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152 – A Gripe Suína

152 – A Gripe Suína

Luciano Pires -

gripe_suina

Bom dia, boa tarde, boa noite! Vai uma gripe aí? Pois é… O Café Brasil de hoje vai tratar da gripe Suína. Não importa quando você vai ouvir este programa, se no auge da pandemia ou alguns meses depois que ela passar. Essa gripe está sendo uma lição de comunicação.

Pra começar, vamos com uma frase do poeta e escritor alemão Christopher Martin Wieland:

É um perigo alguém possuir mais bom senso do que os que o rodeiam

 

Cara, eu fico indignado! Essa tal gripe Suína que começou a nos atazanar no primeiro semestre de 2009 é mais um daqueles escândalos da família do Bug do Ano 2000, da Gripe Aviária, do vírus Ebola e das tragédias que vão dizimar a humanidade. De tempos em tempos aparece uma dessas e lá vamos nós apavorados correndo atrás do prejuízo.

Lembro-me que em 1991 tive que cancelar uma viagem com clientes para os Estados Unidos por causa do começo da Guerra do Golfo. Eu estava nos EUA, com as coisas tranquilas. Mas no Brasil… tinha até fila pra comprar gás que ia acabar…

E agora hein? Na semana passada, em plena crise da gripe suína estive três dias em Santiago do Chile. Que horror! É o segundo país com mais infectados na América do Sul! Um horror!!!

Sabe o que vi lá? Nada. Ninguém com máscaras, nenhuma contagem de mortos… Nada.

Mas no Brasil…

Olha isso! Renato e Seus Blue Caps com SERÁ MENTIRA OU SERÁ VERDADE , DE Salvador Bellone com versão de Pedrinho… Será Mentira ou será Verdade? Essa é a pergunta do Brasil!

Bem, para tratar do assunto vou usar no programa de hoje uma adaptação do texto “Contar os mortos, disseminar o pânico” que Luiz Antonio Magalhães publicou no site do Observatório da Imprensa. Ao fundo você vai ouvir Ivan Vilela com VIOLA QUEBRADA de Mario de Andrade e Ary Kerney.

 

Sim, há uma nova gripe circulando no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, como de resto em praticamente todo o mundo. É fato. Algumas pessoas vão morrer da moléstia, como de resto morre gente vítima das outras gripes existentes. Também é fato. O que tem sido visto na grande imprensa brasileira nos últimos dias, porém, é praticamente um crime contra o bom senso e a inteligência do distinto público. A cobertura da chamada gripe suína (o nome correto é Influenza A H1N1) se tornou uma verdadeira aberração, provoca pânico na população e certamente vai se mostrar exagerada em menos de dois ou três meses, quando os números da tal “terrível pandemia” começarem a murchar. Como a mídia não tem autocrítica, porém, logo surgirá outro assunto para a irresponsabilidade dos responsáveis pelas manchetes e escaladas dos telejornais.

Não é preciso ser gênio para perceber que a cobertura dos últimos dias e semanas, focada na contagem do número de mortos que a maléfica gripe já provocou no país, não tem nenhuma outra utilidade senão a de disseminar o pânico. Quer ver como o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva , classificou a cobertura da Folha – e em especial uma reportagem publicada no domingo anterior (19/7), intitulada “Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses”?

 

O texto do ombudsman da Folha chama-se “No limite da irresponsabilidade”. Ao fundo vamos com  FEBRE DE BLUES com Marvio Ciribelli

A reportagem e principalmente a chamada de capa sobre a gripe A (H1N1) no domingo passado constituem um dos mais graves erros jornalísticos cometidos por este jornal desde que assumi o cargo, em abril de 2008.

O título da chamada, na parte superior da página, dizia: ‘Gripe suína deve atingir ao menos 35 milhões no país em 2 meses’. A afirmação é taxativa e o número, impressionante. Nas vésperas, os hospitais estavam sobrecarregados, com esperas de oito horas para atendimento.

Mesmo os menos paranóicos devem ter achado que suas chances de contrair a enfermidade são enormes. Quem estivesse febril e com tosse ao abrir o jornal pode ter procurado assistência médica.

