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Licença Poética

Licença Poética

Chiquinho Rodrigues -

Reza a lenda que um dia João Gilberto, estando no consultório de um psicanalista (para uma eventual avaliação de sua sanidade), parou em frente de uma das janelas e, pensativo, vendo lá fora o vento balançando as copas das
árvores, teria comentado:

-Vejam que lindo… o vento está assanhando a cabeleira dos coqueiros!

E uma das enfermeiras (ou médico, sei lá) teria espantada observado:

– Mas, João, árvores não têm cabelo!

E o João com o tacape em riste, respondido:

– E tem gente que não tem poesia.

Pois é. Licença poética é foda!

Em nome dela escreveu-se muita coisa boa. Mas também tivemos (e ainda temos) que aguentar muita merda.

Algumas, são só frases de efeito e que não querem dizer mesmo muita coisa.

Mas têm outras, cara, que fazem brotar de verdade na gente aquele orgulho bom pela língua portuguesa.

Conheço muita gente, que como eu, (em busca da frase perfeita) dorme com lápis e papel colados à cabeceira da cama para poder registrar toda e qualquer ideia. Que pode vir a qualquer hora, no meio do sono, do banho ou
no escurinho do cinema.

Não vou fazer aqui nenhuma lista de frases boas e ruins não (até porque cada um tem seu grau de “poesia” pra enxergar cada uma delas). Só vou colocar algumas que gosto, acho bonitas, geniais, curiosas ou simplesmente
lembrei agora na hora de escrever. Coisas como:

Caía a tarde feito um viaduto.

Tua beleza é um avião.

Branca é a tez da manhã.

Mata-borrão do céu.

Ladeira da memória…

Cometas percorrendo o céu da boca…

Feito desgosto de filha.

Esse canto torto feito faca.

Na casa da paixão…

Um pedaço de Saigon

A luz dos olhos meus precisa se casar.

Vive morre pão…

Noites com sol…

Bebedeira louca… ou lucidez

Bloco dos Napoleões retintos…

Da sloper da alma.

Sons, palavras, são navalhas.

Você entrou em mim, como um sol no quintal.

Fica a ausência branca e marron.

A cuba-libre da coragem em minha mão…

Tios na varanda… jipe na estrada…

Se eu chorar e o sal molhar o meu sorriso…

Deixa as fraldas do vento…

Em vez de rosto a foto de um gol.

O vento cantando no arvoredo…

É o tempo, Maria, te comendo feito traça.

O sol se reparte em crimes.

Asa do meu destino…

Amar é perder o tom nas comas da ilusão.

O amor é a ausência de engarrafamentos.

E por aí vai.

A poesia permite isso. E tenho inveja (boa) de não ter criado quase noventa por cento das frases que eu citei aí.

Um dia desses ligou para mim o nosso amigo Nico Resende. E no meio da nossa conversa fiquei sabendo que ele é o autor da música título do novo álbum do Jorge Vercilo, Signo de Ar.

Aproveitando então que o Vercilo estava se apresentando aqui em Sampa, eu fui ao show dele. (pena eu não poder ter levado meu filho Bruno Henrique, ele tem só nove anos, mas já é super fâ do Vercilo).

O show é bom. E o cara compõe, toca e canta muito. Os músicos são competentes e o som estava bonito.

Mas no meio da apresentação me veio à lembrança um pedaço da conversa que eu tivera com o Nico pelo telefone, aonde ele chegou a me perguntar se eu tinha algumas letras prontas pra ele poder colocar música.

A partir daí me concentrei então no teor das letras (pra poder sacar qual a praia que eu deveria compor). Foi quando o Vercilo resolveu então apresentar a música do Nico (Signo de Ar).

A música é mesmo muito bonita, está bem cantada e o arranjo é bem esperto (a cara do Nico).

A letra tem frases bonitas, curiosas, de infinitos sentidos e efeitos. Coisas como: “As varandas do meu coração” … “Sorriso de constelação”…”Varal do verão”…

Se aquela enfermeira que atendeu o João Gilberto ouvisse essa canção,
provavelmente diria ao Nico:

– Porra velho! Coração não tem varanda!

Mas, deixa pra lá.

O show terminou. Fui pra casa inspirado e pensei em escrever algo pra ele, mas eu estava muito cansado e acabei pegando no sono com a tv ligada na bosta do Programa do Jô.

Seguinte: eu ainda não tive tempo de escrever nenhuma letra e nem nada especial pra mandar pro nosso amigo.

Portanto, queria poder usar este espaço aqui pra poder mandar algumas sugestões de frases, para que ele possa usar em suas próximas composições.

Usando (e abusando) da licença poética, e baseado em frases como “No varal do verão”… “Sorriso de constelação” e “As varandas do meu coração”, eu gostaria de sugerir algumas coisas como:

No hall dos seus pulmões….(que tal?)

Na sacada dos seus lábios…

Tardes de pleura…

Alpendre de suas bochechas…

No avarandado das suas córneas…

Quintal dos seus artelhos…

Periferia das suas rótulas…

Virilhas de outono… (bom título pra CD)

Safenas ao cair da tarde…

Quietude de panturrilhas… (boa esta, né?)

Adegas de mis nádegas… (se estiver de olho no Mercosul)

Porões do seu umbigo…

Coriza de minhalma…

Hérnias em setembro…

Sadjada de agrijones… (ainda pro Mercosul)

Verde que te quero fígado…

Limiar de sobrancelhas…

Primavera nasal…

Se alguém tiver mais alguma sugestão, (desse naipe) é só usar aqui o espaço que temos para comentários e ter a certeza que vamos sim fazer chegar até o Nico Resende.

Ele vai adorar. (Bom… neste ponto eu reli a matéria toda e comecei a ficar em dúvida se ele vai gostar das sugestões ou ficar meio puto comigo).

Contei que eu e ele ficamos quase uns vinte anos sem nos falarmos?

Pois é… estou com receio dos próximos vinte…

Olha Nico… pra eu escrever esta crônica, tive que reler e ouvir muita coisa que há anos não ouvia. (Caetano, Gil,
João Bosco, Aldir, Djavan, Vinicius, Jobim, Ivan, Belchior, Gonzaguinha, Lô Borges, Horta, Milton…).

E ao ouvir despertei sentimentos pela música brasileira que estavam meio atrofiados em mim.

Percebi então que é maior o número que gente boa que está quase indo embora, do que o número de gente boa que está chegando pra ficar.

E você sabe né?

Ficar triste nessas horas é muito fácil.

Então resolvi escrever umas besteiras só pra gente achar que é engraçado chamar mulher de cachorra.

Repare não velho… Mas às vezes, escrever é desopilar.

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