Lidercast
Brazilian Rhapsody
Brazilian Rhapsody
O pessoal da Chinchila fez uma paródia de Bohemian ...

Ver mais

O Guia do Anunciante em Podcasts
O Guia do Anunciante em Podcasts
O Guia do Anunciante em Podcasts traz informações ...

Ver mais

Bandidos Na TV
Bandidos Na TV
Assisti Bandidos Na Tv, nova série na NetFlix, que ...

Ver mais

1964 – O Brasil entre armas e livros
1964 – O Brasil entre armas e livros
Um documentário para ser visto como outro ângulo pelo ...

Ver mais

682 – LíderCast 13
682 – LíderCast 13
É isso que é o LíderCast. Uma homenagem a quem ...

Ver mais

681 – Agrotóxicos: remédio ou veneno
681 – Agrotóxicos: remédio ou veneno
Agrotóxicos surgiram na Segunda Guerra Mundial, para ...

Ver mais

680 – Nova Previdência 2
680 – Nova Previdência 2
A Nova previdência é o primeiro passo para colocar o ...

Ver mais

679 – Será que acordamos?
679 – Será que acordamos?
Adalberto Piotto apresenta o programa Cenário Econômico ...

Ver mais

LíderCast 169 – Marília Guimarães e Eduardo Dantas
LíderCast 169 – Marília Guimarães e Eduardo Dantas
Marilia Guimarães e Eduardo Dantas – a dupla ...

Ver mais

LíderCast 168 – Pedro Hipólito
LíderCast 168 – Pedro Hipólito
CEO da Five Thousand Miles, empresa portuguesa que se ...

Ver mais

LíderCast 167 – João Kepler
LíderCast 167 – João Kepler
Especialista em empreendedorismo, startups, marketing e ...

Ver mais

LíderCast 166 – Juliana e Abbey Alabi
LíderCast 166 – Juliana e Abbey Alabi
O Abbey é um imigrante africano, que chegou ao Brasil ...

Ver mais

Cafezinho Live – Como será o Brasil com Bolsonaro
Cafezinho Live – Como será o Brasil com Bolsonaro
Um bate papo entre Adalberto Piotto, Carlos Nepomuceno ...

Ver mais

046 – Para quem vai anular o voto
046 – Para quem vai anular o voto
Fiz um vídeo desenhando claramente o que acontece com ...

Ver mais

Confraria Café Brasil
Confraria Café Brasil
A Confraria Café Brasil nasceu para conectar pessoas ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 10 - Hábitos ...

Ver mais

Por que Bolsonaro exagera?
Fernando Lopes
Iscas Politicrônicas
Como se já não enfrentássemos todos os problemas possíveis – e mais uns imaginados – Bolsonaro parece se esforçar para piorar os reais e parir os imaginários. Por qual razão o ...

Ver mais

TRIVIUM: CAPÍTULO 3 – CARACTERÍSTICAS GRAMATICAIS DOS SUBSTANTIVOS (parte 3)
Alexandre Gomes
Até agora mostrei maneiras um pouco diferentes de se ver um SUBSTANTIVO. Usando um tanto de Lógica e  Filosofia para explicar SUBSTANTIVOS e ADJETIVOS. E só para te lembrar: toda a Realidade é ...

Ver mais

Viva Narciso
Jota Fagner
Origens do Brasil
A nossa vaidade nos impede de construir um ambiente mais tolerável A palavra “insentão”, popularizada nos últimos anos, serve para classificar a pessoa que não se deixa iludir pelo canto da ...

Ver mais

O hábito da leitura e seu impacto no desenvolvimento
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
O hábito da leitura e seu impacto no desenvolvimento  “A leitura é a chave para se ter um universo de ideias e uma tempestade de palavras.” Eduarda Taynara Gonçalves Pereira  (ex-aluna da EEEP ...

Ver mais

Cafezinho 211 – O crítico e o criativo
Cafezinho 211 – O crítico e o criativo
Basta uma olhada nos jornais televisivos diários para ...

Ver mais

Cafezinho 210 – Gosto médio
Cafezinho 210 – Gosto médio
Vida em sociedade implica no exercício diário da ...

Ver mais

Cafezinho 209 – Sobre fatos e desejos
Cafezinho 209 – Sobre fatos e desejos
Quem mostra a você o ato, conclui a intenção e sonega a ...

Ver mais

Cafezinho 208 – O Mas
Cafezinho 208 – O Mas
Preste atenção em quem usa o “mas” como desculpa ou ...

Ver mais

LíderCast 156 – Karina Oliani e Carlos Morey

LíderCast 156 – Karina Oliani e Carlos Morey

Luciano Pires -
Download do Programa

Este programa foi um Café Brasil lançado em 2014, antes da criação do LíderCast. De lá para cá a Karina subiu o Everest mais uma vez e se transformou numa sensação do cenário da aventura, com seus documentários sensacionais. O Morey? Continua viajando pelo mundo, agora casado e trabalhando em outros empreendimentos, mas sempre inquieto.

Muito bem, o programa de hoje é mais do que especial. Eu trago duas pessoas que estão conectadas a mim, por algo que eu amo cara, e eu não vou nem enrolar, sabe? Vamos direto para o assunto. Muito bem, eu tenho hoje diante de mim, duas pessoas especiais. Aliás, nós três temos algo que nos une, né? E esse algo que nos une, é um negócio muito especial que é simplesmente a maior montanha do mundo, o Evereste, né, o nosso Everest. Quem me ouve no Café Brasil aí há tantos anos, já sabe da minha história, sabe que essa foi uma viagem que foi um divisor de aguas na minha vida. Muito do que eu fiz depois que eu voltei do Evereste, foi impactado por aquela capacidade que eu tive de realizar uma coisa que era praticamente impossível, para alguém nas condições que eu tinha na época. E eu tenho tratado do Brasil de uma forma bastante específica nos últimos meses. Tenho falado bastante de capacidade de fazer acontecer, da necessidade de mudar o Brasil, tenho trazido alguns convidados aqui. Me lembrei de duas pessoas, o Morey, Carlos Morey, que eu conheço desde o ano 2000, que na verdade é um dos responsáveis por eu ter feito a minha viagem ao meu Evereste. E a gente acabou construindo um laço de amizade que perdura até hoje. Na hora de eu pensar nisso, imediatamente veio o Morey a minha cabeça, né? E a convidada, né, é a Karina Oliani, que simplesmente acaba de retornar do Everest. Quanto tempo faz, Karina?

Karina: Foi em maio, dia 17 de maio.

Luciano: 17 de maio. Então tá fresquinho, né. Não deu 1 ano ainda, acabou de voltar do Evereste, e a Karina chegou no topo do Everest. Então vamos lá. Vocês têm aqui hoje ouvindo, Luciano Pires, com 5.700 metros de altura. Carlos Morey com?

Carlos: 8.400.

Luciano: E Karina Oliani, com?

Karina: 8.848. 850, se tiver neve.

Luciano: 3 málicos.

Carlos: Clássicos, 8.848.

Luciano: Exatamente.

Carlos: Mas avançados, 8.850.

Luciano: Isso aí. 3 malucos que foram para a montanha mais alta do mundo. Cada um, pela sua vontade, pelo seu desejo, né? Então nós vamos trocar uma ideia aqui hoje, sobre essa coisa dos sonhos impossíveis, dessa loucura de colocar a vida em risco, etc. e tal. E o pano de fundo, exatamente essa coisa da capacidade de sair para fazer acontecer alguma coisa. Então, vamos as apresentações de praxe. Primeiro, eu vou deixar a dama para o final, porque ela chegou mais alto, tá certo? Primeiro, Carlos Morey. Quem é Carlos Morey, idade, onde que você trabalha, qual é a sua?

Carlos: Bem, Carlos Morey, 48 anos. Formado em ciência da computação na Unicamp. Há 25 anos e 2 dias na HP, como analista, consultor da área de serviços. Mais recentemente, como gerente de alianças, que basicamente a ideia é alavancar com as parcerias Microsoft Sapeur, que a HP consegue capitalizar com essas grandes empresas.

Luciano: E nas horas vagas, se enfia nos buracos mais fundos, e nos picos mais altos do mundo. É isso?

Carlos: Graças a Deus, porque a gente procura um balanceamento entre a vida profissional, e a pessoal. Então quanto mais a gente desenvolve nossas aspirações, nossos hobbies, mais prazer a gente tem até com o trabalho. Eu também tenho um conjunto de palestras, que eu tento vincular o que eu faço na HP, que é projetos, que lida com riscos, com planejamentos, com o que a gente encontra também, por exemplo, na montanha. As dificuldades, como que a gente trabalha com ela, como a gente trabalha em time, como a gente exerce a liderança, pata que como no trabalho, no hobbie, a gente atinja os nossos objetivos.

Luciano: Qual foi a sua última loucura, por favor?

Carlos: A minha última loucura, foi no ano passado, foi fazer uma trilha ao sul da Patagônia, onde o continente americano acaba.

Luciano: Dentes de Navarino?

Carlos: E Dentes de Navarino, foram os dois. Um chama Cabo Froward, que é o ponto ainda no continente americano, onde temos o Pacífico e o Atlântico, divisão onde em 1521, o Fernando de Magalhaes encontrou o oceano Pacífico. E depois eu voei para Navarino, que é uma ilha no Chile, e lá eu fiz uma trilha que chama Dentes de Navarino, 4 ou 5 dias, lugar também bastante especial.

Luciano: Qual a próxima loucura?

Carlos: A minha próxima loucura, to indo para o Equador. Então, to pensando em dar umas visitadas em alguns vulcões, como Chimborazo, Topaz, agora no carnaval. Eu vou soltar os blocos na rua, no vulcão. Segundo um livro antigo que eu estudei na sexta ou sétima serie, dizia que o Chimborazo, era a maior montanha da Terra. Porque em relação, por estar próximo ao Equador, em relação ao centro da Terra, ele conseguia ser mais alto do que o Evereste.

Luciano: Tirando um raio do sul da Terra, até a ponta dele, ele é mais alto que o Evereste.

Carlos: É. Vou levar minha trena, ver se isso é verdade.

Luciano: Legal. Karina Oliani. E aí Karina, me conta a história.

