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038 – Silêncios

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Luciano Pires -
Gratuito!
17 MB

 

Bom dia, boa tarde, boa noite, bem vindo, bem vinda, bem vindos ao Café Brasil, o nosso programinha num cantinho do seu radinho. O tema do programa de hoje é instigante: vou falar dos vários tipos de silêncio! E para começar, que tal uma provocação de Abrahan Lincoln?

É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota, do que falar e acabar com a dúvida.

Silêncio. Você já reparou nele? Vivemos num mundo tão barulhento que quando nos deparamos com o silêncio, dá uma sensação esquisita. Dá até medo, não é? Meus filhos dormem com um aparelho qualquer ligado, fazendo um barulho no quarto. Pergunto a razão, eles dizem que não suportam o silêncio.

O silêncio parece estar em extinção, não é? Você também é daqueles que quando chega em casa, a primeira coisa que faz é ligar a televisão? Sabe que não vai assistir, mas precisa daquele barulhinho ali para “quebrar o silêncio”? Pois é…

Parece que o silêncio está irremediável ligado à sensação de solidão, não é? E a maioria dos humanos, odeia a solidão. Daí, detestar o silêncio.

Mas, fala a verdade, você já experimentou o silêncio para valer?  Eu experimentei numa ocasião especial. Foi no ano de 2001, quando eu fiz minha viagem para o Campo base do Monte Everest, no Nepal…

[showhide title=”Continue lendo o roteiro” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Estávamos hospedados num hotel chamado 8000, de onde sairíamos no dia seguinte para Gorak Shep, a última parada antes do Campo Base e onde fica o monte Kala Pattar, que eu pretendia escalar.

Aproveitei a manhã de sol em que eu estava bem disposto e, enquanto a turma descansava, fiz um trekking particular. Subi toda a encosta até chegar ao topo dos morros ao lado do hotel. Dali, pude avistar toda a geleira do Khumbu, até a cascata de gelo do Khumbu Icefall (a Cascata de Gelo) por onde o pessoal começa a escalada ao Everest. Que lugar! Uma imensidão. Os olhos percorrem aquela paisagem por quilômetros. Nenhum ser humano. Frio, gelo, neve, céu azul, nuvens em formas maravilhosas… e solidão.

Solidão como nunca senti em minha vida. Uma solidão agradável, de quem repentinamente se vê com todos os laços cortados com a humanidade, mas sabendo que seus amigos estão ali embaixo… E o silêncio.

Automaticamente meus ouvidos procuravam um som, um vento. Um corvo, alguém falando ao longe…mas nada. Eu, ali, e um astronauta, em Marte, deve ser a mesma sensação… com a diferença de que o astronauta está conectado com o mundo, falando com seus amigos.

Deu vontade de sentar ali e ficar até alguém me encontrar… mas, aí, a gente cai na real e vê que está sozinho, num lugar onde pode-se simplesmente desaparecer, dependendo de onde você cair…

Foi naquele momento que me dei conta de minha fragilidade, de como somos pequenos diante da natureza. E foi aquele silêncio que me despertou para a realidade. Tava na hora de voltar pra segurança dos ruídos da minha equipe… Foi uma experiência fascinante, e hoje, quando imagino um jeito de quebrar o silêncio, eu recorro às minhas origens caipiras.

Viola Cabocla

Viola cabocla não era lembrada…
Veio pra cidade sem ser convidada…
Junto com os vaqueiros trazendo a boiada…
O cheiro do mato e o pó da estrada…
Fez grande sucesso…
Com a… disparada…

Viola cabocla feita de pinheiro…
Que leva alegria pro sertão inteiro…
Trazendo saudade dos que já morreram…
Nas noites de lua do sai no terreiro…
Consolando a mágoa…
Do triste… violeiro…

Viola cabocla é bem brasileira…
Sua melodia atravessou fronteira…
Levando a beleza pra terra estrangeira…
Do nosso sertão é a mensageira…
É o verde amarelo…
Da nossa… bandeira…

Viola cabocla seu timbre não falha…
Criada no mato como a samambaia…
Veio pra cidade de chapéu de palha…
Mostrou seu valor vencendo a batalha…
Voltou pro sertão…
Trazendo… a medalha..

Ce tá ouvindo com Tonico e Tinoco, Viola Cabocla de Tonico e Piraci. Eu conheço pouca coisa melhor do que o som de uma viola pra quebrar o silêncio, sabe?