O texto da chamada dizia que um modelo matemático do Ministério da Saúde `estima que de 35 milhões a 67 milhões de brasileiros podem [em vez de devem, como no título] ser afetados pela gripe suína em oito semanas (…). O número de hospitalizações iria de 205 mil a 4,4 milhões´.

É quase impossível ler isso e não se alarmar. Está mais do que implícito que o modelo matemático citado decorre de estudos feitos a partir dos casos já constatados de gripe A (H1N1) no Brasil.

Mas não. Quem foi à página C5 (e não C4 para onde erradamente a chamada remetia) descobriu que o tal modelo matemático, publicado em abril de 2006, foi baseado em dados de pandemias anteriores e visavam formular cenários para a gripe aviária (H5N1).

Ali, o texto dizia que `por ser um esquema genérico e não um estudo específico para o atual vírus, são necessários alguns cuidados ao extrapolá-lo para o presente surto´.

Ora, se era preciso cautela, por que o jornal foi tão imprudente? Ou, como pergunta o leitor Martim Silveira: `já que não tem base em nada nas circunstâncias atuais, qual a relevância de publicar algo que evidentemente só pode causar pânico numa população que já está abarrotando os postos de saúde por causa da gripe, quando os casos mal passam do milhar?´

 

Muitos leitores se manifestaram ao ombudsman. José Rubens Elias classificou a chamada de `leviana e irresponsável´. José Roberto Teixeira Leite disse que `se o objetivo do jornal era espalhar pânico, conseguiu o intento´. Para José Clauver de Aguiar Júnior, `trata-se claramente de sensacionalismo´.

O pior é que a Redação não admite o erro. Em resposta à carta do Ministério da Saúde, que tentava restabelecer os fatos, respondeu com firulas formalistas como se o missivista e os leitores não soubessem ver o óbvio. Em resposta ao ombudsman, disse que considera a chamada e a reportagem `adequadas´ e que `informar a genealogia do estudo na chamada teria sido interessante, mas não era absolutamente essencial´.”

Você ouviu a MORRENÇA DE MEUS CUMPADE com Jessier Quirino…

E vamo que vamo… retornando ao texto de Luiz Antonio Magalhães .

Carlos Eduardo, o ombudsman, se limitou a escrever sobre a Folha, mas as suas observações valem para praticamente todos os grandes jornais e telejornais. Todos os dias o público vai sendo informado do número de mortos em decorrência da nova gripe, porém sem qualquer referência estatística ou base comparativa que permita a compreensão do fenômeno em curso. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, já explicou que a taxa de letalidade da gripe suína é a mesma da gripe comum – cerca de 0,6% dos infectados acabam morrendo. (Para ser preciso, usando os dados da OMS divulgados na segunda-feira, 27/7, são 87 mil infectados nas Américas para 707 mortes. A taxa de letalidade fica em 0,8%, mas deve ser muito mais baixa porque os países pararam de fazer testes para descobrir os infectados, que devem superar em muito os 87 mil).

Do ponto de vista da imprensa, porém, este é um dado que não deve ser de maneira alguma alardeado – afinal, notícia ruim é o que vende jornal e aumenta audiência na televisão. As estatísticas também mostram que morre muito mais gente de diarréia e verminose por semana no Brasil do que, desde o início do ano (quase oito meses!) de gripe suína. Aliás, só no inverno passado (junho/julho) foram 4,5 mil mortos da gripe “normal” contra os tais 45 da gripe suína neste ano.Recordar é viver

Olha só… Mauricio Pereira cantando PRA QUE VOU RECORDAR O QUE CHOREI. Essa é de Carlos Daffé, lembra?