Karina: Bom, primeiro lugar é um prazer estar te conhecendo, porque eu só ouço, em todos os cantos que eu vou, Luciano, a palestra dele é demais, o livro dele é incrível. Então, muito legal estar aqui pessoalmente conversando com você. E nossa, Evereste é um sonho antigo. A primeira vez que eu fui para o Nepal, foi em 2009, né, com a Dani Monteiro, uma amiga minha. Ela fazia extremos no Multishow, e a gente foi juntas até o acampamento base, em uma trilha que durou 10 dias, que viraram vários documentários para o Multishow. Em 2010 eu tinha me formado médica, como a primeira medica da América Latina, com especialidade um pouquinho diferente. Que até então no Brasil, o papel servia para rascunho, porque ninguém conhecia, pouca gente ainda conhece, chama wilderness medicine, que é medicina de emergência e resgate em áreas remotas. E dentro de medicina de áreas remotas, eu me subespecializei em medicina de altitude, que é medicina da alta montanha. Então em 2010 eu fui convidada por uma equipe de escaladores americanos. Eles me conheceram enquanto eu estava nos Estados Unidos estudando para ser a medica deles, e eu fiquei 4 meses no acampamento base, morando lá entre… fiquei muito mais tempo no Nepal, só que depois surgiu um outro trabalho para eu fazer no Tibet, eu ainda fui para o Tibet, fiquei mais 1 mês lá. E esses 4 meses olhando para aquela montanha todos os dias, e vendo todo mundo fazer o que eu adoro, que é se aventurar, escalar, e eu só ali, tratando diarreia, problema ocular, pneumonia, uma gripe aqui, uma tosse ali, uma hemorroida. Eu falei não, espera aí, um dia eu vou voltar, e eu vou subir. E esse dia demorou 3 anos, porque vocês sabem, não é nada fácil a gente conseguir realizar um sonho desse porte, mas agora eu to aqui para conversar, e comemorar com vocês.

Luciano: que ótimo. Você trabalha hoje fazendo o que, especificamente?

Karina: Eu sou médica.

Luciano: Onde tem essa especialidade, aqui na cidade de São Paulo? Aonde?

Karina: Olha, é engraçado, mas lá New Orleans, virou uma área remota quando o Katrina veio. Por que? Porque por definição, quando você não tem os recursos, os hospitais, os médicos, exames, as medicações, você já está trabalhando com a definição de wilderness medicine, que é a mesma da marinha americana. É adapt provise overcome.

Luciano: É você que está treinando os médicos cubanos então, que estão chegando aqui?

Karina: Não, não, não.

Luciano: Mandando os caras para o fim do mundo, né? Deve ser por aí a coisa.

Carlos: Mas eu acho assim, situações como alagamentos, desabamentos de encostas, deve ser situações…

Karina: Sim Carlos, não só isso. Por exemplo, trabalhos de plataforma, e o Brasil com esse litoral super extenso, com deserto, com selva, a gente tem… assim, a gente é o país para você fazer essa nova especialidade medica, que agora, com o presidente da ABMAR, que é Associação Brasileira de medicina de áreas remotas, esportes de aventura, a gente tá finalmente trazendo para o país.

Luciano: Que legal, está abrindo um campo novíssimo aí. E tá com tudo, porque acho que nunca se falou de esporte de aventura, como se fala hoje no Brasil. E eu não sei se tem outro lugar no mundo, com tanta multiplicidade de opções para você fazer um esporte de aventura, como tem o Brasil. E aqui não é nada ainda, né? É pouquinha gente que faz. A gente não conhece, não tem estrutura. O pessoal até brincou comigo, eu ia fazer lá o monte Roraima, e os caras me disseram. Falaram olha, prepare-se aqui, porque quando você for para Roraima, você está mais longe do que o Everest. Porque lá você tem todo recurso. A hora que você entrar para Roraima, 3 dias de caminhada, não tem o que fazer. Não tem helicóptero para buscar, não tem como recorrer, não tem o que fazer. Quer dizer, a coisa remota mesmo, né? Mas muito legal. Qual é a próxima… aliás, qual foi a última loucura? Foi Everest?

Karina: Não, eu acho que a última loucura foi esse final de semana.

Luciano: O que que foi?

Karina: Tentar fazer uma mudança em um final de semana. Essa foi a loucura.

Carlos: E você contratou algum sherpa para ajudar?

Karina: Não, eu fui sozinha, eu fui sozinha, eu moro no 21º, então… foi complicado.

Luciano: Mas acabou a luz. Não tem problema, você vai pôr escada na boa. Qual é a próxima loucura?

Karina: Ah, próxima loucura, em maio eu estou indo para o Alasca. Para o Denali.

Luciano: Vai fazer o Denali. Bom, para quem não sabe, o Denali é um dos 7 picos… existem em cada continente, tem seu pico mais alto. E os alpinistas que estão pelo mundo afora, existe um desafio básico dos alpinistas, que são os 7 cumes. Que é subir o pico mais alto de cada continente. Algumas pessoas já fizeram isso, outras estão próximas de fazer. O Morey já fez quantos?

Carlos: 6, dos 7.

Luciano: Qual falta?

Carlos: Everest.

Luciano: Ah verdade, foi por pouco. Isso, não vamos contar aqui agora, é verdade. Então o Morey para fazer os 7 picos mais altos do mundo, só falta o Everest. A Karina, está na trilha. Mas não é seu objetivo não, né?

Karina: Olha, eu to fazendo, mas é quase um hobbie. Eu comecei em 2009, to fazendo quando dá, quando surge a oportunidade.

Luciano: qual que você já fez?

Karina: Eu já fiz o Elbrus, mais alto da Europa.

Luciano: Na Rússia.

Karina: O Kilimanjaro.

Luciano: África.

Karina: O Aconcágua.

Luciano: Aqui, América do Sul.

Karina: O Everest.

Luciano: Ásia.

Karina: Agora o plano, é que dê para fazer em maio, o Denali.

Luciano: América do Norte.

Karina: Isso. E aí vai faltar o Vinson e Carstensz.

Luciano: Na Antártida.

Carlos: Deve ser uma viagem bonita essa. Uma viagem bonita.

Luciano: E você já fez.

Carlos: O McKinley, ou Denali, e o da Antártida, são montanhas lindíssimas. Vai guardar várias…

Luciano: Legal.

Karina: Você me dá dicas.

Carlos: Acho que é isso que é gostoso até desse hobbie, montanhismo. Não é uma competição. É uma troca de experiências, porque o objetivo é encontrar dentro da gente, a pessoa que é capaz daquele desafio. Não existe uma competição, nossa, quantas montanhas.

Luciano: Esse é um tema legal que eu quero destrinchar um pouquinho aqui, porque é difícil as pessoas entenderem o que que leva um maluco, uma louca, a arriscar a vida, etc. e tal, para subir uma montanha que é uma coisa absolutamente inútil. Não tem utilidade nenhuma. Subir uma montanha, e voltar para baixo, é inútil. Para que fazer isso? E as pessoas não conseguem entender. Eu, na abertura do meu livro Meu Everest, eu tenho um texto ali que foi dito por uma pessoa que estava lá fazendo a trilha, e que a gente acabou cruzando com ela várias vezes. Uma Uruguaia, que estava lá completamente fora de forma, e tudo mais. Mas ela tinha ido um ano antes, não tina conseguido, e voltou para fazer o campo base, Alicia Calheiros o nome dela, morava em Nova Iorque. E ela diz ali, que tentar explicar… que o Everest nos dá, nos coloca em um estado de consciência tão maluco, tão diferente, que é impossível explicar para quem não foi lá. Então, não dá para contar par quem não foi lá. E eu sempre digo para as pessoas, e falo olha aqui, no final da minha palestra. A maior frustração da minha vida, é tentar contar para vocês o que foi que eu vi lá. Eu posso pintar e bordar, eu poso trazer as fotos, subir na mesa, gritar, falar. Eu não consigo fazer nem de longe, que vocês imaginem o que foi que eu vi lá. Não tem como fazer, sem ir lá. Então explicar para alguém, que loucura é essa, é complicado. E eu uso também lá nosso amigo George Malory, né, que perguntado por um jornalista porque que você foi, ele falou, porque está lá. Para ele, bastante estar lá, para ele subir. Então eu queria bater um pouco nessa tecla… Ah, faltou uma pergunta aqui. Você é casado, filhos, alguma coisa assim?

Carlos: Solteiro, sem filhos. A busca de uma mulher que também compartilhe os mesmos sonhos.

Luciano: Quem sabe você vai achar em uma montanha, né. Uma sherpani. Karina?

Karina: Eu não sou oficialmente casada, mas eu já moro junto com Marcelo há 3 anos e meio, a gente já tem um relacionamento bem legal. E é uma pessoa que aceita com que eu tenha esse trabalho, como que a gente pode dizer, louco, apaixonado. Eu digo que eu não sou louca pelo que eu faço, eu sou uma apaixonada, porque é diferente. Eu planejo muito tudo o que eu faço.

Luciano: Então, são 3 condições diferentes. Eu fui para o Everest casado, com 2 filhos, uma filha de 9 anos, um filho de 15. Estava nos Estados Unidos, fazendo intercambio, eu com uma filha de 9 anos, e esposa. E quando eu fui para lá, eu era executivo de uma multinacional, sem nenhuma experiência, nada, nada. Nunca, não é que eu tinha ido e gostei, não. Nunca tinha feito nada, e resolvi fazer, e começar pela trilha do Everest. Então, foi uma condição bastante única, porque eu tinha mil contas a prestar. Estava botando em risco, o patriarca da família, digamos assim.

Carlos: Você já contou nos seus programas, o que que você fez comigo? Por exemplo, quando você me convidou a noite para comer uma pizza na sua casa.