E aí? Vai um cafezinho aí?

É o verde e amarelo de nossa bandeira. E pra continuar falando em silêncios, trago uma poesia chamada HÁ SILÊNCIOS E SILÊNCIOS, de Fernando Clímaco Santiago, que diz assim:

Há silêncios e silêncios.
Há o silêncio da madrugada.
Há o silêncio da serenidade e da paz, que é íntimo.
Há o silêncio do humilde que é prova de amor.
Há silêncios e silêncios.
Há o silêncio das pedras.
Há o silêncio dos homens.
Há silêncios que ferem muito mais que o mais ensurdecedor dos ruídos.
Há vozes que calam quando podem falar, deixando um insuportável silêncio no ar…
É o silêncio da omissão.
São vozes sem voz, é gente sem vez.
O silêncio da omissão é o campo perfeito para que alardeiem os sinistros sons da injustiça e da miséria, da escravidão e da desigualdade.
Como ervas invasoras e parasitas, aproveitam-se do nosso silêncio de pedra… e crescem, espalham-se, dão frutos.
No entanto, o nosso silêncio de pedra, não é o silêncio das pedras.
Estas servem à natureza, e são ´colaboradoras´ da vida.
Nosso silêncio é o da inação e do medo, do comodismo e da ausência da cidadania e, assim, não servimos à vida… como servem as pedras.

Quantas vezes você já viu o juiz parar um jogo de futebol, ou só iniciá-lo depois de um minuto de silêncio? Quando a gente vê a cena, logo sabe que estão homenageando alguém que morreu. Você já ficou curioso de saber como é que isso começou? Pois saiba que tem um brasileiro envolvido nessa história!

O texto “O minuto de silêncio faz 90 anos”, foi escrito por DUDA GUENNES, diretamente de Lisboa. Mas antes do texto, eu vou fazer algo que eu queria fazer há muito tempo: tocar música portuguesa no Café Brasil.

O Silêncio da Guitarra

O silêncio da guitarra
Que à minha alma se agarra
Como se fora de fogo
Em meu peito se demora
Qu´a alegria também chora
E apaga tanto desgosto

Este silêncio do Tejo
Sem ter boca para um beijo
Nem olhos para chorar
Gaivota presa no vento
Um barco de sofrimento
Que teima sempre em voltar

Lisboa, cais de saudade
Onde uma guitarra há-de
Tocar-nos um triste fado
Quando a alma se agiganta
A tristeza também canta
Num pranto quase parado

Você está ouvindo O SILÊNCIO DA GUITARRA, um fado lascado, cantado por Marisa, uma das mais importantes cantoras portuguesas, considerada por muitos a sucessora de Amália Rodrigues. Marisa é moçambicana, e canta que é uma maravilha.

De todas as “invenções” portuguesas, a mais universal e mais difundida é, sem dúvida, o minuto de silêncio. O um minuto de silêncio com o qual presta-se homenagem a um morto ilustre. Tudo começou em 1912 com a morte do Barão do Rio Branco, ministro dos negócios Estrangeiros do Brasil e pessoa muito querida em Portugal, por ter sido um dos primeiros estadistas a patrocinar o reconhecimento da República Portuguesa em 1910.

José Maria da Silva Paranhos Júnior nasceu no Rio de Janeiro a 20 de abril de 1845, filho do também diplomata que se tornou famoso sob o título de Visconde do Rio Branco. Político competente, o barão foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante os governos presidenciais de 1901 até a data de sua morte em 10 de fevereiro de 1912. A sua morte teve tal repercussão no Brasil que o Governo baixou um decreto adiando o carnaval, para que esse período de festas não coincidisse com o luto nacional. Você consegue imaginar uma coisa assim? Isso é coisa das antigas.

E por falar em antigas, uma pausa para nossos comerciais.

A morte do Barão do Rio Branco causou um forte impacto em Portugal. A Câmara dos deputados na sua reunião do dia 13 de fevereiro, em homenagem ao morto ilustre, suspendeu a sessão por meia hora – como era tradicional. Já na reunião do Senado no dia seguinte, houve uma inovação que revolucionou a história.