Pois então…o  pior de tudo é que a mídia insiste em não aprender com os erros passados. Ao contrário, gosta de repetir os mesmos equívocos, mesmo que eles possam vir a cobrar seu preço em perda de credibilidade. A cobertura da nova doença, por exemplo, faz lembrar um pouco a do tal do Ebola, o vírus que dizimaria meia África e deixaria um rastro de desgraça pelo mundo afora. Na época (edição de 9 de agosto de 2000), a revista Veja publicou reportagem apavorante. Ao fundo vamos com RECORDAR É VIVER, com o piano de Antonio Adolfo. Essa música, composta por Noca da Portela, J.Rocha, Edir e Poly foi o samba enredo da Portela em 1985.

O título da reportagem da Veja era “Truque assassino – Descoberto mecanismo de infecção do vírus Ebola, que mata nove entre dez contaminados”

O Ebola é um pesadelo. Capaz de liquidar suas vítimas em poucos dias, é o mais violento de todos os vírus. De cada dez pessoas contaminadas, nove morrem. Isso ocorre porque o microrganismo ataca veias e artérias de todo o corpo, provocando hemorragia generalizada. Certos órgãos, como o fígado e os rins, simplesmente se desfazem e o sangue jorra em tal profusão que sai pelos olhos e poros. Na semana passada, cientistas americanos anunciaram o primeiro passo para combater esse assassino cruel: a descoberta da proteína usada pelo Ebola para destruir as células, causando o rompimento dos vasos sanguíneos. Entender o mecanismo de infecção torna possível o desenvolvimento de recursos para controlá-lo. “Remédios exigem maior prazo de pesquisa, mas uma vacina pode ser desenvolvida com rapidez”, disse a VEJA Gary Nabel, coordenador da pesquisa no Instituto Nacional de Saúde, responsável pelos estudos com o vírus, nos Estados Unidos.

Bem, a África continua por lá e os africanos também. Mundo afora, parece que não foi muita gente que morreu contaminada pelo “pesadelo” da Veja, que mataria nove de cada dez contaminados. É evidente que a taxa de letalidade não poderia ser tão alta, é óbvio que a “reportagem” era uma aula de sensacionalismo barato. Sensacionalismo ou motivação política.

Coisa feita pra domar peão, sabe como é?

Olha só.. Sabe quem é? É o cantor nativista Leonardo com seu LIBERDADE PARA MORRER. Conheci o Leonardo no começo dos anos 90 em Gravataí, no Rio Grande do Sul. Um gaúcho daqueles… Leonardo, no Café Brasil

Qualquer estudante de primeiro ano de jornalismo ou qualquer jovem esperto, sem diploma, que entrar em uma redação percebe, em questão de minutos, o verdadeiro fascínio que as más notícias exercem sobre os jornalistas. Notícia ruim, tragédia das realmente pesadas, vende muito mais do que fatos positivos. A menos, é claro, que a boa notícia seja algum novo milagre de Fátima, a cura definitiva do câncer ou vitória da seleção em Copa do Mundo. O fato é que jornalistas gostam de notícias ruins porque elas vendem, portanto os ajudam a levar para casa o leitinho das crianças (em alguns casos, o “leitinho” é para os adultos mesmo). Enfim, a vida é dura e nada como uma boa manchete trágica para chamar atenção do público.

 

Pois então… Você vai continuar assombrado pelo fantasma da gripe? Ou da próxima gripe? Ou do asteróide que vai atingir a terra? Ou do sol que vai apagar? Ou o mar que vai subir? Tudo bem… A escolha é sua. Mas eu já aprendi, sabe?

Ninguém precisa desconsiderar os problemas. Medidas básicas de higiene, cuidar das gripes, tomar cuidados necessários é uma questão de bom senso. Mas cair na cilada dos que querem vender jornais ou remédios é coisa pra trouxa mesmo.

E é assim, ao som de SE EU NÃO MATO, EU MORRO, com Bezerra da Silva que o Café Brasil da gripe Suína, que parece ser eqüina, vai embora.

Com Lalá Moreira na técnica. Ciça Camargo na produção e eu: Luciano Pires na direção e apresentação.

Quer mais? Vá até WWW.lucianopires.com.br

E pra terminar uma frase do escritor estadunidense Claude Mcdonald:

Algumas vezes uma maioria simplesmente significa que todos os tolos estão do mesmo lado.