Luciano: Então, o que aconteceu foi interessante, porque quando eu comecei a mexer nesse projeto todo, então começa aquela história, vamos entrar na nossa batidinha aqui. Que é fixar um objetivo, e agora eu to falando, você que está me ouvindo aqui, esqueça a montanha. No nosso caso aqui, o pano de fundo é uma montanha. Eu não sei qual é seu objetivo, você deve ter o seu Everest, não me importa qual é. Eu não quero saber se é casar, comparar casa, morar nos Estados Unidos, virar presidente da empresa, não me importa nesse momento. Importa que você deve ter um objetivo maluco, tão maluco, que você considera ele um sonho que ele está guardado lá. O meu, naquela época, no ano de 2000, era ir para o Everest. Eu não tinha nenhum conhecimento a respeito, e a primeira coisa que surgiu quando eu tomei a decisão que ia para lá, foi o tremendo medo de que eu ia morrer na montanha. Principalmente, porque eu não tinha nenhuma, nada forma física, completamente fora. Falei cara, eu vou querer subir aquele negócio, vou morrer na subida, né? E a primeira busca minha, foi uma busca de tentar entender o que estava acontecendo, onde eu ia me meter, e conhecer um pouco a respeito. Fui procurar. Cheguei por intermédio de conhecidos a um grupo de discussão na internet. Coloquei ali um pedido de ajuda, e os pedidos começaram a chegar. Um dos primeiros que chegou, foi o e-mail do Carlos Morey, que me contava que ele era um executivo de uma multinacional, e que 3 anos antes, tinha ido para o Everest. Eu convidei o Morey, ele foi na minha casa, e nós experimentamos uma pizza em conjunto. Ele levou o álbum de fotografias da viagem que ele fez, para o Everest. A partir daí virou uma loucura, o Morey tá no meu livro, o Morey faz parte da minha palestra. Eu conto, em um momento chave da palestra, eu contar essa relação que eu tive com o Morey, porque ali eu coloco o lance o seguinte, eu tinha encontrado um mentor. E não importa que o Morey fosse 10 anos mais novo que eu. Quando ele sentou na minha frente, com a experiência que ele fez, e começou a contar o que tinha acontecido, eu entendi que esse cara era meu mentor. E o resultado dessa visita do Morey, foi que quando ele chegou na minha casa, minha cabeça era uma dúvida tremenda. Eu ia morrer, não tinha condições, não podia fazer. A hora que ele saiu da minha casa, eu tinha certeza absoluta que eu ia fazer a viagem. E aquele mentor, naquele momento, serviu para mim, como um divisor de aguas. Então a visita do Morey, fez toda a diferença, não só para mim, minha família. Para minha esposa, minha filha, que estavam juntos, perguntando para ele, ele respondendo. Então aquele contato foi fundamental, foi uma lição. Ele saiu da minha casa, era outro papo, outra história. Então aqui um agradecimento público ao Morey, e uma lição que fica para a gente. Eu não sei você que está me ouvindo aí, se tem um mentor. Se não tem, procure rapidamente algum, porque essa segurança que eu recebi do Morey, sem nenhum compromisso. A gente sentou e conversou. Ele me contou a experiência dele, isso serviu para tirar de mim todos os temores que eu tinha na época, e mostrar que era possível fazer. Então, a lição que fica aqui, é essa do mentor. Muito obrigado, meu mentor. O que você tem a dizer a respeito?

Carlos: Conte comigo, sempre que precisar.

Luciano: Viramos amigos, de lá para cá, né?

Carlos: Exatamente.

Luciano: Aquela amizade que não tá junto todo dia, mas sabe que está lá.

Carlos: Sem dúvida.

Luciano: O que que você tem a dizer a respeito?

Carlos: Eu posso dizer várias coisas sobre esse tema. Desde que acho que uma das coisas que a gente leva da vida, é amizade. E poder compartilhar as nossas histórias, experiências, conhecimentos dos nossos amigos, é o que dá satisfação na vida. Então, até naquela oportunidade, eu vi vários temores, receio dos seus filhos, sua esposa. Mas ali, não estava nem muito preocupado em tira-los, eu estava até sendo bastante franco com você e com eles, de que o Nepal, aquela visão daquele país de Shangrilá, que está lá do outro lado do planeta, não é assim coisas do outro mundo. É um país realmente lindo, que tem uma população maravilhosa.

Luciano: Que gente é aquela!

Carlos: E todas as pessoas que eu conheci que estiveram lá, todas voltam com o coração totalmente especial. Conversando mais cedo com a Karina, ela comentou que fez amizades com pessoas de lá, já até fez trabalhos voluntários, porque a gratidão que a gente tem daquele povo, é fantástica. Que eu já fui duas vezes para lá.

Luciano: E se tiver outra chance, volta.

Carlos: Com certeza.

Luciano: Legal.

Carlos: Quero até puxar outro assunto que você comentou também antes, difícil falar para as pessoas dos nossos hobbies, por eles serem incomuns, mas eu montei uma palestra, vamos dizer até que seja motivacional, sobre esse meu projeto de fazer esses 7 cumes, e meio fazendo um elo entre esse projeto, e a minha profissão. E eu queria mostrar no final um slide especifico sobre os benefícios que esse hobbie traz para mim como pessoa.

Karina: você conseguiu pôr no papel.

Carlos: Eu consegui pôr no papel, e quase não coube no slide. Porque são vários, desde você estar em contato com pessoas que compartilham esse mesmo gosto. Noções de medicina, noções de primeiros socorros.

Karina: Outras culturas. Outros modos de pensar.

Carlos: conhecer outro mundo. É fantástico. Então, o estar aqui hoje, participando desse evento e compartilhando essa história com sabe-se lá centenas, dezenas, milhares de pessoas…

Luciano: Faz parte, né?

Carlos: Faz parte, orgulho.

Luciano: O pessoal pensa que o meu Everest foi uma voagem, né? Meu, a viagem foi a coisa menor. A menor coisinha foi a viagem. O que aconteceu antes dela, a preparação para chegar lá, o chegar, e a volta, e o que aconteceu depois, é o grande lance aqui. Karina, você teve alguém para iluminar esse caminho, para dizer que é por aqui que vai? Como que foi? Ou você partiu para a loucura e falou, vou fazer?

Karina: Olha Luciano, eu acho que desde pequenininha eu já tinha essa vontade dentro de mim, e nem eu sabia.

Luciano: Everest, você falando não montanhas em geral. Você está falando Everest?

Karina: Assim, a paixão pelo desfio, quanto maior ele fosse, mais eu me atraia. Para você ter uma ideia, eu queria ser bióloga marinha. Só que quando eu prestei todas as faculdades, eu entrei, a única que eu não entrei foi Medicina, eu falei, mas eu quero Medicina agora. Sabe aquela coisa de você… é o que a gente tava falando mais cedo. No montanhismo, a gente não tem competidores, mas eu encontrei o pior competidor que eu poderia ter.

Luciano: Você mesmo.

Karina: Eu mesmo. Porque eu era muito competitiva, fui bicampeã brasileira de wikboard, bati recorde de apneia, ganhei campeonatos de snowboard. Mas teve uma hora que eu falei, caramba, o porquê que eu fiz montanha, e parei nesse esporte. Porque eu ficava 2 anos no esporte, já buscava outro. Ganhava alguma coisa, buscava outro. E em montanha, é uma coisa que eu quero fazer para a vida. Porque é aquela coisa, é você descobrindo seus próprios limites, você não está contra a montanha, contra alguém. Você tá na verdade, só testando você mesma, né? Que é uma coisa espetacular. E eu não tive alguém que me inspirou. Na verdade, eu tive várias pessoas, porque enquanto eu estava lá em 2010, eu vi várias pessoas escalando, que eu falei, caramba, eu também quero poder passar por isso, essas histórias são incríveis, eu quero ter essa oportunidade. Mas eu não posso deixar de dizer que meu namorado, minha família, para variar meus pais, minha irmã, me apoiaram demais nessa viagem. E por mais que eu sei que eles tinham muito medo de eu falar vai, eles falaram, vai, e volta. E me apoiaram.

Luciano: Que legal. Esse é um ponto importante. Quando eu contei isso para as pessoas, que eu estava indo para lá, a maioria absoluta, não bastava dizer nada. Bastava olhar na cara da pessoa, e estava estampado na testa dela. Isso é um pedaço da minha palestra, louco, maluco, irresponsável, os caras não entendem. Que é isso, você tá completamente louco. Até porque o ambiente que eu convivia, é um ambiente onde, Everest não tinha nada a ver com aquilo. É que nem o ambiente do Morey, né? O teu já é um ambiente de esporte, você já vive um ambiente que… O nosso, era absolutamente fora de questão, né? E foi um ponto importante, esse de você tentar dizer para as pessoas, que valia a pena ir para lá. Vamos tentar fazer essa definição aí. A Karina botou um post no Facebook, não botou?

Karina: É, um amigo meu que é montanhista, ele me mandou essa mensagem, parabenizando pelos trabalhos do documentário, que ele gostou muito, ele é um super montanhista. E aí ele falou assim, “o grande fascínio que nós temos pelas montanhas, vem de tempos remotos. A grande maioria dos povos antigos, intitulava as montanhas como algo sagrado, abençoado, e o lar dos deuses. É Sagarmatha, né? O Everest tem esse nome, a montanha sagrada. E isso não é nem um pouco difícil de entender, quando atingimos o cume de uma montanha. É fácil acreditar que uma montanha é realmente o lar dos deuses. Quando se sente a essência da montanha, o encanto que só existe por ali, fica claro de onde vem toda essa motivação, e percebemos que não é preciso procurar respostas racionais sobre o porquê subimos montanhas. É algo que transcende explicações, e o melhor, é simplesmente silenciar e disfrutar”. E quando ele me escreveu isso, eu falei, caramba. Obrigada por colocar em palavras tudo o que eu sinto. E aí eu pedi para ele se eu podia replicar as lindas palavras que ele me escreveu, e foi um post que eu fiz hoje de manhã. Nem sabia que a gente ia estar…

Luciano: Que legal, nada é por acaso, né? E é por isso que a gente vê as cenas que o pessoal está lá se matando para subir a montanha, aquela coisa que quem já assistiu documentários do Everest, sabe como é penoso aquilo. É muito penoso. E a hora que o sujeito chega lá em cima, invariavelmente, a cena que aparece é ele com o gelo caindo pela cara, a barba cheia de gelo, você evidentemente não tem barba, mas deve ter gelado a sobrancelha e tudo mais. E a pessoa está chorando lá em cima, está lá no alto, e nesse momento ela chora, por que? Porque chegou, e daí agora? Agora cheguei. Então a sensação desse momento, é indescritível. Eu não fui até o topo, mas eu cheguei no meu limite. Meu limite, eu sabia exatamente o que era. Meu limite era o pé da cascata de gelo do cumbu. E eu fui subir até onde dava, dali para frente eu não podia ir mais, porque eu não tinha técnica de gelo, nem equipamentos, não tinha nada disso. Eu virei as costas para a montanha, e falei bom, cheguei, esse aqui é o meu. E nessa hora, começa a passar tudo pela cabeça, você chora, você… que o cara conseguir, né? Conseguir o que? Cheguei aqui. E qual é o prazer? Cara, tem que ir lá para sentir, não tem outro jeito de fazer, né?

