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Chiquinho Rodrigues -

Quando eu era moleque morava na Moóca.

Acho que se fizerem uma boa pesquisa vão descobrir que a Moóca possui a maior concentração de figuras e malucos por metro quadrado desta cidade.

Conheci vários. Mas hoje vou te contar do Chichillo.

Ele era filho de imigrantes italianos e estudava comigo no Colégio São Judas Tadeu. Descrever esse cara é meio difícil…

Pra começar, você já viu alguém que carrega na mão o tempo todo um lenço amassado e sujo de ranho?

Pois é, isso quase fazia parte dele. (além do nariz escorrendo o tempo todo, claro).

Ele era baixinho, cabelos encaracolados, quase sempre vestindo preto e os bolsos viviam cheios de bugigangas tipo: figurinhas, tampinhas de garrafas que ele colecionava, bolinhas de gude, chicletes, chave-de-fenda e parafusos.

A voz era meio fanhosa. O vocabulário e o modo dele falar eram parecidos com o jeitão desse pessoal da Globo quando faz novela sobre imigrantes italianos. Porém, autores, diretores e atores esquecem que, além do sotaque,
falta na interpretação deles aquela “música do Brás” que no Chichillo tinha de sobra, e que eu nunca vi contemplada por ator nenhum.

Mas o mais impressionante nele era o olhar sonhador.

E o maior sonho do Chichillo era poder um dia ser um inventor reconhecido e de sucesso.

Ele vivia criando coisas práticas e úteis pra turma toda (algumas na verdade eram até muito estranhas).

Tipo: um freio novo e mais eficaz para os nossos carrinhos de rolimã, uma bola que voltava sozinha pra gente depois
que caísse no quintal de algum vizinho chato, um estilingue duplo para acertar dois passarinhos de uma só vez, ou “envenenar” um amplificador de guitarra para o som sair mais porrada, enfim, estava sempre inventando uma
coisa nova. (que nem sempre funcionava direito).

Não jogava bola, não brincava de passa-anel, beijo-abraço-aperto-de-mão, mana-mula, mãe da rua, não participava das festas juninas, bandas… nada!

Aparecia e desaparecia como por encanto e sempre tinha uma novidade pra mostrar, geralmente algo novo (e estranho) que tinha inventado.

Os anos passaram-se, estradas diversas a todos, e nunca mais vi esse garoto.

No começo, depois de a turma toda se separar, eu ainda me lembrava dele quando tinha algum pepino doméstico pra resolver (Santo Chichillo! Cadê você?).

Mas o tempo foi passando e ele acabou empoeirado num cantinho da minha memória junto com toda a turma daquela rua maravilhosa e daqueles anos febris.

Um dia desses, eu estava passeando por um shopping quando ouvi meu nome pronunciado timidamente atrás de mim, daquele jeitinho de quando a gente não tem certeza se está falando com a pessoa certa.

Me virei e lá estava ele. Chichillo!

Não o reconheci logo de cara. Fiquei em dúvida, pois ele tinha envelhecido estranho.

Quase careca, cabelos brancos, pálido, faltando alguns dentes, a boca murcha, muito longe do menino de nariz sujo que eu lembrava.

Mas enxerguei uma coisa ali no meio daquelas rugas todas que me plugou direto ao passado. O olhar sonhador!

Então eu tive certeza. Era ele mesmo.

A gente se abraçou, fizemos festa, falamos dos amigos, dos filhos, dos sonhos e do que a vida tinha contemplado pra cada um de nós.

Aí eu perguntei que rumo havia tomado toda aquela sua inspiração pra inventar coisas e tal…

Ele mudou de expressão. Puxou-me para um cantinho, olhou pros lados e disse:- Chico, se prepare… Vamos encher o cu de grana!

-É mesmo? – Disse eu achando gozado e lembrando que toda vez que eu ouvi isso em minha vida, só tomei.

Ele então fez questão de explicar:

– É segredo, mas vou te contar. Desenvolvi nos últimos anos um produto sintético em parceria com a NASA!

Disse isso e ficou me olhando pra sentir o efeito da revelação.

Eu, politicamente correto, coloquei meu lábio inferior pra frente, arregalei os olhos, balancei a cabeça e fiz aquela cara de… Porra !

– E pra que serve isso? — Perguntei.

Ele contou então que essa substância era toda a base do seu invento. E o invento era nada mais, nada menos, que uma pílula. Que a pessoa tomava, o cabelo crescia na mesma hora e já na forma do penteado escolhido. Maluco né?

-?!?!?!?!?! – eu assim.

O olhar sonhador me explicava que era possível escolher estilos, cores, volumes, texturas ou qualquer porra que a gente criasse.

Era simples seu uso. De manhã, logo depois do banho, era só abrir a caixinha e escolher a cor, o tipo, estilo e comprimento do cabelo. (a caixinha vinha com 12)

E em mais ou menos uns quinze minutos o penteado já estaria pronto. E se não ficasse bom pro seu rosto ou não combinasse com a roupa que se estivesse usando, era só escolher uma outra pílula e tomar novamente. (trocar a roupa já era coisa do passado!)

O penteado durava uns 20 dias e o produto era indicado tanto pra homens quanto pra mulheres (até carecas podiam usar).

Estava em fase de testes porque havia ainda algumas restrições e contra indicações, continuou ele explicando.

Algumas pessoas não podiam comer alcachofra, mangaba ou beterraba 12 horas antes da aplicação (parece que provocava alergias ou alteração na cor, sei lá).

