu estou interessado em saber teu raciocínio. Tem um texto muito interessante, que era isso, o cara ia fazer uma prova, uma coisa assim. E o cara fazia uma coisa absurda, tipo assim: você tem um copo com um pouco de água dentro. Eu quero que você use esse copo para medir a altura de um prédio, daquele prédio lá. Como que você faz para medir a altura? Cara, qual é a altura do prédio? Não tinha o menor sentido. E na verdade, o que o cara estava buscando é o seguinte: qual foi o caminho que você usou para tentar encontrar a altura? Aí a altura do prédio não tem a menor importância. O que tinha importância: deixa eu ver que raciocínio esse cara usou. O cara falou o seguinte, eu vou soltar o copo lá do alto. Eu meço o tempo que o copo leva para cair no chão. Eu sei a velocidade, eu calculo a altura. E o outro vem e fala: não, eu vou subir com o copo na mão, eu jogo a água. Então, eu vou botar um copo em cima do outro, eu vou medindo. Quer dizer, eu quero esse raciocínio. Eu não quero o fato pronto. Porque o fato pronto está no Google. Cara, que grande papo, bicho.

Doug Alvoroçado: Verdade.

Luciano Pires: Que delícia. Meu caro, quem quiser conhecer o Doug Alvoroçado, como é? Me dá os caminhos aí, onde que eu vou achar você?

Doug Alvoroçado: É só você procurar Doug Alvoroçado em qualquer rede social.

Luciano Pires: É Doug? D, O, U, G?

Doug Alvoroçado: D, O, U, G. Alvoroçado com cedilha. No Twitter, no Facebook, no Instagram, no Facebook. Todas as redes sociais eu estou lá, no Youtube. Só procurar Doug Alvoroçado. Pode mandar e-mail, entrar em contato comigo, falar, que eu estou à disposição para trocar ideia, para a gente produzir junto.

Luciano Pires: Você tem blog, você tem alguma coisa assim? Você tem um lugar que você está depositando esse teu conhecimento?

Doug Alvoroçado: Na minha page do Facebook, é onde eu faço uma curadoria de conteúdos e de conhecimento, de frases, coisas que eu leio e de lugares que eu estou indo. Lá na fanpage do Facebook. E aí isso replica para o Instagram. Mas por ali você vai ter. Vai estar update comigo. E qualquer coisa, manda um xingamento lá, que eu respondo.

Luciano Pires: Vem um livro por aí, um e-book, vem alguma coisa por aí?

Doug Alvoroçado: Vem um e-book. Mas mais voltado para professores, de coisas que eu… a minha pesquisa de mestrado foi sobre o que já existe de tecnologia na escola municipal e o que já tem gente fazendo.

Luciano Pires: Legal.

Doug Alvoroçado: Porque eu estou cansado desse discurso: não tem. Não, é pobre. Mas eu faço. Então, alguém está fazendo também. Tem uns doidos fazendo. E aí eu coletei isso que já tem, que já está sendo feito e compilei isso num produto, no meu mestrado. Foi aprovado agora. Agora eu sou mestre, desculpa galera. E aí isso vai ser publicado agora.

Luciano Pires: Como que você assina a tua tese? Como Doug Alvoroçado?

Doug Alvoroçado: A tese está como Douglas Neves, só por causa da biblioteca. Aí Douglas Neves, vulgo… não, é…

Luciano Pires: AKA.

Doug Alvoroçado: AKA, Doug Alvoroçado.

Luciano Pires: AKA é Also Known As. Também conhecido como Doug Alvoroçado.

Doug Alvoroçado: Exatamente, Doug Alvoroçado. Já tem várias citações, Alvoroçado, Doug.

Luciano Pires: Isso dá um personagem de história em quadrinho, isso dá um mangá maravilhoso.

Doug Alvoroçado: Dá mesmo. Mas eu sou meio esse personagem. Mas na verdade, eu quero ser isso. Eu quero ser mais isso do que uma pessoa real chata. Mas aí sai uma coisa e aí vamos ver o que o tempo vai dando. Se o doutorado que eu pretendo fazer o ano que vem não me matar, vem um livro por aí, alguma coisa.

Luciano Pires: Mas legal, cara. Bicho, seja bem-vindo, viu?

Doug Alvoroçado: Muito obrigado.

Luciano Pires: Muito legal o papo. Valeu. Adorei saber esse teu… eu não quero perder contato não. Por favor, vamos manter aí. Eu tenho uns canais aí que vão saber valorizar muito esse trabalho que você está fazendo aí. E parabéns, cara. Que inveja dessa molecada da Cidade de Deus ali.

Doug Alvoroçado: Alemão.

Luciano Pires: Cidade de Deus. Complexo do Alemão. Que tem… eu vou pegar de novo. Depois eu faço aqui. Meu, que inveja dessa molecada do Complexo do Alemão, que tem a chance de estar tocando em você, entendeu? Não está vendo só por uma tela, mas está lá do teu lado e pegando um pouco dessa energia boa aí, bicho.

Doug Alvoroçado: Eu que pego energia com eles.

Luciano Pires: Isso mesmo, bem-vindo, cara.

Doug Alvoroçado: Muito obrigado. Para mim é uma honra estar aqui com você, mano. Você é demais. Acompanho. Troco muita ideia com você, sem trocar ideia. Agora pessoalmente.

Luciano Pires: Maravilha. Um abraço, cara.

Doug Alvoroçado: Abração. Obrigado.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa, você encontra no LíderCast.com.br. Para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo cafebrasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LíderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos. Lembre-se: cafebrasilpremium.com.br. Essa temporada chega a você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com.br.

Locutor: Você ouviu LíderCast, com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

 

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