Carlos: Nesse ponto, até gostaria de complementar, que o cume não é o objetivo. Ele é metade do caminho. O objetivo é voltar.

Luciano: Na verdade o objetivo, é o processo como um todo.

Carlos: Claro.

Luciano: Eu até no final da minha palestra, quando eu mostro o campo-base do Everest, cheguei, pá, aparece a foto do campo-base, e eu brinco com a plateia. Bom, eu sei qual é a pergunta que vocês vão fazer para mim agora. Agora que vocês estão vendo as fotos, eu sei qual é a pergunta. E a pergunta é a seguinte: é isso aí? É. O que tinha lá? Pedra. Que mais? Gelo. Dá para ver o Everest? Não. E os caras, meu, mas o que que você foi fazer lá? Você acha que eu fui lá, por causa do campo-base? Não, ele era uma ferramenta, ele me deu caminho, me proporcionou preparar isso tudo, e ele serviu como, “bom, é até lá que eu quero chegar”. Agora, ele em si, tinha muito pouco para me dar, não tinha nada para ver lá. Tava lá, é legal estar ali, mas o grande lance foi eu conseguir ir até lá, conseguir voltar, e depois transformar isso em uma mudança da vida, né?

Que idade você tem Karina, você pode falar?

Karina: 31.

Luciano: 31, 48, 57. 31, jovem, família, bonita, trabalho, marido, blá blá blá, como é que você lida com essa irresponsabilidade de botar tudo isso que eu acabei de falar, em jogo, podendo morrer a qualquer segundo?

Karina: Luciano, eu acho que parece que a gente tá botando em jogo, mas é muito planejado. Como eu te disse, foram 3 anos de preparação para ir para o Everest. Então, eu sabia que meu pé tinha grande chance de congelar, que a minha mão tinha grande chance de congelar, como medica ainda de montanha, eu sabia exatamente tudo o que ia acontecer lá dentro. E eu fiz, o planejamento foi meticuloso, e muito cuidadoso, para prevenir tudo isso. É claro que mesmo assim, a montanha traz imprevistos para a gente. E a gente sabe que por mais que a gente se prepare, os imprevistos vêm. Mas aí, se você tá preparado, ou enfim, se for a sua hora de subir, eu acho que você consegue pelo menos voltar vivo ali.

Luciano: Tem uma questão de… eu até preparei um som para a nossa gravação, que é esse som aqui. Olha, é isso que a montanha faz, para botar gente fora. Acaba com a gente, em uma fração de segundos. Aquilo tá vivo, aquilo tá se mexendo. Nós estamos caminhando em cima de um lugar, que está se mexendo. Aquilo está andando, é uma geleira. Você tá subindo por gelo, o que está descendo, né? Milimetricamente, mas tá descendo. A qualquer momento, cai uma avalanche. Eu cansei de ver as avalanches caindo lá, e eu meu Deus, o que que é isso? É uma loteria? É claro que não é, os malucos não vão no lugar onde cai avalanche. A gente tenta contornar aquilo. Mas, sempre existe o perigo. O que que garante que aquele negócio não virá abaixo? Você pegou uma ventania lá, que te deixou dentro de uma barraca o que, uma noite?

Karina: É, ainda mais ali naquela zona que a gente não quer ficar, que já é acima de 8 mil metros de altitude. E você não quer ficar definhando seu corpo no campo 4 por horas, em uma noite, gastando seu oxigênio. Hoje inclusive, um amigo meu, (inint) [00:32:18.19], grande montanhista, ele morreu.

Luciano: Hoje?

Karina: É.

Luciano: Foi hoje?

Karina: Foi hoje.

Luciano: onde?

Karina: Acho, na madrugada, fetisform. Caiu bastante pedra, ele estava escalando, e teve um deslizamento de pedra ali fatal, né? Ele tem uma esposa, tem filha. Ainda mais o Chade, imagina, uma pessoa que escala o Everest em 24 horas e volta, um recordista de velocidade, de subida de montanhas como Denali, como Everest. Então, você fala, ah, mas ele não estava preparado? Não, é que realmente as vezes a montanha traz esses imprevistos, mas que não é só montanha. Se você pensar, você pode estar aqui atravessando a rua, e isso acontecer com você. Claro que na montanha, a gente aumenta um pouquinho.

Luciano: Muito mais dramático, é verdade. Uma coisa que você comentou, só para o pessoal que não conhece o assunto aqui. Quando você falou dos8 mil e pouco, a Karina estava acima da zona da morte. O Morey chegou a 8 mil e?

Carlos: 400.

Luciano: A zona da morte, começa no 7.900, por aí. É por ali, dali para frente, zona da morte, significa o seguinte, eu vou falar de uma forma bastante simplista, ou simplória. Quando a gente passa de 4 mil metros de altura, a gente começa a morrer. Que o corpo humano não foi feito para isso, nós aqui principalmente. Os caras que moram lá, nasceram e viveram lá, são aqueles malucos que sobem a montanha de costa. Eu até brinco, tenho a certeza absoluta que Tenzing Norgay e Hilary, foram os 2 primeiros homens a chegar no topo do Everest. Eu tenho certeza absoluta que o Norgay chegou primeiro, e puxou o Hilary. Mas o mundo inteiro viu o Hilary, mas quem chegou primeiro, foi o cara que morava lá. Mas, passou de 4 mil a gente começa a morrer, e quanto mais alto você vai, pior é. Então, zona da morte. Passou de 7.900, fica lá, vai morrer. Não dá para ficar muito tempo lá. Então essa é uma situação de risco, e o Morey, conta para a gente sua história. Você chegou nos 8.400, e não conseguiu chegar no topo, por causa de um acidente impensável.

Carlos: Como a Karina comentou, a gente planeja, planeja bastante, ainda mais para nós brasileiros, que não temos situações similares, como montanha de mais de 8 mil metros. Então, você tenta improvisar, usar sua criatividade, usar as coisas que temos aqui perto, como Aconcágua, etc., a gente tenta mitigar todos esses riscos. Mas na minha história, 2009 também que estava por lá, fui ao taque ao cume, saindo desse último acampamento há 8 mil metros pelo lado sul, e logo após a primeira troca dos cilindros de oxigênio, que é em uma região chamada Balcony, a minha máscara de oxigênio começou a congelar. E eu tinha uma pessoa, um nativo que mora nessa região do Cumbur, que são os sherpas, e ele na tentativa de me ajudar, começou a fazer murros para quebrar esse gelo, que esse gelo tava tapando as válvulas de respirada, e saída de oxido de carbono. E nesses movimentos de socos, ele acertou meu olho. E eu sou míope, tenho 5 graus de miopia, e nesse soco, voou minha lente.

Luciano: Lente de contato.

Carlos: Minha lente de contato. Então, 2 anos de preparação, praticamente 2 meses na montanha, isso era dia 18 de maio de 2009.

Luciano: Um punhado e dólares depois.

Carlos: Uns 130 mil reais investidos. E eu tinha que ali tomar uma decisão. Continuo caolho… isso era uma, uma e meia da madrugada.

Luciano: Você tava há 8 mil e?

Carlos: 400.

Luciano: 8.400 metros. Faltavam 450 metros para chegar.

Carlos: O resto do meu time continuou, e eu ali, poxa, vou desgarrar do meu time, tem outras expedições que vão acabar de me passar. Eu posso ser um risco. Eu posso ser um risco tanto para mim, como pessoa, para o resto do meu time, o resto das pessoas que estavam na montanha, que as vezes algumas pessoas podem tentar te ajudar. Eu pensei, não me arrependo até hoje, da minha decisão. Eu voltei. Que o Everest ainda está lá, ainda é um sonho, gostaria de conseguir completar esses 450 metros, pena que a gente não consegue voltar do mesmo ponto. Vamos começar do zero.

Luciano: Sabe que as pessoas que eu conto essa história, todo mundo diz, cara, mas ele não tinha outra lente para botar na hora? Ele não tinha? Ele não levou? Eu digo para as pessoas o seguinte. Cara, nessa altitude, unha encravada mata. Você pode morrer de unha encravada. Basta ter qualquer coisinha que tá desequilibrado, você pode morrer ali em cima. Eu imagino você de madrugada, no alto da montanha, de noite, com um olho bom, e outro ruim, caminhando em uma crista da montanha, 3 mil metros de um lado, 3 mil metros de outro, no mínimo.

Carlos: 600 de um lado, e 3 mil de outro.

Luciano: É uma loucura. E com quanto abaixo de zero?

Carlos: 40.

Luciano: 40 abaixo de zero. Quer dizer, não dá para abrir mão da segurança, e é o que você falou, Everest continua lá, né?

Carlos: Continua lá. Tinha lentes, tinha até meus óculos. Só que na barraca ali no campo 4, há 400 metros de distância.

Luciano: Para quem não sacou o jogo ainda, a Karina vai… quem sobe o Everest, para no último acampamento, que fica normalmente há 800 metros de distância do topo, alguma coisa assim. E o truque é o seguinte. Tentar chegar no topo, 11 horas da manhã. Se chegar 11 horas da manhã, eu subo ali, dou uma olhadinha, bato as fotografias, tomo um negócio quente, e desço correndo para poder voltar a segurança do campo, de dia. Sem que a noite caia ainda. Só que para fazer isso, eles saem desse acampamento que está há 800 metros abaixo, 9 horas da noite, do dia anterior. Então, das 9 da noite do dia anterior, as 11 da manhã do dia seguinte, para subir 800 metros. Alguém já ouviu falar em uma coisa punk? Isso é punk. Então quando Morey fala, tava ali embaixo, há 400 metros de distância… 400 metros naquela altitude, cara, quanta horas é isso?

Carlos: Ah, umas 3 ou 4 horas descendo.

Luciano: 400 metros.

Carlos: Caolho.

Luciano: Exatamente. Então, não dá para abrir mão dessa questão da segurança, né? A Karina fez um documentário muito legal, eu parabenizei a Karina aqui, porque foi o primeiro comentário do Everest, de centenas que eu assisti, que vai naquelas minucias que a gente quer ver. Como é que são as pessoas que estão lá, como são aqueles sherpas deliciosos. A relação que eles têm com a gente, dá vontade de trazer para cá, né? E as pequenas coisas, como que lava roupa, eu quero fazer xixi, essas coisas que aqui embaixo são besteira, lá em cima, vira um inferno. Onde que a gente acha esse documentário? Você tem ele aí? Se alguém quiser assistir.