Também não era aconselhável frequentar certos lugares como pastelarias, tinturarias e Dry-cleans. Parece que o vapor mudava as moléculas da substância, o penteado se desfazia em poucos segundos e a pessoa tinha a impressão que havia uma omelete plantada em sua cabeça.

É claro que tudo dependia também da cor utilizada. Poderia então parecer um vômito, uma tarântula, um fettuccine ao pesto, uma perereca molhada, sei lá, coisas assim.

Ele tentou me explicar mais alguns detalhes técnicos de como funcionava a coisa toda, mas eu já não estava mais interessado nessa parte.

Eu estava viajando. Fui ouvindo aquilo tudo e pela primeira vez em minha vida comecei a pensar na possibilidade de não ser mais careca.

Tudo bem! Eu sei que provavelmente ele estava delirando ou tirando uma onda com a minha cara, mas vai saber…

Na hora resolvi acreditar e nos despedimos. Trocamos cartões, fones, e-mails, endereços e abraços.

Fui pra casa fingindo que estava tudo bem.

Mas eu estava estranho!

À noite, depois do banho, me sentei para uma leitura. Peguei a Veja e quase nem me interessei pelos novos escândalos.

Eu só tinha olhos pra cabeleira do Roberto Jeferson! Sim pelos tipos de cortes e cabelos daquele pessoal todo estampado ali.

Fechei a revista e liguei a tv. A mesma merda! Eu só enxergava gente bonita e cabeluda.

Quase perto de adormecer, cochilei um pouco e sonhei então que participava de um comercial de shampoo onde eu saia do mar em slow motion e corria em direção à areia balançando meus longos e lindos cabelos.

Uma trilha tipo acid jazz ia diminuindo em BG e o locutor entrava dizendo: “Faça como ele… seja ridículo depois dos cinquenta”

Fui dormir de tromba.

No dia seguinte resolvi ligar pra ele.

– Chichillo, posso experimentar essa porra? – Disse meu bafo de dentifrício.

– Quando? – perguntou ele.

– Pode ser agora? – resmungaram minhas olheiras impacientes.

– Vem pra cá.

Vou te poupar não descrevendo onde ele mora.

Vou te poupar não descrevendo o laboratório dele.

Vou te poupar não contando da marmota acústica que ele inventou.

Vou te poupar.

Vou só te contar sobre as pílulas.

Eu achava que era um produto Just-in-time. Onde você poderia escolher o tipo, a cor, tamanho etc.

Mas não era não.

Era mais chegado a um Prêt à Porter. Cada caixinha continha 12 cortes já prontos pra serem usados. E ao lado dos comprimidos vinham impressos alguns títulos de cortes (com fotos ilustrativas) que pareciam mais coisas de CD ou
DVD.

Cortes de cabelos com nomes tipo:

– Elvis in Havaí

– Travolta

– Mariah

– (Blonde & Brunette)

– Madonna

– Hot

-Tom Cruise

– Missions

– Chandler Bing (do Friends)

– Carla Peres in Tchan

– Luciana Gimenez

– Apliques

– João Gordo

– À Go Go

– Robert Clooney

– Básico

– Zé Bonitinho

– Total

– Gianecchini

– in Borracharia

– Juliana Paes

– Cellebrities,

– Roberto

Acústico… (não lembro o resto)

Na falta do Jeferson, resolvi tentar o Elvis.

Tomei banho, lavei a cabeça, engoli o comprimido e esperei.

Olha, te dou uma dica.

Quando você for experimentar o seu, não faça como eu que fiquei plantado ali em frente ao espelho esperando. A transformação é horrível! (parece a composição de um retrato falado).

Bom… depois de alguns minutos, estava pronto!

Eu tinha pela manhã tomado um café básico. Pão, manteiga, leite, sucrílhos…
Vomitei tudo de tanto rir.

O Chichillo pra me acompanhar e piorar, tomou um comprimido de “Mariza Orth in Sai de baixo”.

Cara… vou te poupar mais uma vez e não vou me descrever aqui com o topete do Travolta e nem do Zé Bonitinho.

Foi uma manhã interessante e divertida. Percebemos que os anos fizeram a gente perder os cabelos, mas não o senso de humor.

Bom… tive que tomar por último uma pílula com o corte chamado “George Constanza” (amigo do Jerry Sienfield) para eu poder ficar então o mais parecido comigo mesmo e poder voltar pra casa (mas antes de ir embora eu
peguei na caixinha um comprimido da Madonna Hot pra eu colocar qualquer hora de mansinho no café do meu sócio).

O mais estranho é que eu voltei lá depois de alguns meses, e no lugar do laboratório encontrei apenas um terreno baldio. Na vizinhança me explicaram que há muito existiu ali sim uma casa onde viveu por muito tempo um estranho
cientista. Mas ele já tinha morrido há mais de dez anos.

A esta altura você deve estar se perguntando:

Porra Chico, Mas o que tudo isso tem a ver com som?

A única maneira de eu te responder isso, velho, é te mandando em MP3 o tema do filme Borsalino tocado por dois violonistas chamados Tommy Emmanel e Chet Atkins. Depois então de dar play na canção, volte da capo, isto é,
volte do início este conto e releia-o inteiro com essa trilha ao fundo, deixando assim, levemente a música pousar em seu coração.

Daí então, se você não voltar aos anos 60, não se sentir na Moóca da Pepe Legal e não pressentir o espírito do Chichillo ao seu lado…

Cara, não me chamo mais Chico Rodrigues.