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Amigos, as revistas Veja e Isto É decidiram atacar o escritor Olavo de Carvalho nas matérias centrais das suas edições da semana.

A que se deve esse ataque, orquestrado pelas duas maiores revistas semanais do Brasil, a um homem que simplesmente escreve, sozinho, fora do país? Evidentemente, esse ataque foi planejado por grupos políticos com o interesse em construir uma narrativa de acordo com a qual o Olavo de Carvalho seria um dos “pilares” do governo Bolsonaro. Constrói-se essa narrativa para depois desconstrui-la e, assim, se obter alguma vantagem estratégica na disputa (que não se encerrou em outubro) pelo controle, soft ou hard, da presidência.

(Deveria ser desnecessário dizer que essa narrativa, engolida por muitos, é absolutamente fantasiosa. Como um escritor solitário, que vive com sua família numa casa no interior de outro país, poderia ser “uma coluna de sustentação” da presidência do Brasil?)

* * *

Esse ataque absolutamente desproporcional a um escritor, com o propósito de obtenção de vantagens estratégicas por um grupo político, me causa indignação. Fosse o alvo Marilena Chauí, fosse João Quartim de Moraes, a indignação seria a mesma. A minha razão não segue partidos.

Por isso, faço aqui a defesa de um escritor solitário contra o sistema político-midiático.

* * *

A minha razão não segue partidos. Mas há algo que se exclui do meu horizonte de possibilidades políticas: não posso ser considerado um homem “de direita”. Estudo a obra do Karl Marx, partilho de boa parte das posições sobre a sociedade e a cultura defendidas por Adorno e Horkheimer, estou convencido que sob a teatralidade pop do Žižek há, sim, um hegelianismo “de esquerda” up to date (o que fica evidente em sua opus magna: “A visão em paralaxe”). Julgo o liberalismo econômico (e a sua metafísica que atribui um status ontológico substancialista a relações abstratas) algo muito estúpido do ponto de vista filosófico. Considero que o golpe de 64 foi uma tragédia para o nosso país sob qualquer perspectiva: intelectual, cultural, política, econômica. Sempre deixo claras as minhas amplas críticas e discordâncias ao modo como o governo atual (no que, aliás, segue os anteriores) lida com o problema da educacão: o governo não tem a mínima idéia do que seria necessário fazer, e faz precisamente o contrário do que deu certo nos países que consertaram sistemas educacionais falidos. Em suma: não apóio o atual governo, nem pertenço a nenhuma “direita”.

Todavia, não escolho as minhas leituras por afinidade política. Escolho-as por interesse intelectual.

* * *

Por esse motivo, li, desde os anos 90, alguns livros do Olavo de Carvalho: “O imbecil coletivo”, “O jardim das aflições”, “A nova era e a revolução cultural”, “Aristóteles em nova perspectiva”, o livro sobre Descartes, o sobre Maquiavel. Não me interessam as polêmicas, os tuítes e os xingamentos – justos ou injustos. Não assisti a muitos vídeos seus do Youtube. Tampouco li o famoso “Mínimo”.

Fui apresentado ao texto do Olavo em meados dos anos 90 – com a polêmica do “Imbecil Coletivo”. Meu saudoso avô Adolpho comprou o livro e eu, adolescente, o li. Achei divertidíssimo na época. Contudo, não sei se as referências e as gozações seriam compreendidas por inteiro pelos leitores de hoje.

Depois, li “O jardim das aflições”. Um texto surpreendentemente diferente. Eu havia assistido, em vídeo, a todas as conferências do José Américo Pessanha sobre Epicuro no MASP, justamente aquelas às quais o Olavo se refere no livro. A minha orientadora da iniciação científica ao doutorado fôra, por sua vez, orientanda do José Américo. As conferências são realmente apaixonantes (no sentido de dispor o espírito num certo pathos, para o bem e para o mal), e o livro do Olavo, ao apontar que elas constituem um sintoma de um movimento histórico-cultural muitíssimo mais amplo, é brilhante. É possível se educar com as conferências do José Américo e com a crítica do Olavo? Claro que sim. Isto é a dialética da inteligência.

Li “A nova era e a revolução cultural” no contexto de meus estudos na graduação de filosofia. Eu já conhecia bem – talvez bem demais… – os livros de popularização pseudo-científico-esotérica do Fritjop Capra. Havia lido recentemente o míssil Sokal-Bricmont, no contexto das Science Wars, que constituem o pano de fundo de uma das discussões do livro do Olavo. “A nova era…” foi um livro de guerra, uma tomada de posição clara – talvez para se distanciar, por meio da denúncia do movimento “new age”, de qualquer compromisso com idéias porventura defendidas em seu passado de astrólogo (a respeito do qual, por sinal, nada sei).

Os pequenos livros sobre Aristóteles, Maquiavel e Descartes, por sua vez, são interpretações (e julgamentos) originais: são textos evidentemente escritos por um professor de filosofia – e trazem o frescor dos ares de fora da Academia, sem a busca pela análise conceitual pasteurizada. (A pasteurização do leite mata micróbios, mas também impede que dele se faça um bom queijo). Esses três pequenos livros, sozinhos, já lhe justificariam o título de professor de filosofia – ou de filósofo.

* * *

Talvez um dos trabalhos de maior importância do Olavo para a cultura brasileira tenha sido a apresentação aos estudantes brasileiros – e o encorajamento da tradução e da publicação – de filósofos e escritores que raramente eram lidos por aqui: Bernard Lonergan, Leo Strauss, George Bernanos, René Girard, Louis Lavelle, Eric Voegelin e tantos outros. E a reabilitação do Mário Ferreira dos Santos. Se fosse somente por isso, o Olavo já seria incontornável para a compreensão da inteligência brasileira dos últimos 20 anos.

Não é preciso ser “de direita” para reconhecer o valor do Olavo na nossa cultura após a virada do século. Basta seguir o princípio da honestidade intelectual – que é o princípio fundamental dos amantes da sabedoria.

* * *

O trabalho de um escritor é muito menos importante, para a ordem do dia, do que as questões políticas e econômicas. Mas é muito mais duradouro. Daqui a dezenas ou centenas de anos, quando a família Bolsonaro for somente uma lembrança curiosa nos livros de história, quando as revistas Veja e Isto É perfilarem-se junto à Cruzeiro e à Manchete, os livros escritos e indicados pelo Olavo de Carvalho ainda serão lidos – como serão lidos os livros da Marilena Chauí e do João Quartim de Moraes.

Amigos, compreende-se que os políticos sejam atacados por seus adversários e pelas publicações amigas de seus adversários. Mas atacar um escritor – qualquer que seja a sua posição política – para atingir, indiretamente, um objetivo político do momento é insultar todos os escritores e intelectuais. É insultar o que resta da inteligência brasileira – essa desconhecida das redações, onde foi há tempos substituída pelos trends da semana.

Por isso, defendo o Olavo de Carvalho – o escritor e a obra -, como defenderia qualquer intelectual, de qualquer campo, que fosse atacado por razões evidentemente políticas. Amigos, a defesa de um escritor agredido politicamente é um dever moral. Ainda que tenhamos – e talvez principalmente se tivermos – discordâncias políticas. Afinal, a inteligência não pode ter partido.

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