Karina: Então Luciano, esses 3 documentários, eles foram feitos para o canal Off da Globosat, comprados pelo canal Off. Então eles são propriedades desse canal. Quem quiser, pode escrever para eles, pedir para eles tentarem disponibilizar a série. Mas, de qualquer maneira, eu também estou fazendo um longa-metragem, que deve ir… eu estou agora só buscando incentivo, porque esse projeto está inscrito na Lei da Ancine, do Proac também. Então, eu estou procurando empresas que queiram ajudar a viabilizar, esse documentário de 90 minutos, que ainda vai ter mais detalhes desse que você gostou, para ir para o cinema. Então, eu aviso você quando conseguir fazer esse próximo sonho, virar realidade.

Luciano: Vamos falar um pouquinho agora dessas coisas, vamos deixar a montanha de lado, e vamos falar dessa… eu arrisquei esse tema, a gente acabou desviando aqui, porque o assunto é fantástico. Que é essa coisa de botar um objetivo na sua frente, que é um objetivo maluco, e fazer acontecer. Então, por exemplo, a Karina decide que ela vai subir o Everest. E ela tem, eu to sentado, to vendo a turma subir, e sei que se eu quiser subir, você que já estava no ramo, já praticava, pô, vou levar 3 anos para atingir. Morey, quando começou, quando decidiu que ia para o Everest, levou quando tempo para efetivamente tentar subir?

Carlos: É que eu tava no projeto 7 cumes. E eu escolhi dentro desse projeto, as coisas mais fáceis, como se fosse um degrau, uma escada. Então eu comecei pelo Kilimanjaro, que é uma montanha maravilhosa, e pensando em complexidade, não é a maior. Então comecei por ela. Depois eu tive uma tentativa no Aconcágua, que foi um fracasso. E aí na descida do Aconcágua, eu já comecei a me perguntar. Poxa, se você quer fazer isso, você tem que fazer direito. Isso não é uma viagem de fim de semana, que você vai lá, volta, e dá tudo certo. Você tá lidando com a natureza. Há pouco, vocês comentaram que o Everest, uma situação bem inóspita, mas a natureza é inóspita. A gente passou recentemente com uma onda de calor grande, e depois nesse fim de semana veio uma chuva muito forte. Obviamente que a gente não tem os desafios de uma região como o Nepal, como uma Indonésia, como uma Islândia, mas a gente também tem os nossos microclimas, e geografia. A gente tem esse tipo de problema. E por isso até, a gente tem que saber lidar com nossos problemas de Brasil, com relação a isso. Então para mim, eu fiz Aconcágua, depois eu fiz o Helbrus, eu fiz MacKinley, depois eu fui na Austrália, depois eu fui na Antártica. Então, até o momento que chegou a hora de ir para o Everest. Entre a Antártica e o Everest, foram também 3 anos.

Luciano: 3 anos. Em 3 anos. E a hora de chegar no Everest, você já estava com experiência brutal acumulada, mas são objetivos. 3 anos não é muita coisa. Achei que você tinha levado mais tempo. 3 anos é bom.

Carlos: Na verdade, não era para ir para o Everest em 2009. Na verdade, eu ia em 2008 para uma outra montanha, que chama Choio, que é a sexta mis alta do mundo.

Luciano: 8 mil também, né?

Carlos: que é um 8 mil, que seria assim, uma faculdadezinha, para a gente poder ir um dia na pós-graduação, para o Everest. Só que foi muito, dá duas semanas de ir para o Choio, que era agosto de 2008, tivemos um problema político, vamos dizer assim. O Choio, você sobre pelo lado Chinês, pelo Tibet. Em agosto de 2008, tinha os jogos olímpicos na China, em Pequim, e o governo Chinês proibiu todos os estrangeiros de estarem no Tibet, para evitar conflitos, essas coisas. Então há duas semanas, o Chio eu tive que mudar meus planos. Aí que apareceu o Everest. Não era na sequência natural.

Luciano: Eu escrevi um artigo uma vez, que eu falava que o jeitão do brasileiro tocar seu negócio, eu chamo de 60 por 40. Eu tenho 60% planejado, sob controle, e tenho 40% aberto para o que der e vier. Brasileiro é muito assim, pintou, pega a oportunidade, e vamos fazer. Como é que é esse processo de planejamento Karina? Quando você pegou a questão de ir para lá, foi diferente do planejamento das outras aventuras que você fez? Que eu sei que você já mergulhou pelo mundo afora, você já fez uma pancada de coisa por aí. Mas foi diferente?

Karina: Olha Luciano, foi no sentido de que o Everest é uma das montanhas mais caras do mundo. Eu acho que o preço que a gente tem que pagar para ir para lá, é proporcional a altura. E por conta disso, não é que puxa, eu tinha esse dinheiro, eu ia pagar e ia subir. Não era assim. Então como eu também tenho a produtora, trabalho há 7 anos com TV nesse ramo de expedições e grandes aventuras, e falei, eu vou fazer isso virar um produto, para viabilizar esses sonhos.

Luciano: Levantar o dinheiro.

Karina: Exatamente. Só que isso foi o que mais demorou.

Luciano: O Valdemar Nicklevicz que fala isso. Ele fala que a parte mais difícil, é levantar os recursos para conseguir fazer.

Karina: Nossa, mas eu concordo 100% com ele. Escalar montanha fica fácil, depois que você tenta… ainda mais que assim, eu levei um câmera man americano, que o salário não é barato, porque ele é um excelente montanhista. Fui com uma câmera de cinema lá em cima, que é a head epic, paguei os dois sherpas, que foram assistentes de câmeras também para ir com a gente, para levar todas as baterias, os painéis, carregador de luz solar, e tal. Então foi uma expedição que ficou bem cara, e quando eu falo na demora do planejamento, eu acho que poderia ter sido muito mais rápido, se não fosse esse valor tão grande.

Luciano: Nesse momento, você tem que ser empreendedora. Você tá tocando um negócio.

Karina: Ah é, não deixa de ser.

Luciano: Você, um belo dia, vai subir uma montanha. Mas, até lá, você tem que ser uma empreendedora, você montou um plano de negócios, deve ter batido na porta de patrocinadores.

Karina: Bati na porta de muitas empresas.

Luciano: E aí, como você vende para alguém…

Karina: Imagina assim, você olhando para mim. Imagina uma menina desse jeito, batendo na porta de uma empresa, falando que vai escalar o Everest. Seja sincero, o que que você pensaria?

Luciano: Essa maluca vai morrer na largada.

Karina: Eu não vou dar dinheiro para ela se matar.

Luciano: Claro, vou dar dinheiro para ela chegar lá, e vou ligar minha marca na morte da moça, né?

Karina: Exatamente.

Luciano: E aí, e você Morey?

Carlos: Isso aconteceu comigo. Eu fui na área de marketing da minha empresa, falei, eu gostaria de subir o Everest. Jamais, você tá louco? Vai que você morre lá, com o logo da nossa empresa.

Luciano: Vão dizer que a gente patrocinou um inconsequente. Tem mais essa.

Karina: Só que a gente tem uma vantagem. Porque da mesma maneira que a gente tem esse espirito aventureiro, e essa coisa de vamos fazer acontecer, claro que se você quiser conseguir grandes coisas na sua vida, você vai ter que assumir grandes riscos, são discussões proporcionais, ao tamanho do que a gente tá tentando. Também tem empresas que estão dispostas a acreditar em um sonho, e não estão ao não, tem que ser 100% garantido. Porque tem algumas empresas que já sabem disso, que não tem 100% garantido. Você pode tentar evitar ao máximo ali, os imprevistos. Mas, eu só to aqui falando com vocês, porque eu tive a Mini, do grupo BMW, que acreditou em mim, patrocinou essa expedição. A Protec, que é um relógio de montanha da Cassio, que você deve conhecer. Que tava marcando os menos 52 quando eu cheguei no cume, aparece.

Luciano: Aliás, o logotipo da Mini aparece o tempo todo.

Karina: E a Fuji Filme, que deu todas as câmeras, e a gente só tem as fotos lindas que a gente tem, porque a gente levou 5 câmeras Fuji de todos os tipos lá para cima. Então, eu tenho que agradecer essas pessoas que acreditaram em mim, da mesma maneira que tiveram 300 empresas que receberam o projeto, e que simplesmente deixaram, apagaram o e-mail ali na hora, tiveram 3 que acreditaram em mim.

Luciano: Então, esse é o ponto legal Karina, que eu queria botar aqui. Quer dizer, quem está ouvindo a gente aqui. Se você tem dificuldade de realizar esse seu projeto, porque está difícil de vender, imagina esses malucos aqui, o produto que eles estão tentando vender.

Carlos: Você quer saber quanto custa o Everest?

Luciano: É.

Carlos: eu investi R$ 130.000,00 reais em 2009.

Karina: Que você foi escalar sozinho?

Carlos: que eu fui escalar sozinho.

Karina: Não foi fazer documentário, pagar câmera.

Carlos: Que já tinha mais ou menos boa parte dos equipamentos, porque eu já estava já em um processo, né. Então praticamente só comprei uma bota nova, e vamos embora.

Luciano: Mas Karina, você falou um negócio interessante. Quer dizer, você atirou em 300, e pegou 3, né? Evidentemente, você não mandou a Deus dará, 300 projetos. Você deve ter definido algumas coisas. Deixa eu ver para qual empresa eu vou mandar, não vou mandar para qualquer uma, né? Como é que você fez? Você fez um estudo antes, o que que você fez? Como que você fez?

Karina: Olha Luciano, eu estava tentando desde 2010, quando eu voltei do Everest, eu comecei a pensar nas empresas que tinham afinidade com esses valores de pioneirismo, coragem, superação, garra, força, conquista.

Luciano: Esporte.

Karina: Esporte, todos esses valores que você sabe que está associado a escalar montanha, e eu comecei a mandar, mandar, mandar. E foi uma coisa que foi muito engraçado. Eu tava com a passagem comprada, e eu ainda não tinha contrato de patrocínio assinado. Mas eu acreditava muito que ia acontecer. Eu sabia que era o ano de acontecer. E quase que eu não fui, quase que 1 mês antes de eu ir para o Everest, eu simplesmente recebi uma notícia que eu falei, não vai dar, não tenho como arcar com um prejuízo desse. Mas não é fácil, nunca é fácil. E eu continuei acreditando, e no fim das contas, quando eu já estava lá em Katmandu, eu fiquei 2 dias a mais em Katmandu esperando para assinar um contrato, e eu saí para a caminhada que você sabe, ao campo base.

