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Música por quilo

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Chiquinho Rodrigues -

Cara… tive um sonho muito maluco esta semana!

Mas antes de te contar o sonho, vou te falar do estado de espírito em que eu me encontrava um pouco antes de me deitar nessa noite.

Eram umas onze horas e o telefone tocou.

Era meu amigo Laércio (músico) me contando que estava dando graças pelo fato de ter arranjado um trabalho para o fim de semana.

Como ele toca vários instrumentos (violão, guitarra, contrabaixo), eu perguntei:

– Ô Laércio, qual instrumento você vai tocar?

E ele: – Piano.

Eu, sem entender: -Ué! Desde quando você toca piano?

Ele com naturalidade: – Nunca toquei, vou dublar.

Deu pra entender? (vou explicar)

Ele toca de vez em quando em uma banda onde o dono arma os playbacks no teclado ou grava em MD. O cara coloca o pai tocando guitarra, arregimenta uma cantora, e com ela divide o repertório cantando durante a noite toda.

Quando um cliente mais exigente (sic!) reclama do pouco número de músicos no palco, o dono da banda chama meu amigo pra dublar o piano… o motorista da Kombi pra dublar o contrabaixo…. e de vez em quando ele chama também uma dupla de zagueiros do time do Parque da Mooca pra dublarem os metais.

Você dá risada, né?

Eu também dei (no começo). Fiz até umas piadas com meu amigo Laércio, dizendo que já que era pra dublar, poderiam ter arranjado alguém mais bonito e tal…

Mas depois dessa conversa, eu fui dormir e tive então esse sonho perturbador.

O sonho era sobre um jovem casal de noivos, que durante os preparativos da sua festa de casamento, foi até o mercado comprar a música que seria servida aos convivas após a cerimônia religiosa. (já começa estranho, né?)

Passeavam por imensos corredores desse felliniano mercado onde a gente podia perceber vários tipos de guitarristas, bateristas, contrabaixistas e tecladistas, pendurados como se fossem salames.

Em enormes gôndolas, podiam se ver amontoados alguns cantores e pacotes de ofertas de meninas pra backing vocals ou bailarinas.

Naquelas barricas de madeira que a gente encontra cheias de azeitonas na feira, havia alguns saxofonistas, trombonistas e trumpetistas curtindo no vinagre. (acompanhados de picles e aquelas horrorosas sardinhas no palito).

E lá foram eles, escolhendo e enchendo o enorme carrinho. Colocaram um tecladista, um guitarrista, um baixista, um batera, umas meninas pro backing, um cantor e uma cantora, alguns metais (que pegaram naquela barrica) e um mestre de cerimônias que já vinha com algumas frases já programadas do tipo:

-Viva os noivos!

-Oi pessoal… é hora da valsa!

-Atenção… todo mundo chegando aqui… vamos cortar o bolo!

E por mais alguns reais, (na oferta) você poderia programar o mestre de cerimônias pra cantar uma seleção de carnaval, e na hora da valsa…“Champagne… per brindare un encontro….”

Depois disso, passaram por uma barraquinha onde uma menina de minissaia fazia degustação de seleções de músicas que poderiam ser “aplicadas” (ou dar um download) nos músicos escolhidos. Para animar a festa o casal escolheu então algumas coisas de MPB, axé, internacionais, rock, anos 60, aquela bosta de seleção de “volta ao mundo”, sambas, boleros, alguns teminhas de bossa nova pra serem servidos de entrada, e… começou então uma puta discussão!

O noivo queria por todo meio levar uma seleção dos Beatles (que não estava na oferta) com a desculpa que era pra “agradar os velhos”.

E a futura esposa achava que se era pra agradar a velharada, melhor então era levar algo do tipo Ray Conniff.(que estava na promoção junto com um pout-porri do Elvis) – Porra amorzinho…

– Disse o cara. — O Ray é muito velho!

E ela com as mãozinhas na cintura e batendo o pezinho:

-Ah é? E os Beatles? São o que?

Nisso, um guitarrista (com a cara do Aurélio) que estava espremido no carrinho por debaixo das backing disse:

– Epa! Ninguém fala assim do Beatles na minha frente!

– Vai se fuder você, que ninguém te chamou na conversa -disse a finíssima noiva.

Daí pra frente (como acontece em todos os meus sonhos), a coisa começou a ficar esquisita e sem sentido.

O noivo (tomando as dores da noiva) se indispôs com o guitarrista e ameaçou trocá-lo por um acordeonista (que era bem mais em conta).

O trombonista (com um pedaço de sardinha na gola) “se doeu” pelo guitarrista e fez um comentário sobre algo que faria com a vara do trombone naqueles dois ingratos…

Dentro do carrinho a cacofonia era geral!

As backing começaram a emular a Mariah, com aqueles defectíveis e insuportáveis agudos…  O batera dando porrada nos pratos… o guitarrista plugou sua Fender num pedal de distorção e daí direto num enorme amplificador Marshal, onde só se ouvia microfonia… o baixista estilingava um baixo de 19 cordas e a bunda das cantoras… e no meio de tudo isso, EU era a menina do caixa que perguntava o número do RG do noivo pra colocar atrás da porra de um cheque (só eu mesmo!).

Acordei.

E a primeira coisa que me veio à lembrança foi a imagem do meu irmão Vitché em frente ao espelho, de smoking, se preparando pra mais um sábado a noite memorável, onde ele estaria presente à um baile de formatura no Pinheiros.

Bailes cujos convites eram disputados a tapa.

Palcos inundados de boa música, ocupados por Simonettis… Mazzucas… Supersons… muita gente de Sampa… e 3 do Rio.

Meu amigo Aurélio um dia disse: Já não fazem mais milk-shake e banana-split como antes, nem tomamos mais gasosas! Maísa foi viver sua vida com outro alguém e o banho de lua da Cely Campelo virou banho de assento. Nat King Cole, Ray Charles, Elis, Beatles, Bee-Gees e tantos outros… foram-se!  Foram-se também a Ducal, A Mesbla, A Eletroradiobrász, o Mappin e todas as boas casas do ramo. O Dodge Charger, o Galaxie,  Maverick, Fusca, Opala, Brasília…estão engarrafados no passado. Minister, Hollywood, Lincoln, Luís XV, Continental sem filtro viraram fumaça… juntos com O Cruzeiro, Manchete e O Pasquim. Foram-se Big Boy, Excelsior e Difusora, Sábado Som,Vicente Leporace, Arrelia e Pimentinha. Dançaram pelos bailes da vida… o Círculo Militar, o Juventus, O Espéria, formatura no Aeroporto, no Pinheiros e a música ao vivo.

Lú, lembra de eu lhe ter dito: “Há muito eu tirei o pé do passado”?

Mentira né?

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