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Bonde

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Chiquinho Rodrigues -

Eu não sei você, mas eu cheguei a andar de bonde, sim. (No tempo em que a Hebe ainda era paquita). Era uma barato! Eu ia com minha mãe visitar minhas tias lá no bairro do Brás. Bom demais era observar aqueles tipos craques de bonde que com elegância e malandragem subiam e desciam nas paradas com ele ainda em movimento. Os bancos eram duros, frios e o uniforme do motorneiro (esse era o nome do condutor de bondes) era impecável.

O motorneiro era em geral uma figura simpática, assim como um carteiro. Ali, todo paramentado, ele passava pra gente a maior segurança na sua maneira de conduzir, além de ser gentil e paciente com todas as pessoas que subiam e desciam do carro que pilotava. (Sem comparação com aqueles cavalos de hoje, que dirigem nossos ônibus e lotações e que são o terror das velhinhas que já sobem no veículo loucas atrás de um ferro (malícia zero aqui) pra
poderem se apoiar).

Pois bem, nunca me explicaram direito, nem hoje e nem na época, o que foi feito de todos os motorneiros quando os bondes deixaram de circular.

Será que foram remanejados? Viraram ascensoristas? Cobradores? Porteiros? Ambulantes? Sabe-se lá, né?

Eu nunca soube. E esse é um pensamento recorrente em mim toda vez que passo pela Rua Fradique Coutinho em Pinheiros onde lá trafegava um desses bondes e morou durante muitos anos minha tia Fernanda. (alguém sabe aí o nome dessa linha?).

Era só eu ouvir o som produzido pelo atrito das rodas contra os trilhos quando ele descia a rua, e eu já ia correndo até a porta pra observá-lo passar.

Aliás, você já ouviu ou imagina o som de um bonde andando nos trilhos? É lindo cara! E se não teve a oportunidade de ouvir na época, hoje só em gravação.

E existem ótimas gravações. Captadas com ótimos equipamentos e por bons profissionais.

Você lembra de um filme com o John Travolta em que ele interpreta um técnico de som que sai durante a noite captando sons com um antigo gravador Nagra e registra em áudio o som de um crime? (Esqueci o nome)

Bom… se você não lembra, não faz mal não. Não tem mesmo nada a ver com esta minha lenga-lenga toda. Era só um pretexto para eu te falar dessa fauna estranha chamada Técnico de Som.

Não sei o que seria da minha vida dentro de um estúdio sem ter a parceria de um desses malucos. E sabe… tive o privilégio de ter os melhores me conduzindo.

A maioria das pessoas que têm a música como entretenimento, não sabe e não tem a menor idéia do talento, da dedicação, sensibilidade e sapiência que são necessários para um profissional que pilota uma mesa de áudio.

Além de ter conhecimento técnico, estar disponível, ser pontual, trabalhar além do horário, estar “up to date” com as novidades e lançamentos, o cara tem que ter também muito saco pra aguentar ataques de estrelismos de cantores, atrasos de locutores afetados, donos de estúdio muquiranas, clientes pentelhos, maestros inseguros e produtores rodadores de lâmpadas. Isso tudo quase sempre sem reconhecimento algum e por um salário de merda.

Trabalhei com vários. E um deles foi o David.

Sabe… se algum dia Deus resolver participar de algum  congresso de deuses e tiver que fazer seu porfólio, eu não sei quem ele vai colocar na capa (talvez Juliana Paes, minha mãe, Jobim ou Os Beatles) mas na página que represente dedicação e competência, certamente estará a foto do David.

Eu nunca conheci ninguém tão organizado, dedicado e que fizesse algo com tanto amor quanto ele.

Não vou te contar dele operando áudio não.

Mas uma mesa de áudio de 24 canais tem mais ou menos uns 420 knobs (knobs são aqueles botões onde a gente regula graves, médios, agudos, reverber, volumes de instrumentos, fones e onde se faz muita merda quando não se sabe direito onde está mexendo).

E quando não tinha gravação ele tirava os 420 botões da mesa de som e limpava um a um com Veja e ESCOVA DE DENTES!

Ele é o único cara que conheço que vai dormir, e quando acorda, o pijama não está amarrotado e a gente não consegue encontrar sequer um fio de cabelo fora do lugar.

O David trabalhou durante muitos anos no Estúdio Bandeirantes e depois foi pro Estúdio Avant Garde, onde com o tempo, acabou se tornando sócio. Por onde passou, criou verdadeiras obras-primas. Referências na publicidade.

Outro maluco com quem trabalhei foi o Janjão (Só não sei direito o andar onde talvez ele deva ser internado, mas tenho certeza da sua insanidade sim).

Você conhece alguém viciado em manual de instruções?

O janjão é.

Ele lê o manual de tudo que encontra pelo caminho! Ele sabe de cor o manual de instruções do Pro Tools,  do Avid,  da instalação da caixa d água do prédio dele, do cel do sogro, do filtro Melitta, da caixa preta do Cesna, da enceradeira Electrolux, de todos os fornos microondas, regras de batalha naval, Badminton, caxeta, pôquer e disputa de palitinhos. Um pentelho!

Mas tê-lo pilotando uma mesa de áudio é ter a tranqüilidade e segurança de ser conduzido por um motorneiro em um passeio de bonde num ensolarado domingo de Jovem Guarda. (Época em que o Mário Lago era só uma poça d’água)

Você, amigo, que hoje grava seu programa de rádio, sabe o quanto se é dependente de um profissional assim. Eu poderia rechear esta crônica com centenas de histórias sobre técnicos de estúdio como: Miro, Shaolin, Zorro, Gato, Mica e muitos outros que por osmose e transpiração me ensinaram o pouco que sei.

Te tudo isto porque recebi muitos e-mails e telefonemas por conta da crônica “Uma História de Áudio”. E fiquei sabendo então que muitos estúdios fecharam suas portas nos últimos anos: Cardan, Zelão, Cinestudio, Sonima, Publisol, Eldorado, Sonotec e outros tantos.

No mês passado foi a vez do estúdio Avant Garde desistir da luta. E meu amigo David, depois de mais de 30 anos dedicado ao áudio, está desempregado. Vivendo praticamente de bicos em estúdios de ensaio. (sei que vai encontrar
algo adequado).

E o Janjão está voltando para Recife, sua terra natal. Pois aqui também não tem encontrado trabalho.

Histórias de áudio, que eu sempre pensei que fossem terminar num sutil, leve e demorado fade out. Sumindo aos poucos, levadas pelos próprios sinais dos tempos. Como o som desafinado de um apito de um trem que passa e se
perde ao longe, (Doppler explica isso) ou o som do atrito das rodas nos trilhos de um bonde subindo uma ladeira e sumindo numa madrugada qualquer da nossa infância.

Para onde irão os técnicos de som quando fecharem todos os estúdios? Pro mesmo lugar que os motorneiros?

Entendo sim que o velho deva dar lugar ao novo… que transições são necessárias. É o ciclo natural da vida.

Mas eu gostaria de uma transição mais lenta… mais gradual…

Eu insisto. Um final mais condizente com uma história de áudio. Um sutil e demorado fade out…

E não um inexorável e violento… mute geral.

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