Luciano: Na última hora.

Karina: Na última hora. Eu fui testada, acreditar, aquela coisa assim, você tem sangue frio? Vamos ver se você tá pronta mesmo para escalar o Everest. Que para ir para uma montanha dessa, você também precisa de um pouquinho de sangue frio, né? Então acho que eu fui testada em Katmandu, até o último.

Luciano: E você voltou com material super legal, que vai te proporcionar fazer uma pancada de coisa. O Morey não, o Morey não foi com essa ideia de voltar com documentário, com registro fotográfico altamente profissional. Você fez aquilo que… você tava lá na montanha, né? Quer dizer, o teu dinheiro investido, não previa nenhum tipo de retorno quando você voltasse, né?

Carlos: Altamente pessoal, vamos dizer assim.

Luciano: Então, como é isso aí? Quando você juntou R$ 130 mil reais, eu não vou dizer que era fundo perdido, porque eu sei o que você ganhou com isso, e eu sei o teu prazer, eu sei quanto vale o dinheiro que você botou ali. Mas não havia nenhuma perspectiva de tê-lo, ou seja, é um investimento que não teria um retorno financeiro, etc. e tal. O retorno é teu, de satisfação. Como que você lida com isso, cara? R$ 130 mil é um bom dinheiro, cara.

Carlos: Eu lido assim. A vida é uma só. A gente tem que correr atrás dos nossos sonhos, porque se nem nós vamos correr atrás deles, quem mais vai correr? Então, o Everest veio para mim, como desde pequeno. Eu sempre gostei de Atlas, geografia, ficava lá lendo “esse é o maior oceano, essa é a maior lago, esse a maior montanha”. E uma coisa também me intrigava. A bandeira do Nepal. A bandeira do Nepal é praticamente a única bandeira no mundo, que ela não é retangular. Ela parece dois triângulos, como se fosse… mas que paisinho safado esse. Oque que eles querem ser de diferente. E a vida vai passando, e você vai vendo coincidências. Eu me identifico muito com a religião, dizem até que não é religião, mas budista, né? Você depois vai lendo altas montanhas, você descobre que das 14 mais altas montanhas do mundo, praticamente 10, 12 estão lá naquele país. É um país que tem 800 quilômetros, é como de São Paulo a Vitoria, em comprimento. E em uma largura de 200 quilômetros. Ou seja, lá no Norte, você tá há 8 mil metros. E no Sul, você tá no nível do mar. O país é uma ladeira, né? Em 200 quilômetros, você sai de 8 mil metros, e você começa, poxa, esse é um país perfeito para esportes. Você tem no Sul, rios, lagos, esportes aquáticos. Você tem rios que são dos degelos dessas montanhas, para fazer rafting, é rio um atrás do outro.

Luciano: Floresta, tem bosque, tem animais selvagens.

Carlos: Tem tigres, rinocerontes, elefantes. Elefantes bonzinhos, não são os africanos, né? Então é um país fantástico. E ainda para melhor, o povo que está ali, é um povo obviamente simples, tem toda uma cultura diferente da nossa, ocidental. Mas sempre muito amigos, receptivos, e…

Luciano: Tem uma tese que eu conto no livro, que diz que o Nepal é um dos raríssimos países no mundo, que nunca foi invadido, nunca teve uma guerra de invasão por outro povo. Portanto, eles tratam a nós, quem vem de fora, é tratado por um cara que está trazendo boas coisas. Tá trazendo notícia, tá trazendo dinheiro, tá trazendo um conteúdo, que a gente não tem aqui. Não é um estrangeiro invadindo. Eles não nos tratam como saíbe, aquela coisa humilde, é diferente. Eles tratam a gente de um jeito, uma gentileza, que o negócio é chocante. Eu me senti chocado com o nível de gentileza que eles nos trataram lá. E vocês dois pegam isso de um outro jeito, porque eu tive essa gentileza, até 5.700 metros. Vocês experimentaram essa gentileza, com risco de vida, há 8 mil, num ligar onde cara, se você dançar, aqui em cima não tem o que fazer, dançou. Vou cuidar de mim. E esses caras lá em cima… E é uma coisa que aparece no seu documentário, de forma muito clara. A importância que esses caras que moram lá, os sherpas tem, e no seu sucesso, na sua subida.

Karina: Ah, sem dúvida Luciano. Acho que nossa, seria muita ingratidão minha não dizer que os sherpas são responsáveis por 95, se não mais por cento, das expedições que tem algum sucesso lá. Faz parte da cultura não só do Everest, qualquer montanha ali nos Himalaias, essas pessoas que são nativas de lá, e que na medicina de montanha, já tem mais de não sei quantos exames comprovando que eles são mais adaptados sim. Fisiologicamente, o corpo deles é muito mais preparado que o nosso, para as grandes altitudes. Então, é o que você falou. Você tá lá morrendo, e você vê no meu documentário, conversando, como se ele tivesse dando um passeio no parque. Poxa, foi a sexta vez que ele estava indo para o cume do Everest. Então, quer queira quer não, ali já é o quintal da casa dele. E eles continuam. Acho que uma das coisas muito legais, não sei se vocês pensam assim, que a gente tem na montanha, é que tudo o que a gente vive, é muito intenso. E a gente acaba conhecendo de verdade as pessoas que estão com a gente, porque você não conhece as pessoas ali. Num casamento, numa festa, em uma coisa legal, todo mundo é bonzinho, é bonito, é simpático. Você vê quem é quem, a hora que você tá com situações exatamente como a gente estava ali no campo 4. Olha, só tem tantas garrafas, quem desce, quem fica, que são quem você vê, os parceiros que você tem.

Luciano: Eu descrevo, é uma conversa minha com um sujeito chamado Ben Webster, que é um alpinista canadense, ele tava lá para chegar no topo do Everest. E a gente foi bater um papo, ele falou, cara, a hora que sobe na montanha, acabou o teatro. Não tem, não dá para fingir nada. Você não pode fingir que é um sujeito corajoso, porque para o cara que tá lá em cima, fica claro. Então a gente conhece exatamente quem é. E na minha palestra, eu costumo dizer. Cara, eu tava numa situação tal, que é a seguinte, a decisão que eu tomasse, não ia significar eu perder dinheiro, eu atender mal um cliente, eu me comunicar mal. Eu podia morrer. Então quando você chega num momento tal, que dependendo da decisão que você vai tomar, você pode morrer, ganha tudo outra dimensão, né? Você discute esses temas que a gente fala aqui, uma besteira, trabalho em equipe. Que besteira… Lá em cima, cara, eu dependo de você, senão eu morro. Nessa situação, muda tudo.

Karina: Então, a montanha serve para você também ver quem são seus amigos de verdade. Tem um amigo meu que falou assim, ah Karina, você quer conhecer alguém? Vai escalar uma montanha com essa pessoa. E ele me falou isso há 7 anos atrás. E eu comecei a escalar com 21, agora estou com 31. Nesses 10 anos que eu venho escalando, eu tenho que cada vez mais concordar com ele. É só você escalar ao lado de uma pessoa, para você saber quem essa pessoa é, os valores que ela tem. E isso foi uma coisa que só faz eu ter mais orgulho ainda da equipe que eu escolhi, porque assim, as coisas que aconteceram desde avalanche vindo para cima da gente, até a gente ficar sem oxigênio, ter que dividir equipe. Tudo o que aconteceu, minha equipe foi fantástica, maravilhosa, eu tava com pessoas com valores muito próximos aos meus, que foi uma coisa que não tem preço.

Luciano: Muito legal. E como que você chegou nesse grupo? Foi a dedo?

Karina: Esse grupo, foi a dedo. Porque assim, em 2010, o Sccot, que é um câmera man americano, estava lá trabalhando, filmando um documentário, um filme que saiu do Everest do imax, ele tava lá trabalhando com isso. E eu tava trabalhando lá como medica, e um dia ele veio uma pedir uma ajuda um conselho, que ele tava ficando doente, e eu ajudei, e a gente ficou muito amigo. Os outros 3 meses que seguiram ali, a gente conversava. Vira e mexe, quando se encontrava. O Pemba, eu tava trabalhando, e eu tinha um dia de folga há cada 10 dias. E nesse 1 dia de folga, ele me levou até o campo 3. Um dia, no meu primeiro dia de folga, ele me levou para  o… porque eu já tava lá há muito tempo, então já tava bem aclimatada. Ele me levou direto para o campo 1. Aí ele falou, nossa, mas você fez em 4 horas. Então no seu próximo dia de folga, a gente vai para o 2. No meu próximo dia de folga que eu tive, eu trabalhei, trabalhei. A hora que o dia chegou, falei oba, campo 2. E no meu último dia, a gente foi para o campo 3. Então também foi um super treino para mim, porque em 2010, poxa, eu já conhecia toda a Lhotse face, eu já tinha escalado, não tinha permissão para escalar para o cume, por isso eu não fui. E também, nem tinha o dinheiro disponível para pagar U$ 10 mil dólares para o governo do Nepal, para escalar. Mas eu consegui fazer um passeiozinho até o campo 3, e ver bem como que era.

Luciano: Experimentou seu guia. E conheci o Pembo, porque teve um momento, voltando da Lhotse face, que a minha mão congelou, eu não conseguia mais trocar os mosquetões, a segurança, não conseguia desclipar de uma corda, e clipar na outra. E ele pegou, e fez tudo por mim. E sério, uma pessoa ficar clipando sei lá quantas cordas, desde a Lhotse face, até o acampamento base para você, você vê que ela faz uma coisa porque ela gosta, não pelo dinheiro, não por nada.

Carlos: Essa região que ela comentou, entre o campo 1, campo 2 e campo 3.

Luciano: Que altitude nós estamos aí? 7 mil…

Carlos: 6.300 até 7.300, 7.400, no meio da parede do Lhotse. Lhotse é a quarta mais alta montanha do mundo. Esses acampamentos, formam como se fosse uma ferradura, vamos dizer assim, é conhecido como vale do silencio. Então é um lugar para mim místico, maravilhoso.

Luciano: As fotos que eu vi daquilo são de tirar o folego. A foto tira o folego, imagina ao vivo.