O presidente, aludindo ao falecimento do Sr. Barão do Rio Branco, recordou que os altos serviços por aquele estadista prestados ao seu país e a circunstância de ser ele ministro quando o Brasil reconheceu a república portuguesa”, merecia uma honra especial. Honrou também o Barão do Rio Branco as tradições lusitanas da origem da sua família e por tudo isso o presidente propôs que durante dez minutos, e como homenagem à sua memória, os senhores senadores, se conservassem silenciosos nos seus lugares. Assim se fez…”. Cumpriu-se, então, o primeiro momento de silêncio que se tem notícia, numa sucessão que se vem prolongando até os nossos dias.

Depois deste dia, todas as vezes que morria alguém passível de homenagem, o Legislativo português repetia o gesto. E com o tempo, de dez minutos passaram a cinco, depois a um, como atualmente. E em seguida, as casas legislativas européias copiaram o modelo português e daí para o resto do mundo, ganhando visibilidade sobretudo nos estádios esportivos.

Tinha que ter um brasileiro envolvido nisso, né?

Pois é, existem silêncios da natureza, silêncios de homenagem, silêncios de meditação… mas existem também os silêncios forçados. Como aqueles da censura, que cala a voz dos que têm idéias diferentes daqueles que detêm o poder. Censura… O Brasil passou por isso algumas vezes, desde que foi descoberto. A censura, de todas as formas, se fez presente em nossa história, e a experiência mais recente aconteceu durante o regime militar iniciado em 1964.

Após a promulgação do Ato Institucional nº5, todo e qualquer veículo de comunicação deveria ter a sua pauta previamente aprovada e sujeita a inspeção local por agentes autorizados, os censores. Obviamente, muitos materiais foram censurados. E os artistas, jornalistas, o pessoal envolvido, não tinha como publicar e arrumou um jeito de dar um balão.

Algumas publicações impressas simplesmente deixavam trechos inteiros em branco. Outros, publicavam receitas culinárias estranhas, que nunca davam certo.

Além de protestar contra a falta de liberdade de imprensa, tentava-se fazer com que a população brasileira passasse a desconfiar de torturas, de mortes por motivos políticos, desconhecidas pela maioria.

A violência do Estado era notada nos confrontos policiais e quando algum conhecido desaparecia, mas ela não era imaginada nas proporções reais que tinha. Aparentemente, o silêncio imposto em relação às torturas era para que menos pessoas se revoltassem e a situação se tornasse, então, incontrolável.

Além da resistência ora camuflada, ora explícita da imprensa, artistas vinculados à produção musical encontraram como forma de protesto e denúncia compor obras que possuíssem duplo sentido, tentando alertar aos mais atentos, e tentando despistar a atenção dos militares, que geralmente descobriam que a música se tratava de uma crítica a eles apenas depois que era aprovada e era um sucesso entre o público. Um dos exemplos mais marcantes do jogo lingüístico e musical presentes do período é a música Cálice, que você escuta no fundo.

Cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)

Cálice foi composta por Chico Buarque e Gilberto Gil para ser apresentada no show Phono 73 que foi organizado pela antiga gravadora Phonogram no palácio das convenções do Anhembi em São Paulo, em 1973, em plenos anos de chumbo.

A letra da música, provocativa ao extremo, foi censurada. Eles começaram a cantar sem letra e os microfones foram sendo desligados pelso censores. O pessoal do MPB4 ia trazendo outros microfones que também eram desligados. Mas felizmente esse momento ficou registrado e é isso que você vai ouvir agora. O silêncio imposto pela censura.

Pois é, você ouviu Chico Buarque e Gilberto Gil cantando CÁLICE em 1973 em plenos anos de chumbo e sendo censurados. O pessoal, os censores, cortaram todo o som do local, mas só esqueceram de cortar o som que estava sendo  enviado ao ar pelas rádios. Portanto essa gravação sobreviveu ao tempo.

É o silêncio imposto como arma de pressão. E em homenagem ao silêncio, vou terminar o programa de hoje com ele.

Com Rodrigo Carraro na técnica, direção artística de Sérgio Sá, produção de Ciça Camargo e apresentação de eu, Luciano Pires.

Hoje estiveram presentes Abraham Lincoln, a cantora portuguesa Mariza,  Guennes, Chico Buarque com Milton Nascimento e Gilberto Gil e Tonico e Tinoco.

E pra terminar, a frase de Camillo Sbarbaro, escritor e poeta italiano:

Um amigo é alguém com quem podemos estar em silêncio.

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