Karina: Ao vivo, tira o folego mesmo! 7.200…

Carlos: Acho que outra coisa curiosa, até para as pessoas que não sabem os detalhes de uma escalada do Everest, praticamente entre o campo -base até o cume, você tem uma corda fixa, que a cada temporada, se passa novamente, porque não se pode confiar uma coisa de um ano para o outro. Eu imagino que são quilômetros de cordas, né? Quilômetros. A cada 25, 30 metros, existe uma ancoragem, que você tem que enfincar por ela, que a gente serve de segurança. A Karina comentou, que a gente tem o equipamento que chama cadeirinha, na cadeirinha sai o mosquetão, e a gente vai passando por essa corda, que é nossa segurança. Só que quando você chega nessa ancoragem, há cada 25, 30 metros, você tem que tirar seu mosquetão, e passar para a próxima, né? Até na verdade, existem dois mosquetões. Você passa um primeiro, depois passa o outro, para não ficar no… segurança.

Luciano: Aqui, a gente falando assim, é tão simples fazer isso. Lá em cima, eu comento isso, cara, eu tava em 5 mil metros, 5 mil e pouco, que não é nada comparado com o que vocês foram. Mas, a chegada nos 5 mil, e depois acordar na primeira manhã, e ficar em pé na barraca, levantar, amarrar uma botina, meu, eu vou ter que amarrar uma botina, pelo amor de Deus. Trocar lente da câmera, vou ali… depois eu comento no livro, eu me arrependo profundamente de não ter feito um monte de coisa no campo base, porque eu olhava, cara, eu vou ter que ir até ali. 200 metros, meu, que horror. Como assim 200 metros? Era só 200 metros. Mas, na hora que você está lá…

Karina: com aquela porcentagem de oxigênio disponível, né? Uma coisa engraçada, é que a gente vê pacientes na emergência, na UTI. Se tiver saturando o que eu saturei no cume, é tubo, é tudo e ventilação mecânica. E é mais ou menos o que as pessoas, normalmente o que um ser humano satura 100%, 99% de oxigênio, ao nível do mar. Eu tava saturando 60%, no campo 4. Imagina no cume, eu devia estar com 50 e poucos. E isso se você falar para qualquer medico aqui, olha, seu paciente tá saturando 60%, ganha tubo. Vai ser entubado, e vai ficar na ventilação, ganhando oxigênio, respiração mecânica, porque é uma coisa muito louca como o corpo humano se adapta.

Luciano: Nós estamos no Brasil, 2014, país passa um momento no mínimo esquisito, no mínimo esquisito. Eu não me lembro na minha vida, de ter visto uma situação como essa, porque quando eu imagino que o Brasil já tá parecido com isso lá no começo da revolução, que tava mais bagunçado, mas eu era muito criança para poder entender aquilo tudo. Eu sei que hoje tá uma confusão, a coisa tá bem complicada aqui. E tem muita gente preocupada, e muita gente fazendo aquilo que a gente chama do mi mi mi. Todo mundo reclamando, todo mundo twitando, todo mundo facebookando, todo mundo dizendo… mas de efetivo, não acontece nada. Então, e quando se tentou fazer acontecer, não deu em nada. Milhões foram para a rua, lindo de ver, maravilhoso, passaram alguns meses e nada aconteceu. Ou seja, aquilo não transformou em nada efetivo. E eu tenho sentido alguma preocupação com esse certo mobilismo, né? Parece que no Brasil, a gente bota aquela história: vamos subir a montanha? Vamos, vamos. Mas no dia, ninguém vai, e não acontece. Como é que vocês estão vendo isso? Cada um de nós, está em uma faixa de idade. É legal saber essa visão toda, e ver como é que você pode transferir aquilo que você aprendeu tentando chegar no alto da montanha, ou chegando no alto da montanha, para essa capacidade que a gente pode ter de mudar as coisas no país?

Carlos: Eu vou dar a minha visão sobre. Eu vejo um ano especial para o Brasil, um ano de copa do mundo, eleições. Uma chance do Brasil se posicionar perante… como país, para os outros países do mundo, como potência. Então de novo fazendo um paralelo com o que a gente faz, planejamento, planejamento, para conseguir atingir os nossos objetivos. E eu fico frustrado. Que eu vejo o Brasil se preparando, por exemplo, para a copa do mundo, onde na verdade acho que a gente não devia se preparar para a copa do mundo. A gente devia se preparar como país, como potência, para ser o lar dos nossos filhos no futuro. A copa do mundo, é uma oportunidade que o Brasil tem, como um investimento, como um evento de trazer e mostrar o país para o mundo inteiro, e a gente vê há poucos meses da copa do mundo, estádios que não vão ficar prontos, infraestruturas, como de aeroportos, portos, hotéis, avenidas, ruas, etc., não ficarem prontas, e as coisas ficarem assim, normais, como nada acontece.

Luciano: Você não achou que ficariam prontas, achou? Em algum momento, você achou que ficariam prontas?

Carlos: Como um bom brasileiro, que vive de sonhos, eu esperei que sim, esperei. Porque não eram para fazer 300 estádios, eram para fazer 12. Não precisava nem fazer. Tem alguns que poderiam ser remodelados. O estádio não é importante. Não é o estádio que vai ficar pós copa do mundo. É toda essa infraestrutura, toda essa integração, toda essa união, e deixar uma infraestrutura de novo, aos nossos filhos, né? E aí a gente vai chegar dia 12 de junho, poxa, o aeroporto não ficou pronto. A avenida, também não ficou pronta. Os gringos que estão vindo, eles não têm lugar para ficar. Então, acho que é um péssimo cartão postal, que nós vamos deixar para a posteridade.

Luciano: Que tem tudo a ver, que tem tudo a ver com a incapacidade de planejar um sonho. Que é um problema do brasileiro. Voes dois, são ponto fora da curva. Quem fala muito isso, é o Amir Klink, né? Que quando eu conversei com ele, ele falou, aquela primeira minha viagem que eu cruzei o oceano dentro de um barquinho, quando eu olho hoje, cara, um maluco, irresponsável. Eu jamais faria aquilo do jeito que eu fiz aquela época, porque ele aprendeu. Hoje em dia ele fala, cara, eu planejo o aparafuso. Não saio daqui, sem ter tudo. Mas nós somos… uma pessoa que pensa assim hoje no Brasil, é um ponto fora da curva. Que explica muito essa questão toda aí, estamos para as vésperas de um evento desse tamanho, e planejamento não consegue ser realizado. E aí?

Karina: Olha Luciano, eu acho que, a verdade é que isso só prova uma teoria muito triste, mas que vai mudar, tem que mudar, não tem como não mudar. A verdade é que tem muita gente se beneficiando da copa, das olimpíadas, de muita coisa, e pensando em si. Não pensa no todo. Pensa, ótimo, a copa tá vindo, então como eu tiro proveito disso. E tem gente superfaturando estádio, superfaturando obras, tem gente que tá enriquecendo loucamente com a vinda desses eventos, essa que é a verdade. Há pouco tempo atrás eu estava em Cuiabá, e fui almoçar com algumas primas minhas, elas falaram, olha Karina, um estádio que custou X, e o pessoal já gastou 5 X. Então para onde tá indo esse dinheiro? E a gente sabe para onde tá indo esse dinheiro. Só que infelizmente, o que o ser humano é muito limitado, e a gente é mesmo, a gente usa aí 15, 20% da capacidade total do nosso cérebro, é de perceber que nós somos parte de um todo. Nós somos parte de algo muito maior. E tá tudo conectado. E não é fazendo o outro infeliz, que você vai conseguir chegar na sua felicidade real. Não é pegando coisa para você, e tirando dinheiro da merenda, e vendo aquelas outras pessoas morrendo de fome, ou morrendo porque não tem um medicamento mais básico no SUS para se tratar, que você vai conseguir ser realmente feliz. Então, quando as pessoas começarem a perceber que elas precisam parar de ser tão egocêntricas, de só olhar para elas, e tentar fazer o bem para o todo, porque nós estamos sim conectados, nós estamos no mesmo planeta, no mesmo momento. E esse universo, é uma coisa muito maior do que só a gente, eu acho que tudo isso muda. Eu vejo que esse mi mi mi, essas manifestações que tiveram no passado, que como você disse, foi lindo de ver. A gente foi as ruas tentar fazer alguma coisa. Eu vejo que foi como eu chegando do Everest. Assim, foi aquela primeira movimentação. E demorou 3 anos para eu conseguir me organizar, colocar tudo no papel, ir atrás das pessoas certas. E eu acho que o Brasil vai precisar sim, de algum tempinho a mais. Isso aconteceu ano passado, já ficou claro que tá todo mundo revoltado, insatisfação de todo mundo com essa direção do nosso país, que assim, administram o nosso país com tanta irresponsabilidade, tão pensando em si só. Eu acho que em primeiro lugar, quem quer fazer política, é uma pessoa que tinha que saber olhar para o outro, perguntar. Ela não tem que perguntar mais quanto eu vou ganhar. Para ser um político, ela tinha que perguntar o que que eu posso dar para o outro. O que que eu posso melhorar esse município, essa cidade, esse Estado, ou esse país, que seja. Mas infelizmente os nossos políticos são muito diferentes do que os da Dinamarca, que ganham o equivalente a um salário irrisório, de € 3 mil e poucos euros, para quem mora em uma Dinamarca. Moram em casinhas supersimples, e tão sempre se preocupando o que eles podem fazer, que lei que eles podem criar para melhorar a sociedade. Os nossos não, eles estão preocupados em quanto eles vão poder roubar, em quanto eles vão poder reembolsar, pôr no bolso, e acha que vai ficar tudo bem. E não vai, o povo já mostrou que ninguém mais aceita isso. E agora, é só uma questão de tempo, até a gente conseguir realmente nos organizarmos, e mudar isso. Mas que não tem mais espaço para as pessoas que não tem boas intensões, porque eu não sei se vocês veem assim. Eu acho que o mundo tá cada vez melhorando, evoluindo. Se a gente falasse em todos os seres humanos estão aqui por um propósito, esse propósito é aprender e evoluir, eu sinto que cada vez as crianças que estão nascendo, estão vindo mais evoluídas, mais inteligentes, e mais preocupadas com o próximo. Se você ver, as pessoas, cada geração que vem, as pessoas estão mais altruístas, estão com boas ideias, estão querendo ajudar, incentivando os próprios pais a fazer o bem também. Então daqui a pouco, não vai ter mais espaço para essas pessoas do mal. Elas vão naturalmente se auto excluir, da sociedade. Infelizmente no Brasil, elas ainda são tão numerosas na nossa política, que as pessoas do bem que entram lá, não conseguem fazer nada. Mas eu acho que isso tá com os dias contados, porque o país inteiro já sabe disso, já pensa assim. E eles não conseguem mais com cesta saúde, cesta não sei o que, ficar tapando esses buracos, essas roubalheiras, e essas… como é que a gente pode falar, essas injustiças que eles fazem.

Luciano: Se essa turma for subir o Everest, morria todo mundo no caminho. Porque não seria um grupo para atingir o objetivo, todo mundo em conjunto, um dando o braço para o outro.

Carlos: A gente pode organizar uma expedição com eles. 50% mais barato.

Luciano: Só sobe, uma montanha que só sobe, ela não desce. Legal, é uma percepção interessante, legal essa percepção. A Karina é mais novinha, né. É mais novinha, e tem essa… Eu concordo, eu concordo com você esse lance da…

Karina: Não sei se eu to sendo muito otimista demais.

Carlos: Tá certa.

Luciano: Você tá certíssima, nesse ponto que você falou da molecada que está vindo diferente, eles estão vido diferente, estão vindo de um outro jeito. Eu até brinco, com exemplo, falo cara, na minha época, quando eu tinha 10, 11 anos de idade, era normal caçar passarinho. Eu ganhava de presente uma espingarda de pressão, e saia para matar passarinho. Você conseguir imaginar uma criança de 10 anos de idade, hoje, saindo com uma espingardinha, para matar um passarinho? Não passa pela cabeça de alguém matar um passarinho. Então, essas coisas evoluem, existem ganhos morais que vão passando com o tempo, que as coisas vão melhorando. E eu entrevistei há pouco tempo atrás, Paulo Rabelo de Castro, um economista, ele dizia. O bom é o seguinte, que a turma da minha idade, que é essa turma da idade da Dilma, tudo, pessoal tá se aposentando. Tem que comprar um Rider, e vai para casa. E deixa a moçada. Não porque a moçada é melhor do que nós, é porque tem que mudar.

Carlos: A fila anda.

Luciano: É porque tem que mudar. Então talvez esse seja a luz que a gente ainda possa ver, fala cara, isso vai passar. Essa turma vai passar. E o que talvez caiba para nós fazer, é preparar o caminho para essa molecada que vem fazendo aí. Então de certa forma, parte do que eu faço aqui com o Podcast Brasil, é justamente isso. É tentar falar, tem um monte de coisa para ver, tem um monte de lugar para olhar, tem um monte de causa e consequência. Tem que desenvolver um olhar crítico, tem que pensar mais ou menos o que você falou, de estar tudo conectado, e o impacto, influencia que eu causo envolta de mim. Quer dizer, se eu reclamo, eu vou usar o Gandhi, né, quer dizer, eu tenho que ser a mudança que eu quero ver no mundo. Eu quero mudança, eu tenho que eu fazer primeiro. Eu não sei quanto tempo vai levar, talvez eu não consiga ver. Vocês dois estão mais pertinho. A Karina tá mais novinha.

Carlos: Ela tem mais chance.

Karina: Todos nós vamos ver, gente. Por favor. Eu não acho que é uma coisa que vai demorar assim, muitos anos não. Eu acho que é uma coisa que tá aí, a insatisfação já foi, como é que a gente pode dizer, oficializada, e agora as pessoas só estão se organizando. Mas não vai ter mais espaço para essas pessoas que quiserem se eleger. É uma coisa que esta com os dias contados. A hora que entrar uma pessoa do bem, eu acho que a melhor coisa que a gente pode fazer, é parar com esse negócio, mas não posso deixar um ganhar, vou votar nesse. Não, vota em quem você realmente acredita que vai mudar alguma coisa.

Carlos: Independente de partido.

Karina: Independente de partido, de nada. E essa vai ser a melhor maneira do brasileiro dizer, cansamos de corruptos, de pessoas desonestas, e de pessoas que não tem valores. Cansamos.

Luciano: Karina, quais são os projetos? Eu sei que você tem um site legal. Você já falou que está montando um longa-metragem. Quem quiser te encontrar, eu sei, você deve estar palestrando, fazendo palestras, etc. e tal. Quem quiser achar você, usa aqui, convide.

Karina: Poxa, obrigada. Só entrar no www.Karinaolini.com.br. E aí lá tem os próximos projetos, tem um blog com o que a gente já fez, tem o projeto social do Nepal.

Luciano: Então, que a gente não falou. Fala rapidamente.

Karina: Vou falar rapidamente. Quando eu estava descendo do Everest com o Pemba, sherpa, que foi um sherpa amigo meu, escalou comigo, tudo, eu falei Pemba, você fez tanto por mim, você é meu amigo desde 2010, como eu posso te retribuir um pouquinho? E o Pemba é uma pessoa muito do bem, sabe, uma pessoa, um sherpa de verdade.

Luciano: Dá para ver no documentário.

Karina: E ele virou para mim e falou, Karina, lá na vila onde eu nasci, só tem 15 casinhas, fica dois dias andando de lukla, tem 15 mulheres que todos os dias precisam andar mais de 2 quilômetros para irem buscar agua. E eu falei, caramba, aqui, né? A gente sabe bem o que é 2 quilômetros nos himalaias. Não é andar 2 quilômetros em linha reta, na Avenida Paulista. Então, eu falei olha Pemba, veja o que que a gente pode fazer, e ele me mandou um orçamento do projeto, de quanto custaria os canos, todo sistema ali. E os próprios moradores na vila, colocaram o sistema de encanamento de agua, que a vila de bundokan já tem esse sistema. E isso foi muito gratificante, eu fiquei muito feliz.

Luciano: você levantou os recursos para eles comprarem isso, é isso?

Karina: Exatamente.

Luciano: Vocês compraram, pagaram a…

Karina: Levantei os recursos, mandei para o Nepal. Na verdade, foi eu e a minha família. E essa primeira parte do projeto, e aí já tem a agua. E a segunda parte, é fazer com as criancinhas daquele vilarejo, parem de ter todas as doenças infectocontagiosas que eles têm, porque eles não têm banheiro. Eles não têm vaso sanitário. Então é como se aquela vila fosse um grande esgoto, e a gente já conseguiu levantar verba para 4 privadas, são 15, faltam mais 11 provadas, e quem quiser entrar no meu site, colaborar para que cada uma dessas casas que tem 6, 7, 8 pessoas morando, possam ter seu próprio vaso sanitário, e serem mais saudáveis, eu vou agradecer muito.

Luciano: Muito legal. Você que tá ouvindo a gente aqui, acha que sabe o que é miséria, tem que ver miséria com 15 abaixo de 0. Miséria com 30 graus de temperatura, onde você planta manga, dá um pé de manga, essas coisas, é uma coisa. Miséria com 15 abaixo de 0, onde nada dá, não há o que fazer, não tem para onde correr, se apagar o aquecedor é 15 abaixo de 0, aquilo é miséria. Então a gente realmente…

Carlos: 3 mil metros de altura, na encosta de uma montanha.

Luciano: Não dá para ir na esquina comprar nada, não tem… eles trabalham 4 meses por ano, para viver 12, porque fechou a temporada de escalada, lá não acontece mais nada nas vilas, né? Então não tem… o negócio é realmente muito complicado. Bem legal seu trabalho. Eu vou entrar lá e dar uma ajudazinha sim.

Karina: Oba, legal.

Luciano: E aí Morey?

Carlos: Bem, eu tive os últimos 2, 3 anos, foco maior no meu trabalho, uma maior responsabilidade, e isso tirou um pouco do meu equilíbrio. Foquei muito mais a minha parte profissional, do que a minha vida pessoal. Eu tive algumas mudanças em novembro, então eu estou me resgatando agora como pessoa. Meus hobbies, meus treinos. Então, eu quero voltar como estava em 2009, 2010.

Luciano: Você não fez seu blog ainda, você não tem um lugar… quem quiser achar o Morey, acha o Morey aonde? No Facebook.

Carlos: No Facebook. Eu vou fazer até uma crítica a você, porque muitas pessoas que eu encontre, reclama, poxa, você tinha lá o blog meueverest.com/blog. Desapareceu. Poxa, não tem como voltar?

Luciano: Eu vou te devolver a crítica. Você trabalha na área de sistemas, né? Quando eu migrei, me venderam um projeto de que eu ia migrar para um projeto fantástico, usando Jonh…. E os caras migraram, e o (inint) [01:18:19.23] do Blog não fala com o sistema, e invés de procurar uma saída, os caras preferiram deixar fora do ar. Eu to mais agoniado do que você, porque tem um conteúdo fantástico naquele blog. A gente acompanhou online a subida do Morey.

Karina: Poxa, que legal.

Luciano: No blog. Assim, com coração na mão, online, e aquilo tá tudo lá.

Carlos: Com uma repórter, a Patrícia Ribeiro, então além de eu mandar notícias de lá, ela ia complementando com pesquisas que ela tinha, conhecimento. Fez também um acervo…

Luciano: E aquilo virou um blog, no meueverest.com, tem o blog lá. E se você entrar hoje, o blog tá fora do ar, porque as duas linguagens não se conversaram. Então eu to tentando voltar com isso ao ar, mas prometo voltar.

Carlos: Você tem backup?

Luciano: Tá tudo guardado. Não perdemos nada.

Carlos: Então deixa isso, eu sou formado nesse negócio, vamos ver se eu faço um trabalho voluntario. Risos. Porque esse conteúdo, esse tipo de informação, tem que estar disponível.

Luciano: E é muito legal cara. Eu perdi uns 4 quilos te acompanhando no blog.

Carlos: Eu perdi 8, do outro lado.

Luciano: Mas valeu moçada, obrigado a vocês ela presença. Eu acho que foi um papo bem legal. Eu tentei fugir das obviedades aí de quem escala montanha, porque não quero contar viagem de aventura, quero saber o impacto que tem em cada um de nós como ser humano, né? E acho que a gente vai se cruzar pelas montanhas aí. Eu quero terminar com aquela palavra que a gente ouve o tempo todo no Nepal, que é o Namaste.

Karina: Namaste.

Carlos: Namaste.

Luciano: Bem, eu não sei se há muito mais a dizer. Apenas eu quero sugerir a você. Se tiver a chance de escalar uma montanha, por mais baixinha que seja, aí mesmo, pertinho de onde você mora, vá. Mas vá a pé. Faça com que haja alguma exigência física para chegar lá no alto. E quando chegar, lembra de nós.

Assine o LíderCast pelos feeds http://www.portalcafebrasil.com.br/todos/LíderCast/feed/

http://bit.ly/LíderCastNoAndroid